É difícil ser Mãe em Portugal
Medicina Interna ULSSA Porto

É difícil ser Mãe em Portugal

Várias vezes me senti tentado a dizer alguma coisa sobre a enorme crise que se arrasta há anos nas maternidades do nosso País. Os problemas nos Hospitais do SNS não saem das manchetes dos jornais e as fragilidades nos Hospitais Privados, menos publicitadas, são conhecidas de muita gente. A minha inibição deve-se ao medo de sair “fora de pé” ao falar duma área da medicina, que não conheço tão bem. Mas, nas últimas duas semanas, a polémica da criação das Urgências Regionais de Obstetrícia, o alerta do aumento das cesarianas no SNS e o transformismo em segurança do parto na ambulância, impedem-me que continue calado. Julgo que temos de eleger cinco grandes ameaças aos Serviços de Obstetrícia Portugueses:

  • Falta de Médicos Especialistas de Obstetrícia no SNS

Há uma evidente carência de Especialistas de Obstetrícia no SNS, que não soube atempadamente criar as condições remuneratórias necessárias, para evitar a fuga desenfreada para o setor privado. Numa política de curto prazo, para evitar o confronto mediático, sem qualquer visão de futuro, o Obstetra só conseguia compor o ordenado com muitas horas de Urgência. Depois, para agravar a situação, as Urgências Obstétricas começaram a manter as escalas artificialmente, com o recurso a médicos tarefeiros pagos a peso de ouro. A hora do médico tarefeiro a valer mais do triplo do abnegado médico do quadro. Muitos rescindiram o contrato no Hospital Público e assinaram no Hospital Privado, voltando ao SNS para fazerem Urgências como médicos tarefeiros. Isto aconteceu com muitos médicos especialistas de várias áreas, mas teve na Obstetrícia a sua expressão máxima. Talvez porque a satisfação profissional também tenha caído tanto, que não há incentivo para ficar. Os Serviços de Obstetrícia desnatados de médicos especialistas, vivem na ansiedade da escala de urgência, esquecendo muita da atividade que os caraterizam como idóneos para a formação e cuidados assistenciais. Alguns Obstetras não toleram a constante tentativa de interferência nas suas decisões clínicas, através dum plano de parto definido pela parturiente ou pela Doula, que no Hospital Privado não existe.

  • Urgências Regionais de Obstetrícia

A criação de Urgências Regionais de Obstetrícia é uma medida tão boa como inevitável. Não havia forma de manter Urgências abertas em hospitais com um ou dois Obstetras, quando toda a restante escala era de médicos tarefeiros. O que é lamentável é termos chegado aqui, sem que ninguém se desse conta de que o médico do hospital na Urgência vale muito mais do que qualquer tarefeiro Especialista, pois assume a responsabilidade de cuidados continuados ao doente, sem se limitar a cumprir a sua função até ao fim do turno. Mas, é preciso ter a noção de que esta solução serve para ajudar nesta crise extrema da falta de meios humanos. Não é desejável que se torne definitiva, porque uma Urgência Regional é muito diferente duma Urgência Metropolitana, em que as distâncias são bem menores.

  • Cultura Woke na maternidade

A gravidez é um momento extraordinário da vida de uma mulher, em que o seu corpo se transforma na resposta a uma miríade de hormonas, até desembocar no milagre duma nova vida. Como não é uma doença, mas sim a expressão mais simples da natureza, é compreensível o desejo de que o parto aconteça em casa, sem os riscos do hospital. Algum wokismo dos nossos tempos, tolda-nos o discernimento para vermos a enormidade da taxa de mortalidade materna e fetal, quando os partos eram feitos em casa por parteiras tradicionais, agora conhecidas como doulas. No entanto, vale a pena refletir sobre os números oficiais divulgados pela APEO (Associação Portuguesa dos Enfermeiros Obstetras), de que no período de 2018 a 2025, 1207 grávidas optaram por ter o parto acompanhado em casa por Enfermeiro Obstetra Certificado, mas em que 220 delas (18,39%), 1 em cada 5), tiveram de recorrer ao Hospital na fase ativa do parto. Estes números, são para mim desencorajadores do parto em casa, mas deverão ser ainda piores quando a grávida é assistida por uma parteira tradicional ou doula, embora não haja dados conhecidos.

  • Aumento do número de partos por Cesariana

O aumento em 5% da taxa de cesarianas no SNS, abriu há dias o noticiário Antena 3. Foi entrevistado um Especialista de renome, que lamentou o facto classificando-o como o sintoma evidente da redução da qualidade assistencial prestada. Não há dúvida, que o parto por cesariana tem maiores riscos do que realizado por via vaginal, havendo até uma penalização financeira da ACSS aos hospitais que ultrapassam os 35% de cesarianas nos partos realizados. Na mesma semana, ouvi um Gestor dum Hospital Privado vangloriar-se do número recorde de partos neste setor. Foram cerca de 16.000 em 2025, 20% dos partos a nível nacional. Ninguém disse que a taxa de cesarianas nos Hospitais Privados ultrapassa os 80%.

  • Dar à luz na ambulância

São muitos os partos nas ambulâncias dos bombeiros portugueses. Devia ser uma exceção. A Senhora Ministra da Saúde foi interpelada pelos jornalistas acerca deste fenómeno crescente. Disse, com muita calma e um ligeiro sorriso, de que isso era bom por ser sinal que a ambulância chegava a tempo de prestar a assistência devida à parturiente. Fiquei estupefacto, mas tenho de concordar que a Senhora Ministra tinha razão. Era pior se o parto se desse à porta de casa ou na beira da estrada. Isso é que era do terceiro mundo!

 

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