24 Mar, 2026

Maioria dos doentes com lúpus em Portugal mantém exposição prolongada a corticoides

A maioria das pessoas com lúpus eritematoso sistémico em Portugal incluídas numa análise recente mantém exposição prolongada a corticosteroides orais, muitas vezes acima do recomendado, evidenciando a necessidade de estratégias para reduzir o seu uso a longo prazo.

Maioria dos doentes com lúpus em Portugal mantém exposição prolongada a corticoides

Os resultados finais do estudo TRANSfORM indicam que 86,7% das pessoas com lúpus eritematoso sistémico (LES) incluídas na análise e em tratamento com corticosteroides orais apresentam exposição prolongada a esta terapêutica, por períodos iguais ou superiores a três meses, ultrapassando o que as diretrizes internacionais consideram seguro para tratamento de manutenção.

Os dados, divulgados no 15th Lupus Europe Meeting (SLEuro 2026), que decorreu em Lisboa, evidenciam o papel ainda central dos corticosteroides no tratamento da doença em Portugal e reforçam a necessidade de definir estratégias que permitam reduzir a sua utilização a longo prazo.

De acordo com recomendações da European Alliance of Associations for Rheumatology (EULAR), os corticosteroides devem ser minimizados e, sempre que possível, suspensos. Quando a doença não está controlada com terapêuticas convencionais, deve ser considerada a introdução de imunossupressores e/ou terapêuticas biológicas.

Os investigadores do estudo, Luís Inês e António Marinho, sublinham que os dados agora conhecidos permitem “caracterizar com maior robustez a realidade portuguesa” e mostram que, “apesar da evolução terapêutica, a exposição prolongada a corticosteroides continua a ser frequente no LES”, considerando esta informação essencial para apoiar decisões clínicas e otimizar estratégias de tratamento.

O estudo foi conduzido em farmácias comunitárias de todo o país e incluiu uma amostra de 339 adultos com diagnóstico auto-reportado de LES. A população analisada apresenta um perfil consistente com a epidemiologia da doença, com predominância feminina (90,6%).

Em Portugal, o LES afeta cerca de 0,1% da população. Trata-se de uma doença autoimune crónica, complexa e heterogénea, que pode comprometer múltiplos órgãos e sistemas. Apesar dos avanços terapêuticos, os corticosteroides continuam a ser amplamente utilizados para controlo da inflamação e das exacerbações.

Segundo os dados do estudo, 51,3% dos doentes incluídos utilizam corticosteroides, sendo que 24,4% o fazem em dose diária fixa. Cerca de um terço dos doentes analisados encontra-se, aliás, sob uma dose acima do limite recomendado para manutenção.

A análise revela também uma elevada carga de comorbilidades: 82,9% dos doentes identificam pelo menos uma comorbilidade ou manifestação do LES, incluindo hipertensão arterial, hipercolesterolemia, alterações cutâneas e excesso de peso ou obesidade. Este perfil clínico é consistente com fatores de risco frequentemente descritos e pode ser influenciado pela exposição prolongada a corticosteroides.

Neste contexto, o estudo destaca a importância de estratégias terapêuticas que reduzam a dependência destes fármacos. As chamadas abordagens “steroid-sparing”, que incluem imunossupressores e terapêuticas biológicas dirigidas, permitem reduzir ou até eliminar a necessidade de corticosteroides a longo prazo, mantendo o controlo da inflamação e da atividade da doença.

A utilização destas abordagens tem vindo a assumir um papel crescente, permitindo não só reduzir as doses de corticosteroides, mas também minimizar efeitos adversos associados, como aumento de peso, hipertensão, diabetes, osteoporose e aumento do risco cardiovascular, contribuindo para melhorar a segurança e a qualidade de vida dos doentes.

“Para as pessoas que vivem com LES, a dependência prolongada de corticoides continua a ser uma realidade. A geração de evidência como o TRANSfORM é fundamental para dar visibilidade às necessidades dos doentes e promover o acesso a opções terapêuticas que permitam melhor controlo da doença e melhor qualidade de vida”, afirma Rita Mendes, presidente da Associação de Doentes com Lúpus.

Também citado no comunicado, Hugo Martinho, diretor médico da AstraZeneca Portugal — empresa envolvida na parceria que deu origem ao estudo —, sublinha que “a geração de evidência em contexto real é essencial para compreender o percurso das pessoas com LES e apoiar a evolução do paradigma terapêutico”, destacando o compromisso com a investigação em doenças autoimunes e com a colaboração com a comunidade científica e associações de doentes.

O estudo TRANSfORM resulta de uma parceria entre a AstraZeneca, o ICBAS – Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto, a Universidade da Beira Interior, a Cientis da Associação Nacional das Farmácias e a Associação de Doentes com Lúpus.

SO/COMUNICADO

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