Quem são as pessoas que ainda vivem com hepatite C em Portugal? Como combater o estigma associado à doença?

Estimamos que possam viver em Portugal cerca de 40.000 pessoas infetadas a necessitar de tratamento. Algumas delas (1/4?) poderão ter já cirrose sem o saber, já que a doença é na sua grande maioria, silenciosa e assintomática. Essas pessoas com cirrose têm risco elevado (10-40% em 10 anos) de evolução para o cancro que se origina no próprio fígado, o chamado carcinoma hepatocelular.

A grande maioria, mas não todas, terão consumido drogas, pelo menos uma vez na vida. Muitos são agora excelentes profissionais bem integrados na sociedade, com múltiplas profissões, empresários de sucesso, com atividades importantes para o País. Portugal, um país muito “envelhecido” precisa deles, na sua grande maioria com idades compreendidas entre os 45-55 anos.

O estigma existe, infelizmente, para muitas situações: VIH, diabetes, obesidade, hepatite A, a cor da pele, a etnia, o passado de alguém (preso), a religião,  etc. No meu entender, é uma cultura que tem que ser mudada. Temos de aceitar o outro, que poderá ser muito diferente de nós e da sociedade vigente onde nascemos e vivemos. Temos que ser restaurativos e não punitivos… É um longo caminho…

Quando falamos em hepatite C, falamos também numa das principais causas do cancro do fígado… Eliminar a hepatite C é também diminuir drasticamente este tipo de cancro e o seu impacto na sociedade?

Fala-se muito de cancro, do terrível “cancro”, mas a mensagem, por ser muito repetida, acaba por ser monótona. O risco de cancro está presente de uma forma muito marcante nas doenças do fígado: o álcool, as hepatites B e C, a própria obesidade, todos são oncogénicos, ou seja, aumentam o risco de cancro de vários órgãos mas todos de forma bem determinada no caso do cancro do fígado.

“Cancro do fígado é um dos poucos cancros que sabemos que irá aumentar nos próximos 30 anos”

O cancro do fígado tem o nome de guerra de “Carcinoma hepatocelular”. É um dos poucos cancros que sabemos que irá aumentar nos próximos 30 anos, a par com o temível cancro do pâncreas. Tem um dos piores prognósticos se não for tratado a tempo, com risco de morte superior a 90% ao fim de um ano, após o seu diagnóstico. A cirrose, como se disse previamente, é uma das situações médicas com um dos maiores riscos de evolução para cancro, 10-40% ao fim de 10 anos. Há quem diga até que cirrose hepática é uma “emergência hepatológica”. Cada ano que passa, o risco de cancro aumenta.

Está mais que provado que o diagnóstico precoce e o tratamento do vírus da hepatite C reduzem de forma significativa o risco de cancro e o risco de morte. Podemos dizer que é um “tratamento anticancro”, sem ser quimioterapia.

Uma vez que muitos doentes não estão diagnosticados, o rastreio continua a ser insuficiente? Como proceder a  um rastreio mais alargado da população geral?

No meu entender, é necessário incluir as análises globais do fígado em qualquer avaliação de rotina (a ALT, por exemplo, através de uma pequena colheita de sangue) e realizar o marcador da hepatite C (anti-VHC) pelo menos uma vez na vida.

Custa muito ver morrer gente jovem, 30 anos antes da esperança média de vida em Portugal, por doenças para as quais existe tratamento, simples, rápido e eficaz.

Quais têm sido as principais barreiras ao tratamento dos doentes e à eliminação da hepatite C?

São a vários níveis: dos próprios utentes, de alguns profissionais de saúde, de má informação sobre os tratamentos (custos, efeitos secundários), da velhinha burocracia. Quero acreditar que na nova era pós-Covid possa mudar.

Porque é que os medicamentos não estão imediatamente disponíveis na farmácia hospitalar, tal como em todas as outras áreas terapêuticas como, por exemplo, na hepatite B?

No meu entender deveriam estar disponíveis a muito curto prazo, quicá na própria consulta, como vejo em Espanha e em França. Algumas farmácias hospitalares mudaram a sua prática durante a pandemia: dispensaram a receita em papel e assinada, passou-se a enviar a medicação quando necessário para o domicílio.

É um tempo de oportunidade, de facilitar o acesso ao sistema de saúde, de colocar a pessoa com doença no real centro do sistema.

 

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Acredita que Portugal poderá estar em risco de não eliminar a hepatite C até 2030 e de desperdiçar todo o investimento feito?

Muito se fez. No início, em 2015, fomos até benchmarking para outros países. Há excelentes equipas de profissionais de saúde no terreno, a vários níveis: Hospital, Centros de Atendimento a Consumidores, Unidades Móveis, Centros de Transplante.

Temos que retomar essa prática de bem fazer, no sentido de ajudar quem tem hepatite C. Essas pessoas não vivem em guetos nem em Marte. Estão ao nosso lado, alguns são familiares ou nossos amigos, e não sabemos que estão infetados.

Nós, que estamos informados, possuímos o know-how e medicamentos que, pela primeira vez, eliminam um vírus oncogénico com elevadíssimo grau de eficácia (~95%), temos também a obrigação até ética e humana de resolver este problema de alguns milhares de portugueses infetados. É um problema global, de saúde pública, ou seja, de todos nós.

O tratamento da hepatite C é também uma excelente oportunidade de proporcionar momentos felizes e de promover a abordagem de outros problemas de saúde a quem está infetado (álcool, obesidade, rastreio de cancro, aproximação aos cuidados de saúde, a uma Mão Amiga…). Ou seja, de praticar uma Medicina Restaurativa.

A OMS “deu-nos” 15 anos para eliminar a hepatite C como problema de saúde pública. Faltam 2/3 do prazo. Quero ver o copo cheio, e continuar a ser resiliente, mas temos que testar, tratar, testar e tratar, testar e curar.

AO/SO

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