4 Jun, 2020

João Almeida Lopes: “Somos um parceiro para ajudar Portugal na retoma económica”

A área da saúde e o sector farmacêutico podem ser críticos para a reativação em pleno da economia portuguesa, diz o presidente da Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica (APIFARMA), em entrevista.

Para João Almeida Lopes, é hoje evidente que a indústria farmacêutica em Portugal desde cedo assumiu a sua vontade de ajudar a  debelar esta crise, através de envolvimento em projetos que marcaram a diferença e com doações que superaram os 3 milhões de euros. Da mesma forma, acredita que na fase pós-pandemia o setor não se afastará da sua missão primordial: fomentar a inovação e o desenvolvimento de vacinas, terapêuticas e meios de diagnóstico.

De que forma a APIFARMA analisa o impacto que a pandemia provocada pelo SARS-CoV-2 está a ter no sistema de saúde e na economia portuguesa?

 João Almeida Lopes – A redução das medidas de confinamento, em linha com as recomendações da Comissão Europeia, permite retomar alguma normalidade e iniciar a fase de recuperação, nomeadamente da saúde e da economia. Naturalmente, este caminho de normalização tem de ter presente a adequação de medidas preventivas que reduzam os riscos para a Saúde Pública e que permitam continuar a conter a propagação da doença COVID-19.

No que concerne à área da saúde, entendemos que é necessário assegurar a resposta a todos os portugueses que necessitam de cuidados de saúde, retomando para isso a resposta assistencial a todos os doentes que padecem de outras doenças que não a COVID-19.

No que diz respeito à economia, é tempo de avançar para uma recuperação da actividade e do quotidiano dos cidadãos. Na verdade, esta retoma é uma oportunidade para redirecionar o nosso futuro colectivo e reequacionar que investimentos queremos para o país. No contexto de pós-pandemia, podemos criar condições para revitalizar a economia apostando em sectores que, como a saúde, proporcionam empregos de qualidade e altamente qualificados, contribuem para a economia do país e permitem manter e equilibrar o bem-estar social de Portugal.

“Na fase pós-pandemia, a indústria farmacêutica não se afastará da sua missão primordial: fomentar a inovação e o desenvolvimento de vacinas, terapêuticas e meios de diagnóstico que respondam às necessidades de tratamento e prevenção”

As empresas farmacêuticas a operar em Portugal estão a reequacionar investimentos em larga escala?

No início desta pandemia a nossa prioridade foi assegurar que os medicamentos e os dispositivos médicos para diagnóstico in vitro continuam a chegar a todos os doentes que deles necessitam.

Em simultâneo, estamos a trabalhar para que os decisores percebam que a área da Saúde e o sector farmacêutico em particular podem ser uma chave para a reativação em pleno da nossa economia ao contribuir para a criação de emprego altamente qualificado, recebendo investimento externo e aumentando os projectos de investigação & desenvolvimento realizados em Portugal.

Todos os países ambicionam receber investimento da indústria farmacêutica e para isso é necessário criar um ambiente favorável, que permita convencer os centros de decisão das multinacionais que operam nas áreas da biomedicina e biofarmacêutica.

E do ponto de vista dos recursos humanos, existem associadas da APIFARMA obrigadas a dispensar colaboradores ou a interromper processos de recrutamento?

Não temos nenhuma indicação nesse sentido. Estamos a regressar à normalidade e, em breve, voltaremos todos à nossa actividade, esclarecendo profissionais de saúde, fazendo ensaios clínicos, investigando e disponibilizando medicamentos, vacinas e meios de diagnóstico, garantindo sempre o acesso dos portugueses aos cuidados de saúde de que necessitam.

Gostaríamos de salientar a importância das empresas de base industrial em Portugal e de todos os seus colaboradores que continuam a assegurar o fabrico e o fornecimento dos medicamentos e dispositivos médicos in vitro, contributo essencial para Portugal ultrapassar este período tão exigente das nossas vidas.

Acredita que a introdução de novas terapêuticas, importantes para a qualidade de vida de alguns doentes, poderá vir a ser atrasada devido a esta crise sem precedentes?

A introdução de novas terapêuticas, em tempo e equidade, é um dos pontos fundamentais de qualquer sistema de saúde. Naturalmente, essa importância é primordial para os doentes, mas também para a credibilização de Portugal como país amigo da inovação e da ciência, factor determinante para o relançamento da nossa economia.

Temos a consciência de que o sistema de saúde e os seus profissionais estão neste momento mobilizados para enfrentar esta pandemia. No entanto, os demais cuidados de saúde têm de continuar a ser garantidos, sendo um dos pilares o acesso à inovação. Confiamos que os decisores estão conscientes da importância de evitar que a actual situação de pandemia comprometa o acesso dos doentes e dos cidadãos em geral a novos medicamentos.

A APIFARMA divulgou recentemente o compromisso da indústria farmacêutica portuguesa para combater a pandemia de COVID-19. Este é um sinal de que é importante não baixar os braços?

