Morre uma pessoa a cada 50 minutos devido ao tabaco

Sendo o consumo tabágico responsável por 10,6% dos óbitos torna-se necessário repensar a forma como este é combatido.

Hoje assinala-se o Dia Europeu do Ex-fumador e, de acordo com as estatísticas do relatório “Portugal – Prevenção e Controlo do Tabagismo 2017”, da Direção-Geral da Saúde (DGS), 85% dos casos de cancro do pulmão e 90% dos casos de Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC) devem-se ao tabagismo.

1300 foi o número de óbitos relacionados com o tabaco, segundo estatísticas internacionais. Em Portugal, estima-se que, em 2017, tenha morrido uma pessoa a cada 50 minutos devido a doenças relacionadas com o tabaco.

Quase metade (46.4%) das mortes foram devido a DPOC, 19.5% devido a cancro, 12% por infeções respiratórias do trato inferior, 5.7% das mortes por doenças cérebro-cardiovasculares e 2.4% das mortes por diabetes.

A realidade é assustadora: um em cada cinco portugueses com 15 ou mais anos fuma e o consumo tabágico é responsável por 10,6% do total de óbitos. Apesar da prevalência estar abaixo da média europeia, tem-se vindo a observar um aumento exponencial nas jovens mulheres.

Ainda assim, registou-se, entre 2010 e 2018, de acordo com o jornal Correio da Manhã, um acréscimo na procura das consultas de cessação tabágica (de 19 620, em 2017, passaram para 44 099, em 2018). É ainda importante referir que estas consultas especializadas estão presentes em quase todos os centros de saúde (98%).

 

Quer deixar de fumar?

A propósito do tema, a coordenadora da consulta de cessação tabágica e pneumologista do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia, Ivone Pascoal, que explica, em declarações à radio TSF, no que consiste o tratamento:

Numa primeira fase é preciso conhecer rotinas, o grau de dependência, e aconselha-se o fumador a mudar os hábitos, rituais, cortar nos cigarros eletrónicos e pensar numa data para deixar de fumar.”

Afirma ainda que as pessoas que procuram esta ajuda são pacientes que, geralmente, já têm algum tipo de patologia associada ao hábito tabágico, pelo que poucos se deslocam até ao serviço por iniciativa própria, o diminui a probabilidade de conseguirem deixar de fumar.

Os fumadores muitas vezes não procuram ajuda porque lhes parece que isso é sinal de fraqueza. Na verdade, é ao contrário: quando temos uma doença o que faz sentido é encontrar o tratamento adequado para essa doença. No caso do tabagismo, é encontrar o tratamento adequado para lidar com a síndrome de abstinência tabágica”, diz Paula Rosa, da Comissão de Trabalho da Sociedade Portuguesa de Pneumologia num comunicado enviado à imprensa.

De acordo com a pneumologista, “a terapêutica farmacológica duplica” ou “triplica a probabilidade de sucesso mas num fumador muito motivado para deixar de fumar”, mas sem força de vontade é muito difícil conseguir esse feito.

“A taxa de sucesso anda à volta de 30%, com cerca de 20% de fumadores a abandonarem o processo logo nas primeiras consultas”, declara Ivone Pascoal à TSF.

No entanto, é importante frisar que estas consultas têm o apoio de uma equipa muiltidisciplinar, contando com psicólogos e nutricionistas. Se o receio dos fumadores que querem deixar de fumar for engordar devido à remoção do hábito existe um nutricionista para os ajudar, e se se prender com o facto de pensarem que vão dar em loucos não há motivos para preocupações porque existe um psicólogo que os acompanhará.

Para fazer o “desmame” existem ainda inúmeros produtos disponíveis no mercado, que contém nicotina em outras formas não tão prejudiciais, como “adesivos transgénicos, pastilhas e até há um spray oral”, cuja segurança e eficácia são, como referiu, comprovadas através de vários estudos. Já no que toca ao cigarro eletrónico, a médica diz não “ter essa segurança.”

No entanto, Ivone Pascoal alerta para o facto de não haver comparticipação em nenhum destes fármacos, à exceção de um.

“Isto não é muito acessível”, afirma, dizendo ainda que verifica existir “dificuldades em pessoas que tinham indicação para prolongar a terapêutica, mas não têm meios [financeiros]” para o fazer.

 

Cigarro eletrónico, não! Mas porquê?

Segundo a coordenadora da consulta de cessação tabágica no Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia a razão é simples:

Pode haver constituintes do cigarro eletrónico que são diferentes e com uma concentração diferente da do fumo do cigarro, mas a mensagem é: o que devemos respirar é ar puro. O cigarro eletrónico, com a ilusão enganosa de que é vapor, cria a ilusão de que é algo inocente, que só tem vapor de água e [isso], como sabemos, não é verdade.

 

E depois do adeus? Vem a reabilitação

A verdade é que mesmo após deixar de fumar, o efeito do tabaco fica nos pulmões, sendo necessário avaliar o impacto que esse hábito influiu na função pulmonar para que possam ser tomadas as medidas adequadas para que uma eventual doença associada ao tabagismo não evolua.

António Carvalheira, médico pneumologista e coordenador do Programa de Reabilitação Respiratória do AIR Care Centre, único centro em Portugal exclusivamente dedicado à reabilitação de doentes respiratórios, alerta que “o fumador ou ex-fumador é um doente, mesmo que ainda não tenha o diagnóstico” e destaca que “deixar de fumar é um passo muito importante, mas não chega. A saúde respiratória precisa de ser reabilitada”.

Por esse motivo, o especialista aconselha “todos os fumadores e ex-fumadores a fazer uma Tomografia Computadorizada do tórax para avaliar possíveis alterações estruturais nos pulmões e exames para analisar eventuais alterações da função respiratória, como a espirometria ou a pletismografia”. Quando essas alterações se verificam e o ex-fumador tem sintomas como tosse, expetoração e dispneia (falta de ar) “é totalmente recomendado, para além das medidas profiláticas e terapêuticas, a  Reabilitação Respiratória”, sublinha.

 

EQ/SO

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