Peritos defendem importância da monitorização dos cuidados

O caminho para a eliminação da Hepatite C é um processo lento, feito de sucessos e dificuldades, que tem como ambição, daqui a 12 anos, fazer com que Portugal cumpra o objectivo definido pela Organização Mundial da Saúde: eliminar a infeção pelo vírus da hepatite C (VHC) enquanto problema de saúde pública. Perceber quantas pessoas infetadas existem tem de ser um dos pilares para a definição da estratégia que vai permitir melhorar o acesso dos doentes à terapêutica, numa altura em que os novos antivirais já garantem a cura ao fim de oito semanas de tratamento.

Num simpósio organizado pela biofarmacêutica Abbvie, em Lisboa, discutiram-se formas de humanizar o contacto com os doentes, de forma a aumentar o universo de pessoas tratadas, bem como outras estratégias que permitam aumentar a adesão ao tratamento e melhorar a qualidade de vida dos doentes.

O médico pneumologista António Diniz começou por lamentar que ninguém saiba ao certo quantos pessoas infetadas com o vírus da Hepatite C existem em Portugal, já que “os dados que existem são, nalguns casos, contraditórios e noutros casos, parcelares”. “Esse número, de acordo com os estudos, fica entre 35 a 50 mil até acima de 100 mil. Não é possível delinear uma estratégia assim”, avisou António Diniz, que já foi diretor do Programa Nacional para a Infeção VIH/SIDA, Hepatites Víricas e Tuberculose.

Médico António Diniz: “Não é possível delinear uma estratégia” sem saber quantas pessoas estão infetadas.

“Andaremos na casa dos 60, 70 mil doentes”, adiantou José Vera, médico especialista em Medicina Interna, acrescentando que cerca de “um terço destas pessoas já estão tratadas”.

Estes dados são absolutamente essenciais para se fazer a monitorização dos cuidados, ou seja, para ir acompanhando a evolução da infeção em cada doente. “É preciso saber quantas pessoas estão infetadas, quantas estão diagnosticadas, quantas estão referenciadas, quantas são tratadas, quantas têm carga viral indetetável”, enumerou. Só assim, explicou, é possível perceber se os objetivos intermédios estão a ser cumpridos para que, em 2030, a hepatite C enquanto problema de saúde pública esteja eliminada no nosso país.

Facilitar o acesso às consultas hospitalares, simplificando todo o processo através da eliminação de algumas etapas que colocam ainda barreiras no acesso ao tratamento é uma das formas de aumentar a adesão à terapêutica, mas não chega. Somado a isto, “deve haver um trabalho contínuo de proximidade com os doentes, num contacto próximo que pode fazer toda a diferença junto de franjas da população que estão há anos marginalizadas socialmente”, defende o médico psiquiatra Miguel Vasconcelos.

“Pessoas que ainda não estão suficientemente motivadas e que se forem acompanhadas pela equipa de rua, uma vez que temos uma relação de igual para igual, faz com que a pessoa se sinta bem”, refere.

Além dos utilizadores ativos de drogas e/ou em terapêutica de substituição opiácea (estima-se que sejam perto de 15.000 infetados com o vírus da Hepatite C neste grupo), há outro grupo da população que cujo peso não é negligenciável para o sucesso da estratégia para eliminar o VHC até 2030: os reclusos. Os últimos dados indicam que mais de dois mil estão infetados, sendo que, nos últimos anos, são vários os relatos de dificuldades no acesso dos reclusos ao tratamento. Para agilizar o processo e levar o tratamento às cadeias, o governo publicou um despacho no início deste ano que atribui aos hospitais a responsabilidade de criarem equipas que façam o rastreio e a monitorização do tratamento junto da população prisional.

Gastroenterologista Guilherme Macedo: “[o despacho que impõe prestação de cuidados à população prisional] significa que já há uma tomada de consciência da tutela”

“Isto [despacho sobre prestação de cuidados nas prisões] significa que, pelo menos, já há uma tomada de consciência da tutela”, diz Guilherme Macedo, diretor do serviço de Gastroenterologia do Centro Hospitalar de São João, lembrando que “no sistema prisional, estivemos muito tempo antes a tentar criar uma lógica de funcionamento interno que promovesse este caminho”. “As primeiras barreiras a serem ultrapassadas têm de ser internas ao próprio sistema prisional”, defende. Sobre o despacho, António Diniz considera que “é um princípio. Acredito que não seja apenas um processo de boas intenções”. No final de junho, o Hospital de Santa Maria já tinha uma equipa no terreno, a acompanhar os reclusos do Estabelecimento Prisional de Lisboa, à semelhança do que já acontece também na Prisão de Custóias, na zona do Porto.

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