“O impacto da pandemia hoje já é suficiente para desviar recursos das atividades regulares dos hospitais”

Em entrevista exclusiva, o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares alerta para o desgaste dos profissionais e pede planeamento, para evitar que muitas pessoas se desloquem às urgências "com pequena sintomatologia e para realizar teste ao SARS-CoV-2", como tem vindo a acontecer.

Numa fase em que os internamentos estão a aumentar (embora ainda estejam a grande distância dos patamares alcançados no início de 2021), acredita que os hospitais terão de voltar a adiar atividades programadas, como consultas ou cirurgias?

O desejo e a nossa expectativa é de não adiar atividade programada, como aconteceu no ano passado, em que vivemos uma situação dramática nos hospitais. Esse cenário, nesta altura, parece ser longínquo. A realidade dos internamentos hoje não tem comparação com o passado, devido à vacinação e também à nova variante. Ainda assim, a situação que vivemos limita a capacidade de os hospitais darem uma resposta adequada. É preciso ter noção de que qualquer efeito que a pandemia tenha, ainda que mais reduzido, limita a capacidade de os hospitais darem respostas adequadas nas outas áreas – por um lado, porque redireciona recursos humanos para a resposta à covid-19 e porque desgasta ainda mais os profissionais e, por outro lado, porque se existir uma infeção generalizada na comunidade isso tem efeito sobre os profissionais de saúde, que podem ficar em isolamento, o que limita ainda mais os recursos disponíveis. O impacto que pandemia tem hoje já é suficiente para desviar recursos de atividades regulares dos hospitais e sobrecarregar os profissionais.

Qual é a previsão dos administradores hospitalares relativamente à evolução dos internamentos de doentes covid-19 nas próximas semanas?

Desde março de 2020 que tínhamos uma ferramenta, que foi aliás adotada pela OMS e por outros países, para a previsão de internamentos. Demos nota da importância de fazer o planeamento dos internamentos com tempo, de modo a que as instituições estivessem preparadas para o que pudesse acontecer. Neste momento, a pressão sobre o internamento acaba por ser limitada, pelo que nos parece que a previsão mensal que fazíamos seja necessária.

 

“Temos muitos doentes com pequena sintomatologia e que veem aos serviços de urgência para realizar teste ao SARS-CoV-2”

 

Neste momento, há hospitais que enfrentam uma grande afluência aos serviços de urgência, maior do que o habitual nesta época do ano, tanto com doentes com queixas respiratórias como com doentes que sofrem de outras patologias. Como é que encara este problema e que soluções poderiam ser encontradas?

É uma questão antiga, que se agravou para a pandemia. Se os doentes procuram os serviços de urgência, é porque sentem necessidade de ir à urgência. Os serviços de saúde devem adequar-se às necessidades e às expectativas dos cidadãos. Não é culpabilizando as pessoas que vamos encontrar uma saída para este problema, que se arrasta há vários anos. Existem várias medidas que podem ser tomadas. Antes da pandemia, já dizíamos que era necessário encontrar respostas pré-hospitalares, uma vez que a maior parte dos doentes que acedem à urgência são doentes pouco grave. Uma das respostas passaria pela linha de Saúde24 e também pela criação de um maior número de pontos de acesso á rede, a nível de estruturas descentralizadas de natureza comunitária que dessem resposta a casos pouco agudos.

 

Neste momento, temos muitos doentes com pequena sintomatologia e que veem aos serviços de urgência para realizar teste ao SARS-CoV-2, ou porque não têm resposta da Saúde24, ou porque não têm pontos para realização de teste. Isto poderia ser colmatado por um planeamento mais adequado, nomeadamente da linha Saúde24, que já se sabia que iria ter um pico de procura por esta altura.

 

“Temos um problema grave na retenção e na satisfação dos profissionais de saúde”

 

O reforço do número de profissionais no serviço de urgência não seria uma medida a considerar também?

Nós temos um problema grave nos serviços de urgência que decorre da incapacidade dos hospitais para reterem profissionais. Temos bons exemplos de serviços de urgência em que existiu uma opção pela dedicação de profissionais, isto é, terem equipas dedicadas à urgência. Neste momento, não é possível existirem estas equipas porque seria necessário oferecer um regime remuneratório diferenciado. Os serviços de urgência estão dependentes dos prestadores de serviço, que muitas vezes não têm o conhecimento técnico e clínico para prestar o melhor serviço. O que também acontece é que, muitas vezes, os hospitais se deparam com incumprimentos contratuais por parte das empresas de prestação de serviços, o que transtorna o funcionamento das urgências.

