Com a aproximação do inverno, e prevendo-se o aumento da pressão sobre os serviços de saúde num ano em que a pandemia de Covid-19 deverá trazer dificuldades acrescidas, a Direção-Geral de Saúde decidiu já antecipar o início da vacinação contra a gripe para o dia 28 de setembro.

Os primeiros dados indicam que a procura da vacina nas farmácias mais do que quintuplicou em relação a anos anteriores. Este aumento da procura é um sinal positivo. Para além da infeção pelo vírus influenza, que provoca a gripe, também o Streptococcus pneumoniae, que desencadeia pneumonias, tem uma maior circulação no inverno. Por isso, é aconselhada a toma da vacina antipneumocócica a alguns grupos de risco: pessoas com mais de 65 anos, pessoas com doenças crónicas como diabetes, asma, DPOC e outras doenças respiratórias crónicas, doença cardíaca, doença hepática crónica, doentes oncológicos, portadores de VIH e doentes renais.

No entanto, atualmente, a vacina só é gratuita para as crianças até aos cinco anos e para um restrito grupo de doentes, como imunodeprimidos, doentes com VIH ou transplantados (como previsto na norma das DGS). Desta forma, muitos doentes de grupos de risco não têm comparticipação e acabam por não se vacinar por razões económicas. A vacina tem um custo de 59,10 euros. “Mesmo contando com a comparticipação de 21,87 €, o doente tem pagar 37,23 € o que, obviamente, pode ser um fator dissuasor”, alerta o médico o pneumologista Jaime Pina.

 

Cobertura vacinal nos idosos ronda os 40%

 

Embora a taxa de vacinação tenha subido entre os idosos, apenas cerca de 40% tomam a vacina. Por isso, o também vice-presidente da Fundação Portuguesa do Pulmão (FPP) sublinha que a “FPP tem pugnado pela gratuitidade da vacina antipneumocócica para as pessoas com mais de 65 anos, seguindo a política vacinal aplicada à gripe e que tão bons resultados tem dado”.

A pneumonia mata cerca de 5 mil portugueses por ano. Para Jaime Pina, o investimento que seria feito em prevenção traria benefícios. “Vacinar gratuitamente todas as pessoas com mais de 65 anos custaria ao erário público cerca de 80 milhões de euros, curiosamente o valor que o SNS gasta todos os anos a tratar pneumonias. Aliás, há estudos que apontam que o gasto em vacinas é sempre um bom investimento: por cada euro investido haverá um retorno que pode chegar aos doze”, acrescenta o médico.

A Direção Geral de Saúde sublinha, ao JN, que a possibilidade de tornar a vacina gratuita está em avaliação. Contudo, o tema ainda não foi incluído “na Comissão Técnica de Vacinação”.

 

Falta aconselhamento médico

 

Para além do preço, há um outro fator que dificulta a vacinação: a informação. Num inquérito recente realizado pelo Movimento dos Doentes pela Vacinação (MOVA), apenas 45% das pessoas de grupos de risco tinham sido aconselhados pelos médicos a imunizarem-se. O pneumologista Filipe Froes critica a falta de aconselhamento médico e deixa um conselho. “Devemos promover a vacinação contra a gripe e a vacinação antipneumocócica. Os médicos devem cumprir a norma da DGS”.

Sabendo-se que o mecanismo que mais frequentemente conduz à vacinação é a recomendação feita pelo médico, os “profissionais de saúde são fundamentais na divulgação da informação e no aconselhamento”, sublinha a Drª Isabel Saraiva, presidente do MOVA. Dos inquiridos vacinados contra a pneumonia, 71% indicaram que a recomendação tinha sido pelo médico de Medicina Geral e Familiar.

TC/SO

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