22 Abr, 2022

Insuficiência cardíaca. “É nos internamentos que está o grande impacto na qualidade de vida dos doentes”

Em entrevista, a professora da FMUP Joana Pimenta identifica os principais desafios na abordagem aos doentes internados com IC descompensada, que representam uma parte significativa dos internamentos, diz a também internista no Centro Hospitalar Gaia/Espinho.

Tem-se verificado, nos últimos meses, e com o aumento da afluência às urgências, um aumento dos casos de insuficiência cardíaca descompensada?

Não lhe consigo dar esses dados. Essa contabilização é feita mais tarde e não no momento da admissão. O facto é que temos sempre muitos casos de IC descompensada. Temos tido uma afluência maior nas urgências e, portanto, em última análise, temos mais casos de IC descompensada. A verdade é que estes doentes representam uma parte significativa dos doentes que são internados.

Quais os grandes desafios na abordagem ao doente internado com IC descompensada?

Há três desafios importantes. O primeiro é o diagnóstico. É importante diagnosticar corretamente a doença e, para isso é necessária, para além do exame físico e da história clínica, a utilização de peptídeos natriuréticos e do ecocardiograma (que não está acessível em todos os ambientes). Também é preciso uma correta identificação dos fatores que precipitaram aquele quadro de IC descompensada – e há múltiplos fatores, inclusive as infeções que têm vindo a registar-se.

Normalmente qual a causa que leva à descompensação da IC? É frequente a identificação dessa causa?

Sim, é frequente. Normalmente, é mais do que uma causa. As mais frequentes são infeções, arritmias, doença renal agudizada, anemia, má adesão ao tratamento e à restrição de água e sódio (o excesso da ingestão de sal pode levar à descompensação).

Ainda em contexto de hospitalização, é importante controlar a congestão do doente – são doentes que vêm com grande sobrecarga de fluidos e é preciso descongestioná-los porque sabemos que isso tem um impacto no prognóstico. Depois, numa fase mais estabilizada, é importante introduzir as terapêuticas que sabemos que modificam o prognóstico nestes doentes ou otimizá-las.

O último desafio é a capacidade de fazer a ligação entre os cuidados hospitalares e os cuidados em ambulatório. É preciso programar um seguimento apertado destes doentes, é preciso estabelecer uma interação entre os cuidados de saúde primários e os cuidados hospitalares. Teríamos de ter equipas multidisciplinares e estamos aquém.

Essa falta de articulação entre os hospitais e os CSP contribui para o reinternamento destes doentes?

Sim. A taxa de reinternamento de doentes com IC nos países industrializados é alta, cerca de 30%, sendo que a maior parte se concentra nos primeiros três meses (após a alta hospitalar). É nos internamentos que está o grande custo desta doença e o grande impacto na qualidade de vida dos doentes.

Que medidas devem ser tomadas para prevenir os reinternamentos por IC?

Várias coisas. O controlo da congestão, a introdução de terapêuticas modificadoras de prognóstico e a sua otimização rápida em consulta, a criação de equipas multidisciplinares e a reavaliação sustentada dos doentes.

SO

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