
Enfermeira coordenadora do CRI Dermatovenereologia da ULSAS/Enfermeira especialista em enfermagem comunitária
Quando a Comunicação falha: Impacto das barreiras comunicacionais no autocuidado dermatológico de populações migrantes e na sustentabilidade dos serviços de saúde
A comunicação terapêutica constitui um elemento estruturante da prática de enfermagem, assumindo particular relevância no âmbito da educação para a saúde (EpS), enquanto intervenção fundamental para promover a capacitação do utente e a adesão terapêutica. No contexto da enfermagem dermatológica, esta dimensão adquire uma importância acrescida, uma vez que o controlo das patologias cutâneas, frequentemente de natureza crónica, depende fortemente da capacidade do utente para executar corretamente intervenções de autocuidado, nomeadamente a aplicação de terapêutica tópica, a manutenção da integridade cutânea e a monitorização de sinais e sintomas. Contudo, a crescente diversidade cultural associada aos fluxos migratórios tem vindo a introduzir desafios significativos no processo comunicacional entre profissionais de saúde e utentes, particularmente nas populações migrantes, que frequentemente apresentam vulnerabilidades acrescidas decorrentes de barreiras linguísticas, culturais e de literacia em saúde [1].
A comunicação, entendida como um processo dinâmico e bidirecional, é essencial para a construção da relação terapêutica e para a eficácia das intervenções de enfermagem. No entanto, em contextos multiculturais, este processo é frequentemente comprometido pela ausência de uma língua comum, pela dificuldade na tradução de conceitos clínicos e pela utilização de intermediários informais, como familiares, que podem introduzir distorções relevantes na informação transmitida [2] [3]. As barreiras linguísticas não só limitam a clareza da mensagem, como restringem a possibilidade de exploração das necessidades do utente, comprometendo a personalização dos cuidados e fragilizando a relação terapêutica.
Paralelamente, a literacia em saúde assume-se como um determinante crítico na capacidade dos utentes compreenderem, interpretarem e aplicarem a informação recebida. De acordo com a literatura, as populações migrantes apresentam frequentemente níveis reduzidos de literacia em saúde, influenciados por fatores como o nível de escolaridade, o contexto socioeconómico e o tempo de integração no país de acolhimento, o que condiciona a sua capacidade de navegar no sistema de saúde e de adotar comportamentos promotores de saúde [4]. Esta limitação traduz-se, na prática, em dificuldades na compreensão de regimes terapêuticos complexos, na interpretação de instruções clínicas e na tomada de decisão informada, comprometendo a eficácia das intervenções educativas.
Acresce que as diferenças culturais influenciam profundamente a perceção da doença, a atribuição de significado aos sintomas e a aceitação das intervenções terapêuticas. A cultura constitui um determinante central na forma como o indivíduo experiencia e comunica a doença, podendo existir discrepâncias relevantes entre o modelo biomédico e as crenças do utente, o que pode originar resistência à adesão terapêutica, preferência por práticas alternativas e interpretações divergentes da gravidade da condição clínica [5]. No contexto dermatológico, estas questões podem ser particularmente sensíveis, dado o caráter visível das lesões cutâneas e o potencial impacto na identidade, autoimagem e integração social do indivíduo.
As dificuldades de comunicação nas populações migrantes comprometem de forma significativa a eficácia da educação para a saúde, interferindo nas três dimensões essenciais do processo educativo: transmissão, compreensão e aplicação da informação. A transmissão pode ser incompleta ou inadequada, a compreensão pode ser superficial ou incorreta, e a aplicação prática do conhecimento pode revelar-se limitada. Consequentemente, a capacidade do utente para desenvolver comportamentos eficazes de autocuidado fica comprometida, o que, no contexto da enfermagem dermatológica, se traduz frequentemente numa adesão terapêutica inadequada, incluindo erros na aplicação de terapêutica tópica, interrupção precoce do tratamento e incapacidade de reconhecer sinais de agravamento da doença.
Estas falhas no autocuidado têm repercussões clínicas diretas, incluindo agravamento das patologias cutâneas, aumento da frequência de exacerbações e maior risco de complicações, como infeções secundárias ou evolução para formas crónicas mais complexas e resistentes ao tratamento. Para além disso, verificam-se impactos significativos na qualidade de vida, nomeadamente ao nível psicológico e social, com aumento do estigma, ansiedade e isolamento.