Agora, a jusante, temos um problema crónico, que é a incapacidade de transferir doentes, quando estes já não precisam de cuidados hospitalares, para estruturas residenciais para idosos.

A APAH tem informação no que diz respeito ao número de internamentos sociais no SNS neste momento? Como tem evoluído esta realidade nas últimas semanas?

Apesar de, no ano passado, ter existido uma grande preocupação em encontrar soluções para estas pessoas, atualmente continuamos a ter um bloqueio grande no que diz respeito a transferências de doentes covid e não-covid que se encontram internados mas que não precisam de cuidados hospitalares. É preciso encontrar respostas na comunidade para libertar camas para os doentes que realmente necessitam delas. Temos de perceber que o internamento é o último recurso, sendo que o problema que temos em Portugal decorre da incapacidade de encontrar respostas fora dos hospitais.

 

Internamentos sociais? “Colaboração [entre hospitais e Segurança Social] diluiu-se”

 

Têm sentido um esforço da Segurança Social no sentido de encontrar respostas para estas pessoas?

Não. Existiu alguma preocupação durante a fase de maior pressão da pandemia [em 2021]. Essa colaboração dilui-se e, muitas vezes, são os hospitais que contratam camas aos setores privado e social porque a Segurança Social não tem capacidade de resposta. Sabemos que o envelhecimento da população traz novos desafios ao sistema de saúde e à SS. Por isso, nós temos apelado que sejam iniciados projetos-piloto no sentido de uma colaboração mais intensa entre as duas áreas para encontrar soluções.

Quais são, na sua opinião, os maiores desafios que os administradores hospitalares irão enfrentar nos próximos anos?

Temos vários desafios. Atualmente há uma desadequação da oferta de cuidados de saúde em Portugal, relativamente às necessidades da população. Há um atraso na organização dos serviços de saúde, o que leva à procura de outro tipo de ofertas. Os serviços têm de ser reestruturados.

Em que sentido? Passa pela aposta na inovação?

Sim, tem a ver com a inovação na prestação de cuidados. Os incentivos que são dados ao sistema servem para o sistema se mantenha igual há 20,30 anos atrás. O desafio é percebermos como, dentro de todos os constrangimentos, podemos mudar a forma como prestamos os cuidados. Por outro lado, a questão dos recursos humanos. Temos um problema grave na retenção e na satisfação dos profissionais de saúde. Existe um desalinhamento muito grande entre a organização e as expectativas de profissionais e doentes, e que acaba por condicionar em muito a possibilidade de as estruturas de saúde oferecerem projetos profissionais.

 

“Há um atraso na organização dos serviços de saúde em Portugal”

 

O governo defende que são os próprios hospitais que devem oferecer os projetos de carreira/profissionais que levem à retenção dos profissionais de saúde.

Concordo. No entanto, atualmente os hospitais podem fazer muito pouco. Enquanto mantivermos, por exemplo, modelos de concurso nacionais em um grande número de vagas fica por preencher apesar de existirem potenciais candidatos, há uma distorção enorme na forma como estamos a trabalhar com as pessoas. Temos de avançar com outros modelos de contratação de profissionais, de relacionamento laboral e contratual e que passam certamente pela descentralização e autonomia das instituições de saúde e por um outro modelo de governação – aquele que existe hoje, burocrático e centralizado e dependente do Ministério das Finanças, não vai permitir que os hospitais desenvolvam [projetos de retenção de profissionais]. Este modelo já demonstrou que está obsoleto.

Qual, é para si, o modelo do hospital do futuro? Aquele a que os portugueses deveriam poder recorrer dentro de 15 anos, por exemplo.

O hospital do futuro é um conjunto de serviços centrado nas pessoas, sem muros, em que cuidados hospitalares possam ser prestados na comunidade, em integração com o setor social e com os cuidados de saúde primários. É um hospital que terá de estar integrado na comunidade e terá de responder às expectativas de cada cidadão. Vamos ter sempre a necessidade de concentrar de meios, particularmente tecnológicos, numa infraestrutura mais complexa. Contudo, o hospital do futuro vai ser muito mais próximo das pessoas, vai permitir acompanhar doentes crónicos à distância, hospitalizar pessoas em casa, ter uma abordagem mais personalizada, prevenir a agudização [das doenças] e prestar cuidados de maior qualidade. Temos de começar a fazer esse caminho e repensar o modelo de governação no setor da saúde com vista a criar os incentivos necessários a esta transformação.

TC/SO

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