27 Abr, 2017

Estudo revela que consumo de peixe na gravidez não protege a criança de doenças respiratórias

Os resultados são considerados surpreendentes. O estudo internacional, no qual participaram investigadores do Instituto de Saúde Pública do Porto (ISPUP), concluiu que, ao contrário do esperado, o consumo de peixe durante a gravidez não atua como protetor para o desenvolvimento de doenças respiratórias

De acordo com os investigadores, “o peixe é rico em ácidos gordos da série ómega 3 e este tipo de ácidos gordos promove a produção de um tipo de substâncias com propriedades anti-inflamatórias”, mas de segundo o estudo estes componentes químicos não são suficientes para proteger a criança de doenças respiratórias.

“Pensávamos que este mecanismo anti-inflamatório poderia atuar como protetor para o desenvolvimento de doenças respiratórias nas crianças, o que não se observou, juntando dados de diferentes populações”, explicou Andreia Oliveira, uma das investigadoras do ISPUP envolvida neste estudo internacional, juntamente com Henrique Barros.

A investigação envolveu 60.779 mães e crianças, pertencentes a 19 coortes (estudos longitudinais) – 18 europeias e uma dos Estados Unidos – que integram a rede europeia CHICOS, a qual visa melhorar a saúde infantil na Europa, através da investigação integrada de coortes mãe-filho no espaço europeu.

O estudo integrou uma sub-coorte de cerca de 400 grávidas da Geração 21 – coorte que avalia o crescimento e desenvolvimento de mais de oito mil crianças da cidade do Porto, desde o seu nascimento – que tinha sido inquirida sobre consumo de peixe durante a gravidez, utilizando um questionário de frequência alimentar especificamente validado para Portugal. Foi também fornecida informação relativa à prevalência de sintomas respiratórios, asma e rinite alérgica nos primeiros anos de vida das crianças, dos 0 aos 2, dos 3 aos 4 e dos 5 aos 8 anos.

Os dados portugueses foram integrados com a informação proveniente das restantes coortes, e harmonizados, com o objetivo de se fazer, posteriormente, uma estimativa conjunta, que permitisse retirar conclusões a nível europeu.

Para a investigadora, “a vantagem deste tipo de estudos reside no facto de juntarmos informação de diferentes coortes que são muito heterogéneas. Existem coortes em que as mães consomem muito peixe e outras em que consomem pouco peixe. Como tínhamos um âmbito de variação da exposição bastante alargado, e dada a plausibilidade biológica conhecida, esperávamos encontrar uma associação entre o consumo de peixe durante a gravidez e a saúde respiratória da criança”.

Contudo, os resultados não apontam para que exista evidência de um possível efeito protetor do consumo de peixe, de pelo menos uma vez por semana durante a gravidez, e o desenvolvimento de pieira, asma e rinite alérgica, durante a infância.

Andreia Oliveira sublinhou também que, não é possível mostrar após harmonização e pooling de informação de mais de 60 mil pares de mãe-criança, que exista essa associação.

Os investigadores analisaram ainda o consumo por tipo de peixe (gordo ou magro) e fizeram algumas análises de sensibilidade (retirando uma coorte de cada vez, analisando o efeito por área geográfica das coortes, por exemplo), mas não conseguiram mostrar qualquer associação.

Para além da coorte portuguesa, o estudo contou com a participação de coortes provenientes dos Países Baixos, Dinamarca, Bélgica, Itália, Noruega, Espanha, Irlanda, França, Grécia, Reino Unido e Estados Unidos.

Os resultados do estudo constam do artigo designado “Fish and seafood consumption during pregnancy and the risk of asthma and allergic rhinitis in childhood: a pooled analysis of 18 European and US birth cohorts”, publicado no International Journal of Epidemiology, considerado “o mais importante” jornal dedicado à investigação epidemiológica.

LUSA/SO/CS

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