Importa, contudo, reconhecer que o impacto das dificuldades de comunicação não se limita à dimensão individual, repercutindo-se igualmente ao nível organizacional e sistémico. A ineficácia das intervenções de educação para a saúde conduz frequentemente a uma utilização inadequada dos serviços de saúde, constituindo um fator relevante de pressão assistencial. A evidência demonstra que as barreiras comunicacionais estão associadas a necessidades de saúde não satisfeitas, atrasos no tratamento e agravamento clínico, implicando maior complexidade e custo dos cuidados [6]. Neste contexto, observa-se um aumento da recorrência aos serviços de saúde, nomeadamente consultas não programadas e episódios de urgência, bem como uma maior reutilização dos cuidados para o mesmo problema clínico, frequentemente associada à não adesão terapêutica ou à compreensão incorreta das orientações fornecidas.
Adicionalmente, as consultas tornam-se mais longas e menos eficientes, exigindo maior esforço comunicacional, repetição de informação e maior consumo de recursos humanos. A ausência de estruturas de suporte, como intérpretes profissionais ou materiais educativos adaptados, constitui uma fragilidade organizacional que agrava esta problemática e contribui para a sobrecarga das equipas e diminuição da eficiência dos serviços [7]. Este padrão traduz-se numa pressão acrescida sobre os serviços de saúde, com impacto na capacidade de resposta, sustentabilidade e qualidade dos cuidados prestados.
Neste contexto, a liderança em enfermagem e a gestão de serviços de saúde assumem um papel determinante na mitigação deste problema. A comunicação não deve ser encarada apenas como uma competência individual do profissional, mas como uma prioridade estratégica organizacional, integrada nos processos de qualidade e segurança dos cuidados. A liderança em enfermagem tem a responsabilidade de reconhecer a comunicação como um eixo crítico de intervenção, promovendo ambientes de prática que valorizem a literacia em saúde, a competência cultural e a adequação das intervenções educativas às características das populações servidas. Isto implica a implementação de políticas institucionais que garantam o acesso a intérpretes, o desenvolvimento de materiais pedagógicos culturalmente adaptados e a formação contínua das equipas em comunicação intercultural.
Do ponto de vista da gestão, importa transitar de uma abordagem reativa para uma abordagem proativa, integrando a comunicação como um indicador de desempenho e qualidade assistencial. A ausência de investimento nesta área traduz-se, a médio e longo prazo, em custos acrescidos, decorrentes do aumento de episódios evitáveis, da ineficiência dos cuidados e da duplicação de intervenções. Pelo contrário, a adoção de estratégias estruturadas de comunicação contribui para melhorar a adesão terapêutica, reduzir a utilização desnecessária dos serviços e otimizar a gestão dos recursos disponíveis.
Assim, a liderança de enfermagem deve assumir um papel estratégico na conceção e implementação de modelos de intervenção adaptados às populações migrantes, promovendo cuidados culturalmente competentes, centrados no utente e orientados para resultados em saúde. Esta abordagem implica também a monitorização contínua de indicadores de adesão, comunicação e utilização dos serviços, permitindo uma gestão baseada em evidência e orientada para a melhoria contínua.
Face a este cenário, a implementação de estratégias de mitigação baseadas na evidência assume-se como uma prioridade. A utilização de linguagem clara e estruturada, a aplicação de técnicas como o teach-back, o recurso a intérpretes profissionais e mediadores culturais [8], a utilização de materiais educativos visuais e o desenvolvimento da competência cultural dos profissionais [9] constituem intervenções fundamentais. A integração de promotores de saúde provenientes das comunidades migrantes pode igualmente reforçar a eficácia das intervenções educativas e promover maior proximidade entre serviços e utentes [10].
Em síntese, as dificuldades de comunicação em populações migrantes representam um desafio complexo e multidimensional na prática de enfermagem, com implicações clínicas e organizacionais significativas. No contexto da enfermagem dermatológica, estas limitações comprometem o autocuidado, agravam a evolução das patologias e contribuem para o aumento da pressão sobre os serviços de saúde. A resposta a este desafio exige uma abordagem integrada, que articule intervenção clínica, competência cultural e liderança estratégica em enfermagem, promovendo ganhos em saúde, eficiência e equidade no acesso aos cuidados.
[1]https://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/35835/1/10254_Artigo_18080_1_10_20211015.pdf
[2]https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12508857/
[3]https://repositorio.iscte-iul.pt/bitstream/10071/27556/1/master_yasminne_ramalho_chermiti.pdf
[4]https://www.frontiersin.org/journals/public-health/articles/10.3389/fpubh.2024.1415588/full
[5]http://www.scielo.org.co/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2011-30802024000200001
[6]https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12508857/
[7]https://repositorio.iscte-iul.pt/bitstream/10071/27556/1/master_yasminne_ramalho_chermiti.pdf
[8]https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12508857/
[9]https://www.mdpi.com/2076-0760/13/10/530
[10]https://repositorio.ipsantarem.pt/bitstreams/8b2569d5-1653-4fe9-9da6-9c1d2217d7d5/download





