Unidade móvel vai assegurar teleconsultas no terreno

Os modelos de intervenção da Associação Ares do Pinhal para a erradicação da hepatite C já foram reconhecidos pela OMS. Depois do interregno provocado pela Covid-19, o diretor clínico revela que uma unidade móvel vai agora poder assegurar teleconsultas de especialidade.

Em que consiste o Programa de Substituição Opiácea de Baixo Limiar de Exigência?

O Programa de Substituição Opiácea de Baixo Limiar de Exigência (PSBLE) da cidade de Lisboa, gerido pela Associação Ares do Pinhal e financiado pelo SICAD/MS (80%) e pela CML (20%), é um programa de proximidade no âmbito das intervenções na redução de danos, destinado aos utilizadores de substâncias opiáceas (com ou sem consumo de outras drogas) que, por qualquer razão, não recorrem aos serviços de tratamento de comportamentos aditivos e dependências (CAD) convencionais ou a qualquer outro serviço de saúde ou social da rede comunitária.

Trata-se de uma população com comportamentos de risco muito frequentes, habitualmente com uma carga de doenças físicas elevada, fragilizada psicologicamente, muito excluída socialmente e com vidas muito desorganizadas

Para alcançar esta população, o PSBLE utiliza unidades móveis (UM) que fazem paragens diárias (manhã e tarde) com horários fixos em cinco locais distintos da cidade de Lisboa e que estão próximos a bairros de uso e/ou estações de transportes intermodais.

Neste momento, o programa é frequentado diariamente por cerca de 1500 utentes.

Programa é frequentado diariamente por cerca de 1500 utentes

A equipa é constituída por médicos, enfermeiros, psicólogos, técnicos superiores do Serviço Social e monitores. Para além da administração de metadona e outros medicamentos, a equipa faz o diagnóstico e acompanhamento da saúde e da situação psicossocial de todos os utentes, através de consultas médicas, consultas por psicólogo ou técnicos superiores de Serviço Social, rastreios nas UM para o VIH, hepatite B e C, sífilis e tuberculose (a unidade móvel de rádio-rastreio do CDP desloca-se periodicamente às várias paragens das UM para microrradiografias aos utentes).

Assim, a equipa faz um acompanhamento continuado e permanente das necessidades de saúde e sociais de cada utente, e promove a articulação e encaminhamento para toda a rede de saúde e social comunitária, quando necessário.

Qual o apoio prestado a esta população no âmbito da hepatite C, antes e depois da pandemia provocada pelo SARS-CoV-2?

Antes da Covid-19, conseguimos instituir um modelo integrado para lidar com a hepatite C onde a prevenção, o rastreio, a ligação aos cuidados de saúde, o tratamento e a prevenção da recaída do VHC assumiram um desígnio fundamental na nossa intervenção.

Tendo como objetivo geral rastrear todos os nossos utentes para as doenças infeciosas, incluindo a hepatite C, nos casos VHC positivos tentamos encontrar formas de eliminar as várias dificuldades vividas por esta população no acesso ao tratamento. Nesse sentido, envidamos todos os esforços para desenvolver sinergias entre o PSBLE e as estruturas formais de saúde. Assim, conseguimos estabelecer parcerias com os serviços de Gastrenterologia de dois hospitais gerais da cidade de Lisboa (Hospital de Santa Maria e Hospital Egas Moniz) com os quais definimos duas estratégias distintas.

Com início em outubro de 2017, a estratégia definida com o Hospital de Santa Maria assentou em consultas presenciais no Serviço de Gastrenterologia (SG) nos seguintes moldes: marcação das consultas efetuada diretamente pelo PSBLE com o serviço administrativo do SG; transporte do utente ao SG acompanhado por um técnico do PSBLE para consulta de Hepatologia e realização de teste de RNA.

Em caso de indicação para tratamento, deslocação do técnico do PSBLE à farmácia hospitalar para levantar a medicação para ser administrada na UM; toma diária de observação direta nas UM; monitorização permanente da adesão ao tratamento pelas equipas das UM, com registo de todas as tomas.

A estratégia definida com o Hospital Egas Moniz, em fevereiro de 2019, implicou a realização de todos os procedimentos nas unidades móveis: consulta com hepatologista que se desloca aos locais de paragem das UM; colheitas de sangue aos utentes VHC+ feitas nas UM e transportadas para o laboratório do Hospital Egas Moniz para teste de RNA.

Em caso de indicação para tratamento, o técnico do PSBLE desloca-se à farmácia hospitalar e levanta a medicação para ser administrada na UM; toma diária de observação direta na UM e monitorização permanente da adesão ao tratamento pela equipa da unidade móvel, com registo de todas as tomas.

Estes modelos de intervenção levaram a Organização Mundial de Saúde a considerar a Ares do Pinhal como uma Organização de Boas Práticas na eliminação da hepatite C.

Após o início da pandemia pela Covid-19, a situação alterou-se totalmente tendo em conta as medidas de segurança adotadas para a sua contenção. Esta situação obrigou a uma paragem forçada da atividade de rastreio e da realização das consultas de especialidade presenciais nas UM e no contexto hospitalar, pelo que a intervenção tem estado praticamente estagnada.

Iremos, no entanto, reverter esta situação muito em breve. Para tal, criamos todo um conjunto de medidas que permitem retomar a realização dos rastreios nas melhores condições de segurança para os técnicos e para os utentes.

Através de uma parceria com a biofarmacêutica AbbVie Portugal, vamos poder assegurar as consultas de especialidade por teleconsulta, com recurso a uma unidade móvel especialmente equipada para esse efeito e que fará o circuito no terreno em paralelo com as outras UM.

Desta forma, estamos extraordinariamente confiantes de que rapidamente iremos atingir, e mesmo melhorar, a nossa capacidade de intervenção na hepatite C.

 

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Acredita ser possível eliminar a hepatite C até 2030 no contexto específico da Associação Ares do Pinhal?

Tendo em conta a eficácia que já se verificava com o modelo e estratégias da nossa intervenção antes do aparecimento da pandemia Covid-19, acreditamos que, com a introdução de um equipamento que irá agilizar ainda mais a ligação às consultas de especialidade e, portanto, aumentar o número de pessoas em tratamento, irá ser possível eliminar a hepatite C no PSBLE até 2030.

O que falta a Portugal para conseguir acompanhar o bom exemplo da Associação Ares do Pinhal? 

Não existem soluções ideais. Mas, para nós, foi fundamental fazer o diagnóstico das barreiras sentidas ao nível dos nossos pacientes, dos cuidadores e  dos sistemas de saúde a que teríamos de recorrer, tendo em conta as várias etapas que compõem o caminho até à cura, nomeadamente na realização do rastreio, na ligação aos cuidados de saúde e no acesso ao tratamento. Assim, pensamos que quanto maior o conhecimento de todos estes fatores, melhor a adaptação das respostas aos diversos contextos e mais possibilidades de sucesso terão as intervenções para a eliminação da hepatite C.

AO/SO

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