26 Ago, 2025

Estudantes de Medicina alertam para degradação do ensino com aumento de vagas

A Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM) manifestou preocupação com o aumento de vagas nos cursos de Medicina, considerando que estão a ser ultrapassados os valores recomendados e que a qualidade do ensino e da formação clínica está em risco.

Estudantes de Medicina alertam para degradação do ensino com aumento de vagas

A Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM) alertou hoje para as consequências do aumento de vagas nos cursos de Medicina, defendendo que a qualidade do ensino está em causa e sublinhando a necessidade de um planeamento estratégico a longo prazo.

Em declarações à Lusa, o presidente da ANEM, Paulo Simões Peres, recordou as recomendações do grupo de trabalho criado pelo anterior Governo para avaliar as necessidades de formação médica na próxima década, que apontava para um crescimento de apenas 1% a 2% ao ano.

“Nos últimos seis anos temos ultrapassado largamente esta recomendação. Por isso, achamos que devemos usar esses dados para fazermos um planeamento adequado daquilo que será o SNS [Serviço Nacional de Saúde] daqui a 6 e a 13 anos”, afirmou.

Este ano, 1.647 estudantes ficaram colocados em Medicina, um dos cursos com médias de acesso mais elevadas, mas que regista “praticamente um aumento de vagas todos os anos”, segundo o dirigente estudantil e aluno da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP).

Paulo Simões Peres sublinhou que a formação médica “não se limita à sala de aula” e envolve contacto com doentes e com outros profissionais de saúde em hospitais e centros de saúde. Nesse contexto, alertou para a falta de tutores e para as implicações éticas no acompanhamento clínico dos doentes.

“Não vai ser através do aumento do número de vagas que se vão resolver os problemas no SNS. O que nós defendemos é que tem de haver um planeamento a curto, médio e longo prazo dos profissionais de saúde, que envolva todo o sistema — público, privado e social — para perceber quantos médicos temos e de que forma estão distribuídos”, afirmou.

O presidente da ANEM destacou ainda que Portugal tem 5,6 médicos por mil habitantes, acima da média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), que é de 3,7.

O dirigente alertou que a sobrecarga no ensino clínico já se faz sentir, com tutores responsáveis por mais de 15 estudantes, algo que considera “incomportável” e prejudicial à qualidade da formação.

Além de defender uma redução no número de vagas, a ANEM reivindica um corpo docente mais especializado e melhores condições logísticas para os estágios, incluindo alojamento, transportes e refeições, que nos hospitais são geralmente mais caras do que nas instituições de ensino superior.

Paulo Simões Peres apontou ainda a importância de diversificar as afiliações hospitalares, exemplificando com a Universidade do Minho, que distribui estágios por Braga, Guimarães e Viana do Castelo, e com a FMUP, que tem parcerias em várias unidades hospitalares, como em Vila Nova de Gaia.

“Temos mais de 10 escolas médicas em Portugal, e algumas já abrangem uma área territorial maior, o que seria positivo expandir, para garantir condições adequadas ao ensino clínico”, concluiu.

LUSA/SO

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