25 Jan, 2018

A vacina confere uma proteção de 97% para o cancro do colo do útero

Em entrevista ao SaúdeOnline, Virgínia Monteiro, Presidente da Sociedade de Colposcopia e Patologia do Trato Genital da Sociedade Portuguesa de Ginecologia, fara da infeção por VPH suas potenciais consequências e das estratégias de prevenção recomendadas

Na europa, surgem todos os anos 60 mil casos de cancro do colo do útero 30 mil dos quais são fatais. Em Portugal, a incidência é de cerca de 1.000 novos casos por ano, pelo que a prevenção contra o HPV continua a ser forma mais eficaz de combater os números. No âmbito da Semana Europeia do Cancro do Colo do Útero, que se assinala entre os dias 22 e 28 de janeiro entrevistámos a Dra. Virgínia Monteiro, Presidente da Sociedade de Colposcopia e Patologia do Trato Genital da Sociedade Portuguesa de Ginecologia, para nos traçar um retrato da doença em Portugal e explicar como se transmite e como pode ser prevenida.

Quando falamos de cancro do colo do útero, estamos também a falar de vírus do Papiloma Humano?

De certa forma sim, dado que o Vírus do Papiloma Humano (HPV) é o agente carcinogéneo do cancro do colo do útero. Contudo o HPV também é responsável por outros cancros do trato genital inferior como o cancro da vagina, vulva e ânus. É ainda causador de alguns cancros da orofaringe e pénis, ainda que este seja mais raro.

Não escolhe géneros, afetando de igual forma homens e mulheres…

Exatamente! é um vírus de transmissão sexual.

Ainda que afete a maioria da população, apenas uma pequena percentagem desenvolve cancro, sendo este, prevenível. É assim?

Não existem ainda tratamentos eficazes contra o vírus HPV. O que temos são vacinas profiláticas, que evitam a doença provocada pelo vírus, antes do seu contacto. Daí que estas vacinas sejam administradas nas meninas entre os 9 e os 14 anos, antes de iniciarem atividade sexual e consequentemente antes do contato viral..

As vacinas conferem algum grau de proteção se administradas após esta idade?

A vacinação está também indicada após esta idade e também nas mulheres que já foram tratadas por lesões do colo.

O risco de recorrência nos dois primeiros anos após tratamento de lesões pré-malignas do colo é de 15% e de desenvolvimento de cancro invasivo é 5 a 10 vezes superior ao da população em geral pelo que recomenda-se a vacinação nas mulheres que foram tratadas.

Há outros fatores de risco associados?

As lesões pré-malignas do colo do útero surgem quando após o contacto com o vírus, este permanece ativo por longos períodos de tempo. Existem cofatores que contribuem para esta persistência de atividade. Estamos a falar, por exemplo, de estados de imunossupressão, como acontece, por exemplo, nas mulheres infetadas por VIH, nas diabéticas, nas mulheres com doenças crónicas e nas fumadoras. O tabaco, é um dos cofatores primordiais para a persistência ativa da infeção viral.

Qual o papel da prevenção na história natural da doença?

É muito importante falarmos de prevenção. A prevenção primária é feita pela vacinação no PNV (plano nacional de vacinação) e a secundária através do rastreio do cancro do colo do útero. Este é feito a nível nacional dos 25 aos 60 anos c/ o teste HPV como método de rastreio primário.

Qual a situação portuguesa? Existem campanha, programas nacionais de rastreio e de vacinação?

Podemo-nos orgulhar do facto de Portugal ser o país europeu com maior taxa de cobertura vacinal, que atualmente se cifra em 92%. Muito graças ao trabalho desenvolvido pelos centros de saúde, que desempenham, neste âmbito, um papel muito importante, ao convocarem as meninas para serem vacinadas.

O rastreio, durante muito tempo, não era universal, registando-se assimetrias regionais. Um cenário que se alterou com a implementação, em setembro de 2017, de um Plano Nacional de Rastreio do Cancro do Colo do Útero, com o teste ao HPV na primeira linha.

Neste momento vivemos um tempo de mudança, em que as estruturas de saúde procuram ajustar-se de modo a dar resposta às necessidades do rastreio nacional. Por exemplo, ajustar as ARS com as unidades de colposcopia, para onde são referenciadas as mulheres com testes HPV positivos ou citologias alteradas.

Qual o grau de proteção conferido pela vacina que está no plano nacional de vacinação?

Em termos de proteção a percentagem proteção é de 97% para o cancro do colo do útero, 90% para o cancro do ânus, 84% para o cancro da vulva e 86% para o cancro da vagina.

E os rapazes? Têm ficado um bocado “de lado” das preocupações. Há razão para isso?

Embora o vírus afete de igual forma homens e mulheres, nos rapazes, só em alguns países (muito poucos) a vacina encontra-se incluída no plano nacional de vacinação. Em Portugal, não está. Pelo que terá que partir de uma decisão individual, embora recomendada.

Apresentámos no dia 20 os consensos sobre a vacinação contra o HPV, onde recomendamos a vacinação de rapazes, ainda que, como referi, tal não esteja previsto no Plano Nacional de Vacinação.

E em que idades?

Nos rapazes, entre os 9 e os 14 anos, com a vacina quadrivalente ou nonavalente (duas doses) e a partir dos 15 anos com 3 doses, até aos 26 anos. Acima desta idade, a ponderação da vacinação é a título individual.

Importa sublinhar que a vacina – quer a quadrivalente quer a nonavalente – protege também, nas mulheres e nos homens contra os condilomas ou verrugas genitais, uma vez que também protege para vírus de baixo risco, de tipo 6 e tipo 11.

Este ano a Sociedade de Colposcopia e Patologia do Trato Genital da Sociedade Portuguesa de Ginecologia desenvolveu alguma iniciativa para assinalar a Semana Europeia do Cancro do colo do Útero?

A SPCPTGI apresentou no passado dia 20 na 190ª reunião da SPG em Guimarães, o livro de consenso sobre a vacinação contra o HPV. Toda a informação está já disponível na página na Internet da SPG, no endereço: http://www.spginecologia.pt/. Estes consensos, foram elaborados, não apenas por ginecologistas mas também por pediatras e médicos de Medicina Geral e Familiar. Os livros serão distribuídos, a partir de agora, nos centros de saúde e consultórios.

O IPO de Lisboa também assinala como é habitual esta semana com algumas ações de formação e no dia 29 terão uma formação para alunos do ensino secundário.

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