Grande maioria dos casos de hipotiroidismo estão por diagnosticar

Helder Simões

Helder Simões

Médico Endocrinologista do IPO de Lisboa

Assistente convidado da Nova Medical School Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa.

Médico colaborador do grupo José de Mello Saúde.

Membro da direção da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM)

Em época de pandemia COVID-19 percebe-se que muitas doenças crónicas fiquem longe do foco da comunidade médica. Ainda assim elas persistem com o seu impacto na vida da população. Dia 25 de Maio assinala-se o dia mundial da tiroide, e de 25 a 31 de Maio a semana internacional da tiroide.

No seu todo, a patologia da tiroide faz parte das doenças crónicas mais comuns. Se contabilizarmos a prevalência de doença subclínica, como os nódulos tiroideus apenas detectados por ecografia, e a disfunção tiroideia subclínica, estaremos a falar de alguns milhões de portugueses afectados.

Embora não se recomende um rastreio ecográfico da população, vários estudos apontam para prevalência ecográfica da doença nodular da tiroide que ronda 40% da população adulta e a sua prevalência aumenta com a idade. Nódulos tiroideus palpáveis são menos frequentes, atingindo no máximo 5% da população. Felizmente, cerca de 90% dos nódulos são benignos. A citologia aspirativa da tiroide continua a ser o método de eleição para avaliar os nódulos potencialmente mais suspeitos.

A patologia nodular da tiroide coloca grande pressão assistencial nos serviços de endocrinologia, radiologia, anatomia patológica e cirurgia.

 

 

A razão de os nódulos serem mais comuns em mulheres pode ser apenas um viés de “rastreio” ecográfico, pois é comum as mulheres terem queixas cervicais inespecíficas que frequentemente culminam na realização de ecografia da tiroide, exame que pode detectar nódulos incidentais, habitualmente não relacionados com as queixas. Na mesma linha, ao serem mais afectadas por doença autoimune da tiroide, as mulheres acabam por este motivo por ser também alvo de mais exames ecográficos da tiroide, dando lugar a descoberta acidental de nódulos. Por outro lado, sabemos que os estrogénios podem exercer um efeito trófico nas células tiroideias, o que pode fazer crescer pequenos nódulos e mesmo carcinomas pré-existentes em mulheres. O mesmo efeito pode advir de uma gravidez e produção de beta-HCG.

O cancro da tiroide ocupa já o 3º ou 4º lugar dos mais frequentes na mulher, nos países desenvolvidos. No caso do cancro da tiróide o tratamento é quase sempre cirúrgico, consistindo na remoção da totalidade da tiróide ou apenas parcialmente. Em casos mais agressivos é necessário complementar o tratamento com Iodo radioactivo. O prognóstico é em geral muito bom. Actualmente existe também boa evidência sobre a vigilância de microcarcinomas e pequenos carcinomas da tiroide com pouco mais de 1 cm, sem intervenção da cirurgia, tendo em conta o seu bom prognóstico. É uma boa opção para doentes mais idosos e com comorbilidades que impliquem risco na cirurgia.

Alguns nódulos da tiroide mesmo benignos, pelo seu volume, obrigam a cirurgia. A ablação por radiofrequência é também uma alternativa fiável e pouco invasiva para estes casos.

Relativamente à disfunção da tiroide temos 2 cenários opostos: o hipo e o hipertiroidismo.

O hipotiroidismo, mais frequente, é uma doença que engloba um conjunto de sintomas e sinais resultantes do défice de hormonas tiroideias (T4 e T3) e das suas ações no organismo. As hormonas tiroideias regulam várias funções, designadamente o consumo de energia e de oxigénio, temperatura, frequência cardíaca, trânsito intestinal, entre outras.  Os sintomas mais comuns de hipotiroidismo são: fadiga, lentificação, intolerância ao frio, edemas, humor deprimido, obstipação, bócio e algum aumento de peso. Mas existem outros, e os sintomas de hipotiroidismo podem confundir-se com outras situações, daí o seu diagnóstico passar frequentemente despercebido.

Segundo um estudo a prevalência do hipotiroidismo na população adulta Portuguesa ronda os 5%, similar à de outros países europeus. A maioria dos casos são de hipotiroidismo subclínico e ligeiro, mas estima-se que a grande maioria esteja por diagnosticar, talvez por causar apenas sintomas muito ligeiros, por vezes desvalorizados, ou mesmo decorrer de forma assintomática.

A principal causa de falência da tiroide é uma doença inflamatória de origem autoimune, designada tiroidite de Hashimoto ou tiroidite autoimune que destrói as células tiroideias. Esta doença é confirmada pela presença de auto-anticorpos anti-tiroideus.

No que respeita ao hipertiroidismo, é menos comum do que o hipotiroidismo, caracteriza-se por um excesso das hormonas tiroideias, e daí advêm sintomas como aumento da temperatura, transpiração, tremores, palpitações, nervosismo, aumento do trânsito intestinal, perda de peso. As causas principais são a doença de Graves (origem autoimune) ou nódulos hiperfuncionantes.

A suspeita do diagnóstico de disfunção tiroideia deve ser fundamentada pela história clínica e/ou exame físico, mas a confirmação é laboratorial, pois como disse os sintomas de disfunção tiroideia podem confundir-se com outras situações, sejam doenças ou da vida quotidiana. Esta é uma razão para o subdiagnóstico. O diagnóstico laboratorial é simples e barato. Em regra, assenta na medição das hormonas TSH e T4 Livre no sangue, embora, para efeitos de primeiro “rastreio”, o doseamento da hormona TSH seja suficiente.

O tratamento do hipotiroidismo é simples e barato. Faz-se com administração de levotiroxina, um substituto bioquímica e funcionalmente idêntico à hormona tiroideia T4. Esta é administrada num comprimido diário e é um dos medicamentos mais prescritos a nível mundial.

No caso do hipertiroidismo o tratamento é mais complexo, e pode passar por fármacos, iodo radioactivo ou cirurgia.

Esta semana serve sobretudo para alertar para o facto de as doenças da tiroide passarem frequentemente despercebidas, apesar de comuns.

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