É sobretudo um reafirmar do compromisso que a indústria farmacêutica, em todo o mundo, tem com as pessoas, ou seja, contribuir para mais e melhor vida. Na fase pós-pandemia, a indústria farmacêutica não se afastará da sua missão primordial: fomentar a inovação e o desenvolvimento de vacinas, terapêuticas e meios de diagnóstico que respondam às necessidades de tratamento e prevenção de novas patologias, ao mesmo tempo que disponibilizamos soluções que constituam uma melhoria para a saúde e qualidade de vida de todos os cidadãos.

“À data, a APIFARMA e as empresas farmacêuticas suas associadas doaram mais de 3,2 milhões de euros”

Num momento particularmente difícil, o país tem demonstrado contudo algum grau de dinamismo e solidariedade para com os mais fragilizados, seja do ponto de vista da saúde e ou do ponto de vista económico. As companhias farmacêuticas também se têm envolvido nesse esforço solidário?

A indústria farmacêutica assumiu, desde a primeira hora, a responsabilidade de responder à situação de emergência que o mundo atravessa. E essa responsabilidade inclui criar parcerias e apoiar organizações que lutam contra esta doença no terreno. Este envolvimento é parte da nossa missão.

À data, a APIFARMA e as empresas farmacêuticas suas associadas doaram mais de 3,2 milhões de euros. Estes donativos destinaram-se a entidades do Serviço Nacional de Saúde, IPSS, forças de segurança, de socorro e de protecção civil, autarquias, instituições de ensino, prestadores de saúde particulares, organizações não governamentais, associações de doentes, entre outras. Por exemplo, permitiram apoiar o Fundo de Apoio Financeiro “Todos Por Quem Cuida” – iniciativa criada em conjunto com a Ordem dos Médicos e a Ordem dos Farmacêuticos – com 1,1 milhões de euros, para aquisição de equipamento hospitalar, equipamento de protecção individual e outro material necessário a todos os profissionais que combatem a COVID-19. Apoiámos também a Associação para o Desenvolvimento do Ensino e Investigação em Microbiologia (ADEIM), da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, com 40 mil euros para aquisição de material de diagnóstico, possibilitando a realização de 3.000 análises e ensaios de diagnóstico do vírus SARS-CoV-2. Contribuímos ainda com uma verba de 500 mil euros para a Resposta Global à COVID-19, uma iniciativa da Comissão Europeia e do Governo português, para acelerar o desenvolvimento, a produção e o acesso a vacinas, diagnósticos e tratamentos para a COVID-19. Os donativos em espécie já superam um valor de 566 mil euros, onde se incluem vídeolaringoscópios, oxímetros, monitores, máscaras FFP2, batas de protecção, máscaras cirúrgicas, luvas, antissépticos, entre outros.

A par, apoiámos projetos especificamente criados para permitir a entrega de medicamentos, habitualmente de dispensa hospitalar, em casa de doentes. Para isso associámo-nos ao Projeto “Operação Luz Verde”, uma resposta articulada entre profissionais da saúde e os agentes do sector do medicamento, com o apoio da Ordem dos Farmacêuticos e da Ordem dos Médicos, e doámos 30 mil euros à Associação Dignitude para o “Fundo de Emergência :abem COVID-19”.

Que papel pode desempenhar o sector do medicamento, em particular, na fase de recuperação pós-pandemia?

O contributo da indústria farmacêutica começou mesmo antes de entrarmos na fase de recuperação pós-pandemia, quando activámos os planos de contingência necessários para ultrapassar com êxito o choque inicial provocado pela paralisação das unidades produtivas, garantindo o funcionamento do circuito do medicamento e o abastecimento regular às populações.

Sentimos que, com esta crise, a indústria farmacêutica passou a ser olhada, definitivamente, como uma da parte da solução. Somos um parceiro para ajudar Portugal na retoma económica, melhorar o emprego, reequilibrar as componentes social e económica. E a saúde, onde se incluem as empresas farmacêuticas, serão fundamentais neste processo. Se, no pós-pandemia, alguém insistir em ver a saúde e os seus operadores económicos como um problema, é porque está a fazer um diagnóstico errado da situação.

Quais serão, na sua perspectiva, os maiores desafios e as maiores oportunidades que nascerão após o final deste período de instabilidade?

A pandemia provocada pela COVID-19 alterará, para sempre, a forma como priorizamos a saúde. Hoje, todos concordamos que a saúde é o bem mais precioso que a sociedade tem. E sem ela não podemos avançar e progredir. Sem saúde, somos confinados, somos obrigados a travar. Hoje sabemos que é prioritário considerar a saúde uma prioridade. Por isso, esperamos que se assuma a saúde como a prioridade do investimento em Portugal.

Como referimos anteriormente, há que trabalhar no relançamento de uma nova economia para Portugal, assente no conhecimento, na inovação, na biomedicina, na ciência e investigação. Uma aposta nesta área cria condições para o país crescer, de forma sólida e estruturada, com impactos consistentes e significativos ao nível do emprego, das exportações e do investimento.

TC/SO

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