11 Out, 2021

Reabilitação. Como Alcoitão tenta ‘apagar’ as marcadas deixadas pela Covid-19

Doentes em tratamento no Centro de reabilitação de Alcoitão foram afetados de “forma grave pela pneumonia viral”, que deixou sequelas pulmonares e na mobilidade.

Chegam sem andar, com muita dificuldade em falar e respirar ao centro de reabilitação de Alcoitão, que há mais de um ano trata as sequelas mais graves deixadas pela covid-19 e pelos meses de internamento em cuidados intensivos.

Em maio de 2020, quando se deu a “grande expansão da pandemia em Portugal”, o Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão, no concelho de Cascais, começou a receber e a dar resposta a estes doentes, disse à Lusa o diretor do Serviço de Reabilitação de Adultos, Jorge Jacinto.

Segundo o médico fisiatra, são doentes que foram afetados de “forma grave pela pneumonia viral”, que deixou sequelas a nível do pulmão e a nível da ventilação, mas que também têm “as sequelas graves da imobilidade” pela permanência em cuidados intensivos.

“Aqueles a quem a doença sequelar foi, por exemplo, um AVC, ou outras lesões do sistema nervoso central, têm também as sequelas dessas doenças em cima das sequelas da covid-19”, explicou.

Estes doentes, com idades entre os 40 e os 70 anos, são referenciados para Alcoitão, um equipamento da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, pelos cuidados especializados que disponibiliza de Medicina Física e de Reabilitação, em regime de internamento e ambulatório.

Ali chegam sem andar, com muita fadiga, dificuldades em respirar e alguns apresentam alterações cognitivas por terem estado em “comas prolongados”, que afetaram o sistema nervoso central, que necessitam de intervenção a nível da neuroreabilitação e da neuropsicologia.

Média de internamento ronda os dois meses

 

O tempo médio de internamento em Alcoitão é de cerca de dois meses, mas depende dos casos: “Se o doente evolui muito rapidamente e já tem um grau de autonomia que lhe permite passar ao tratamento ambulatório é o ideal, até porque são doentes que normalmente quando vêm para aqui já estão fora de casa há muitos meses e o fator emocional e psicológico é muito importante nestas situações”.

António Costa, 67 anos, e Eulália Pinto, 58 anos, passaram longas semanas nos cuidados intensivos de onde pensaram já não sair. Dizem que foi “um milagre” terem sobrevivido, porque até os médicos prepararam as famílias para o pior.

Agora num pequeno ginásio, sob a orientação da fisioterapeuta Bárbara Duarte, fazem bicicleta, passadeira e exercícios de fortalecimento muscular para retomar a vida suspensa pela covid. Bárbara Duarte disse que a recuperação de quem por ali passa “é muito variável”, dependendo não só dos sintomas que tiveram, mas também das próprias pessoas.

A fisioterapeuta acompanha os doentes em ambulatório, num pequeno ginásio, onde em sessões de 45 minutos, lhes dá um treino de recondicionamento cardiovascular, com recurso a uma passadeira e uma bicicleta, e um treino de fortalecimento muscular.

Até chegar a Alcoitão, António passou tempos difíceis. Soube que estava infetado em fevereiro, esteve internado dois dias no Hospital São Francisco Xavier, em Lisboa, de onde saiu em coma induzido para o Hospital Egas Moniz, tenho aí permanecido até ao final de maio.

“Estive 27 dias entubado em coma induzido”, contou, com a voz ainda muito cansada. Do coma pouco se recorda: “Acordei no último dia de fevereiro, mas só tomei consciência a 04 de março quando alguém perguntou, não sei se médico ou enfermeiro, se sabia o meu nome, onde estava e em que mês estávamos”.

A partir daí, começou a lembrar-se de algumas coisas, num processo “muito lento”, assim como a recuperação, que foi “muito difícil” nos primeiros dois meses após ter despertado do coma.

“Não conseguia falar, era tudo por gestos”. Comunicar com os profissionais de saúde era “relativamente fácil”, mas as videochamadas com a família eram “complicadas” até ao dia em que sabiam “quase tanto de mímica como falar normalmente”, gracejou.

Com a voz embargada, recordou um episódio com a filha quando estava entre a vida e a morte.

“Uma das vezes que a minha filha lá foi, segundo a médica, agarrou-me nas mãos, falou comigo e a partir daí eles notaram que comecei a reagir melhor. Foi aí que provavelmente se deu o clique de ir ou não ir, e não fui”, disse, comovido, considerando que foi “um milagre”.

Apesar de se sentir “muito melhor” com a fisioterapia, reconheceu que “o maior problema” ainda é a respiração.

Eulália Pinto também contou que sobreviveu por milagre à doença que contraiu no final de maio e que a deixou numa cama do hospital até agosto.

“Comecei com muita tosse e tive mesmo de ir ao hospital, já ia com 25% de pulmão. Só me lembro de chegar ao Hospital de Cascais, porem-me a pulseira vermelha e não me lembro de mais nada”, recordou Eulália, apoiada em duas canadianas para andar, porque mal consegue mexer um pé.

Após um mês em coma no Hospital de Cascais, foi transferida para o Hospital São José, onde foi ligada ao aparelho ECMO, que lhe substituiu o coração e os pulmões. Nessa altura, “começaram a dizer à minha família que não havia nada a fazer, que estava na reta final”.

“Toda a gente que conheço, os meus amigos e a família dizem que sou um milagre”, refere Eulália.

Não conseguia falar, devido à taqueostomia, e mal conseguia escrever porque a mão tremia muito, o que dificultava a comunicação, mas não desistiu.

“Comecei logo a querer ser independente no hospital e isso também ajuda”, afirmou, enfatizando que quer retomar a sua “vida normal”.

Os dois doentes alertaram para o perigo desta nova doença: “A covid é terrível”, disse Eulália.

António alertou que a covid “não é uma gripezinha”: “se fosse não havia tantos mortos”.

Para quem nega que a covid-19 possa ser grave, António respondeu que só perceberão “se passassem por ela”.

LUSA

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