5 Nov, 2019

Estudantes de medicina querem organismo para planear recursos humanos

Organismo estatal serviria para elencar os motivos do abandono do SNS pelos jovens médicos, quais os especialistas em falta e onde e quantos o sistema consegue formar.

Para a ANEM, estas são “questões estruturantes” a que o país só conseguirá responder “com uma estratégia definida e um plano de longo prazo”.

“A falta de médicos no SNS resulta de um problema de distribuição e défice de planeamento que os futuros médicos desejam eliminar”, defende a ANEM, que quer colocar um “ponto final” nas políticas desenhadas “em cima do joelho“, alocando o planeamento dos recursos humanos a esse organismo estatal a criar.

“Este ano serão excluídos da formação especializada 600 médicos recém-formados”, afirma a ANEM, lembrando que, nos últimos quatro anos, “o número de estudantes de Medicina que finaliza o curso e não tem acesso à especialidade não parou de aumentar”.

“O processo de seleção está em curso desde a semana passada e, este ano, apesar do aumento de vagas, cerca de 600 médicos vão ser excluídos pelo sistema. Sem alternativa, os médicos optam por continuar a sua formação no estrangeiro, trabalhar como tarefeiros ou desistir e exercer outra profissão”, acrescenta.

A ANEM recorda que, em 2018, 550 médicos solicitaram certificados à Ordem dos Médicos para exercer no estrangeiro e diz que durante este ano, sem que a Prova Nacional de Acesso à Formação Especializada tenha ocorrido, “já foram realizados 400 pedidos”.

“O número de pedidos tem aumentado desde 2015, ano em que, pela primeira vez, os jovens médicos não puderam prosseguir a sua formação. Desde esse período até aos dias de hoje, foram feitos mais de 1.700 pedidos”, diz a ANEM, acrescentando que 65% do total de pedidos “são de médicos sem especialidade em busca de uma oportunidade de formação no estrangeiro” e 35% de médicos especialistas.

Vasco Mendes, Presidente da ANEM, diz que estes números espelham “a falta de interesse em exercer medicina nas fracas condições que o Serviço Nacional de Saúde oferece, em detrimento de outras alternativas mais dignas, estáveis e aliciantes em Portugal ou no estrangeiro”.

Para o representante dos estudantes de Medicina, este fenómeno “é assustador” uma vez que os médicos em formação “dependem do acompanhamento de médicos mais experientes para terem vagas e acesso à formação”.

Vasco Mendes diz ainda que estes jovens profissionais só têm três opções: “ou emigram e Portugal perde médicos, ou são contratados para prestação de serviços em contexto de urgência, não têm acompanhamento de um médico especialista e não acompanham os doentes tanto internados como em consulta – o que agrava a qualidade do SNS -, ou desistem da Medicina porque não acedem à especialidade e exercem outra atividade profissional”. “Nenhuma destas saídas favorece o utente, o médico ou o SNS”, sublinha.

A ANEM recorda ainda que em 2018 a despesa com médicos “tarefeiros” atingiu os 105,3 milhões de euros, um novo recorde, verba que a associação considera que poderia ser usado na “contratação efetiva de médicos especialistas”.

Também o número de médicos sem acesso à especialidade ascendeu para 2.100, quando em 2015 este valor era de apenas 725, refere.

“À medida que os anos passam, empregamos mais “tarefeiros” e acabamos por depender deles para sustentar as urgências hospitalares e isso é errado e pouco lógico”, defende o presidente da ANEM.

SO/LUSA

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