24 Nov, 2022

Entrevista. “Cerca de 80 a 85% dos doentes com cancro do pulmão são fumadores”

Novembro é o Mês de Sensibilização para o Cancro do Pulmão, cuja causa principal continua a ser o tabagismo. Telma Sequeira, pneumologista do IPO Lisboa e Assistente convidada de Genética Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, fala sobre a doença e o aumento da sobrevida.

Qual a prevalência do cancro do pulmão em Portugal?

Reportando aos dados disponíveis no Globocan, em 2020 em Portugal, o cancro do pulmão teve uma incidência de 9% (4.º cancro mais frequente) com 5415 novos casos diagnosticados e manteve-se como o cancro com maior mortalidade a nível nacional.

 

A que sintomas se deve estar atento?

Cerca de 80 a 85% dos doentes com diagnóstico de cancro do pulmão são fumadores e clinicamente muitos deles apresentam sintomas de bronquite crónica, nomeadamente, tosse com ou sem expetoração, cansaço e dispneia. Os doentes tendem a habituar-se e a aprender a viver com os sintomas crónicos, adaptando as suas atividades de vida diária. Assim, quando existe alguma alteração ao nível da frequência ou intensidades dos sintomas, como ocorre de forma habitualmente insidiosa, tendem a ser desvalorizadas. Infelizmente, a desvalorização do aumento da quantidade ou intensidade da tosse ou agravamento do cansaço e falta de ar determinam frequentemente um diagnóstico mais tardio, motivo pelo qual 70% dos cancros são diagnosticados em estadios metastáticos. Atualmente em contexto de pandemia covid-19, o aparecimento de tosse seca persistente e cansaço após doença aguda tem sido mais frequentemente observado em consulta. Em doentes com fatores de risco (fumadores, ex-fumadores com > 55 anos) deveremos sempre investigar o aparecimento destes sintomas, não atribuindo apenas à convalescença da covid-19.

“… um plano de cessação tabágica deverá sempre estar em cima da mesa quer na altura do diagnóstico de cancro quer durante o tratamento oncodirigido”

 

O tabagismo continua a ser o principal fator de risco…

Os hábitos tabágicos já se encontram estabelecidos como fator de risco causal para o desenvolvimento de cancro do pulmão. É fundamental a existência de programas de cessação tabágica tanto a nível hospitalar como ao nível dos cuidados de saúde primários. Inclusive, um plano de cessação tabágica deverá sempre estar em cima da mesa quer na altura do diagnóstico de cancro quer durante o tratamento oncodirigido.

 

De que forma é que o fumo passivo está a contribuir para o cancro do pulmão em não-fumadores?

Doentes que são expostos a fumo passivo de forma repetida apresentam risco de desenvolvimento de cancro do pulmão equiparável aos fumadores, tendo este tema sido avaliado em vários estudos internacionais. Paralelamente, este ano no Congresso Europeu de Oncologia, que decorreu em Paris em setembro passado, foi apresentado um estudo particularmente interessante em doentes não fumadores com cancro do pulmão não pequenas células (CPNPC) com mutação do gene recetor do fator de crescimento epidérmico (EGFR) em que se verificou que a exposição à poluição atmosférica poderá promover o desenvolvimento inicial do tumor com base numa mutação driver pré-existente (EGFR) e a interação de poluentes com eixos inflamatórios sistémicos do doente. Assim, pela primeira vez foi possível verificar num estudo uma interação entre a poluição atmosférica e o desenvolvimento de cancro.

 

Qual o papel dos médicos de família no combate contra o cancro do pulmão?

Os médicos de família são absolutamente vitais no rastreio dos sintomas dos doentes com fatores de risco conhecidos. São os médicos de família que mais precocemente contactam com os doentes e que podem iniciar as diligências necessárias, que permitam uma referenciação mais célere e possivelmente um diagnóstico atempado em estadios mais precoces.

“… o correto tratamento por parte dos médicos de família, das comorbilidades dos doentes é um pilar essencial para a realização e sucesso dos tratamentos sistémicos oncológicos”

 

Após o diagnóstico, de que forma se deve manter a articulação com o médico de família?

Após o diagnóstico, e durante o tratamento oncodirigido, o médico de família deve estar ativamente envolvido na gestão do doente. Deve ter acesso a informação atualizada do quadro clínico e terapêutica ativa, podendo ser uma ajuda preciosa na deteção de efeitos adversos decorrentes dos tratamentos ou, por exemplo, na avaliação de infeções agudas intercorrentes. Adicionalmente, o correto tratamento por parte dos médicos de família, das comorbilidades dos doentes é um pilar essencial para a realização e sucesso dos tratamentos sistémicos oncológicos. Trata-se na realidade de um verdadeiro trabalho de equipa e de multidisciplinariedade que deveria ser fomentado com maior frequência, o que nem sempre se verifica, dado que os canais de comunicação entre meio hospitalar e as unidades de saúde familiar nem sempre funcionam tão bem como deveriam.

 

Há uns anos, este cancro era “uma sentença de morte”. E hoje, existem mais tratamentos promissores?

Felizmente, o cancro do pulmão sofreu uma evolução muito favorável nos últimos 20 anos e, sobretudo nos últimos 6 anos, com o aparecimento de fármacos cada vez mais personalizados. Conseguimos atualmente e de forma cada vez mais detalhada oferecer um plano terapêutico ajustado ao doente e às características do tumor. Atualmente é essencial durante a marcha diagnóstica procedermos ao estudo de determinados biomarcadores assim como à genética do tumor. Mesmo em estadios avançados existem terapêuticas orais eficazes que permitem oferecer boas respostas aos tratamentos, traduzindo-se em maior sobrevida, sem perda significativa da qualidade de vida.

Apesar de não ser a maioria, atualmente já temos casos de doentes que se apresentam desde o início com cancro do pulmão em estadio IV em tratamento há vários anos. Em suma, a “sentença de morte” associada ao cancro do pulmão está gradualmente a sofrer uma mudança no seu paradigma. Ainda temos um longo caminho pela frente na compreensão e gestão do cancro do pulmão, contudo a ciência continua a fazer um enorme esforço e contributo para tornar esta doença de elevada letalidade numa doença crónica sem perda da qualidade de vida.

SO

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