Prof. Paulo Oom: “Não vacinar é enterrar a cabeça na areia”

Em plena Semana Europeia de Vacinação, o SaúdeOnline esteve à conversa com o Prof. Paulo Oom, Diretor do Departamento de Pediatria do Hospital Beatriz Ângelo e autor de diversas publicações como o livro “Infecionário”, que defende que não existe justificação para ignorar a história de sucesso da vacinação, uma prática que todos os anos salva milhões de crianças em todo o mundo.

SaúdeOnline – Qual é o impacto da vacinação para a comunidade?

Prof. Paulo Oom (PO) De todas as coisas que ao longo dos anos foram sendo feitas no sentido de melhorar a qualidade de vida e reduzir a mortalidade infantil, a medida que teve mais impacto a nível mundial foi o aparecimento da água potável. E depois, foram as vacinas.

Nós sabemos que a história da vacinação é um sucesso, sendo que o mais significativo talvez tenha sido a erradicação da varíola, uma doença que matava cerca de 5 milhões de crianças por ano.

Atualmente, estamos numa fase muito avançada a nível mundial para a eliminação do sarampo e da poliomielite.

Como caracteriza a população portuguesa relativamente à cobertura vacinal?

PO | A população portuguesa é um exemplo para o mundo. Nós somos dos países com maior taxa de cobertura vacinal. O Programa Nacional de Vacinação [PNV] é um esquema proposto, não obrigatório, que os profissionais de saúde levaram muito a sério e que a população aceitou e compreendeu. Os portugueses, neste aspeto, são fantásticos.

Com o recente surto de sarampo, quais foram as principais questões levantadas pelos pais?

PO | Os pais perguntaram porque é que num país com a cobertura vacinal como a nossa a doença surge. Não é impossível que surja. A vacina contra o sarampo é dada aos 12 meses e aos 5 anos da idade, ora antes desse tempo se a criança estiver em contacto com alguém infetado pode apanhar sarampo e, após esse período, mesmo com a população protegida, a imunidade que é dada pela vacina vai-se perdendo. Portanto, é possível chegar à idade adulta e já não ter as defesas tão ativas.

Neste surto, a maioria dos infetados foram pessoas já com alguma idade, ou seja, que já tiveram a vacina há mais tempo, mas foram casos muito leves. O facto de terem sido vacinados com 1 e 5 anos de idade já foi suficiente para os proteger.

Mas então considera necessário um reforço na vacinação contra o sarampo?

PO | Se Portugal fosse um país fechado, não seria necessário dada à nossa grande cobertura vacinal que impede que o vírus penetre na nossa população. Mas no mundo globalizado em que vivemos, uma das coisas que se discute é se vale ou não a pena fazer um reforço para que os adultos mantenham um elevado grau de proteção. Mas é uma decisão que cabe à Comissão Técnica de Vacinação.

 

 

Relativamente à vacinação no geral, ainda existem questões por esclarecer?

PO | Não há questões por esclarecer. Há sim muitos mitos e falsas informações, sobretudo quando as pessoas recorrem à Internet. Cabe aos profissionais de saúde e à comunicação social esclarecer a população. Tem que se estabelecer uma parceria de modo a que as pessoas tenham acesso aos conhecimentos corretos.

Atendendo ao que foi à história da vacinação e os progressos da Medicina nos últimos 50 anos, o não vacinar uma criança traduz grande falta de informação. Quem questiona é porque desconhece os milhões de crianças que morriam por ano com varíola ou os milhares de mortes que ocorreram em Portugal, entre 1987 e 1989, quando houve a última epidemia de sarampo. Não podemos esquecer que isso aconteceu. Quando a vacina foi introduzida em duas doses, em 1990, nós deixámos de ter casos de sarampo. Quem agora põe em dúvida se vacina ou não é porque desconhece a história. É “enterrar a cabeça na areia”.

Um estudo realizado pela APIFARMA concluiu que 96% dos inquiridos quer que todas as vacinas pediátricas sejam gratuitas. O preço tem algum peso na decisão de vacinar ou é apenas uma questão de falta de informação?

PO | O preço é um aspeto importante nessa decisão. Em Portugal, há poucas pessoas que têm objeções contra as vacinas. As que têm devem consultar os profissionais de saúde para esclarecem as suas dúvidas. Mas também há famílias que fazem as vacinas do PNV, que são as mais importantes sem dúvida, mas depois querem uma ou outra fora do programa e não têm dinheiro para o fazer. O que temos que fazer é lutar para que aquelas vacinas que já se sabe que são eficazes e seguras sejam incluídas no plano.

A vacinação deveria ser obrigatória ou deve continuar a ser uma opção?

PO | Acho que depende das taxas de vacinação. O ideal é que seja uma opção. É muito melhor se as pessoas quiserem fazer porque acham que é importante. Se a população estiver informada, inconscientemente acaba por fazer a vacinação. É o que acontece em Portugal.

Se as taxas de vacinação descessem abaixo de um limiar que fosse perigoso para a sociedade, nesse caso, eu sou da opinião que deveriam ser obrigatórias. É uma questão de bem comum. As vacinas têm um valor individual para a pessoa não apanhar determinada doença, mas é importante no sentido coletivo, em que a pessoa não transmite a doença a outros mais vulneráveis.

O que é importante reter desta Semana Europeia de Vacinação?

PO | É importante reter que as vacinas são seguras e eficazes, e que as vacinas do PNV são gratuitas. O aparecimento da vacinação e a sua prática tem permitido diminuir a mortalidade de crianças em todo o mundo. São milhões por ano que não morrem porque são vacinadas. Portanto, quem pensa em eventualmente dar um passo atrás nesse sucesso, desconhece o que foi a realidade há trinta ou cinquenta anos atrás.

Saúde Online

 

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