28 Jun, 2017

Fomentar a investigação científica nos hospitais e apostar na inovação tecnológica

No passado dia 23 de junho, João Morais, presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC), foi o convidado especial no encontro “Impactos da gestão nos resultados clínicos”, que realizou-se no Palácio Nacional de Queluz, onde destacou a importância das unidades hospitalares se dedicarem à investigação científica

A iniciativa foi promovida pela Associação Portuguesa de Engenharia e Gestão da Saúde (APEGSAUDE).

Além de ter reforçado a importância das unidades hospitalares se dedicarem à investigação científica, João Morais considerou que “os sistemas de informação têm vindo a melhorar”. No entanto, “o parque informático em grande número de hospitais está obsoleto”.

Nas palavras do Cardiologista, a SPC está “interessada em discutir questões como os impactos da gestão nos resultados clínicos”, uma vez que este tema envolve “uma série de considerações e medidas que nem sempre são fáceis de implementar com a tutela. O paradigma da gestão hospitalar mudou ao longo dos tempos. Percebemos a limitação dos recursos financeiros e a crise dos últimos anos alterou a forma de encararmos os custos hospitalares”, frisou o  responsável na abertura do encontro organizado pela APEGSAUDE. Segundo João Morais, convidado principal desta reunião, “atingimos uma fase em que, de 3 em 3 meses, reunimos com as administrações hospitalares para olharmos para os números, do ponto de vista meramente financeiro.

Não há um verdadeiro interesse em saber qual é, por exemplo, a evolução da taxa de mortalidade referente ao enfarte de miocárdio. Tem de haver uma mudança de paradigma – sobretudo, atendendo a que estamos a falar de especialidades cruciais como a Cardiologia, que lida com patologias que constituem as principais causas de morte em Portugal. Ainda assim, devemos registar que, nos últimos 10 anos, houve muita investigação que nos permite tratar cada vez melhor, com base em recomendações internacionais validadas e cujo impacto clínico é conhecido. É por isto que a gestão não pode basear-se apenas nas questões de natureza financeira, mas deve ter em conta o impacto clínico das decisões De acordo com o orador, o trabalho desenvolvido pela cardiologia portuguesa nos últimos 10 anos “permitiu reduzir a taxa de mortalidade por enfarte de miocárdio. Isto foi possível porque houve planificação, entreajuda institucional e objetivos claros.

Neste momento, podemos dizer que estamos em condições de evoluir nesses objetivos, levando o foco para outras áreas. Foi assim que segundo a SPC a aposta deve ser centrada na morte súbita. E, para que os resultados sejam positivos, deve ser desenhada uma estratégia nacional eficaz, até porque uma boa parte destas vítimas está identificada como população de risco”, explicou o especilista, acrescentando: “A inovação tecnológica é dispendiosa, mas não podemos esquecer que foi através dela que conseguimos alcançar bons resultados.

Os materiais e os dispositivos utilizados em cada intervenção, ou procedimento, estão em permanente evolução e graças a isso os resultados são cada vez melhores. Daí que o acesso à inovação deva ser uma prioridade a que a gestão hospitalar deve estar mais atenta e sensível.” Rigor a investigar, rigor a tratar Para o presidente da SPC, os sistemas de informação “têm vindo a melhorar, mas o parque informático em grande numero de hospitais esta obsoleto.

Práticas tão simples como a impressão de uma receita tornou-se em alguns casos num suplício, aumentando o tempo dedicado às consultas. Numa outra perspetiva, as «apps» (cuja utilidade é indiscutível) são consideradas dispositivos médicos. Ou seja, a sua aprovação tardia por parte das entidades competentes acaba por matar o desenvolvimento tecnológico e a inovação, já que, quando uma determinada «app» é aprovada, entretanto já saíram várias versões. Esta morosidade é injustificável”. A investigação científica é igualmente “fundamental para os serviços e para as unidades hospitalares. É isso que assegura rigor – e quem tem rigor a investigar, tem rigor a tratar”. Neste sentido, a investigação científica “tem que estar incorporada na atividade hospitalar. Mas para que tal aconteça, os médicos devem dispor de tempo e os contratos-programa têm de sofrer evoluções. Precisamos de criar centros de investigação e apostar em protocolos de cooperação com grupos empresariais e com as instituições académicas”.

Este encontro contou também com a participação de outros especialistas, como o António Carvalheira Santos (pneumologista do Hospital Pulido Valente – Centro Hospitalar de Lisboa Norte), o Carlos Morais (cardiologista do Hospital Prof. Doutor Fernando Fonseca), o Carlos Rabaçal (diretor clínico do Hospital de Vila Franca de Xira) e Jorge Sequeira (diretor geral da Cerner Portugal). O engenheiro Carlos Tomás, presidente da APEGSAUDE, relembrou que “está a ser trabalhado, juntamente com a Ordem dos Médicos (OM), um «green paper» sobre sistemas de informação na saúde. Em maio, foram ouvidas 40 personalidades e, em breve, o relatório final será disponibilizado ao bastonário da OM. O objetivo é dispormos de um documento que sirva de base para uma reflexão séria, apontando eventuais caminhos e soluções”.

SPC/SO/CS

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