
Secretária da Direção da APMGF
Cuidar com Compaixão num Mundo Digital – Dia Mundial do Médico de Família
A inteligência artificial pode detetar padrões, gerar documentos e otimizar fluxos de trabalho. Mas não consegue reconhecer hesitações. Não interpreta o silêncio. Não percebe o medo por trás de palavras de conforto educadas. Muitas vezes, o significado é transmitido indiretamente, através do tom de voz, das pausas e das relações construídas ao longo de anos. Nenhum algoritmo consegue captar isso.
É este o ponto de partida, e de chegada, do tema escolhido pela WONCA para o Dia Mundial do Médico de Família de 2026: Cuidar com Compaixão num Mundo Digital. Uma formulação aparentemente simples, mas que encerra uma pressão real, quotidiana, sentida em cada consulta onde o ecrã do computador compete com o olhar da pessoa.
A transformação digital chegou à medicina com promessas legítimas. A automatização de tarefas administrativas, o acesso rápido a informação clínica, o apoio à decisão baseada em evidência… Tudo isto pode, em teoria, libertar tempo para aquilo que verdadeiramente distingue a medicina geral e familiar: a relação médico-doente. Mas a prática tem mostrado que a tecnologia, quando mal integrada, faz precisamente o contrário: acrescenta burocracia digital, fragmenta a atenção e coloca o médico como mediador entre o doente e o sistema, quando deveria ser, antes de tudo, um parceiro terapêutico.
A compaixão não é uma competência residual, ou algo que sobra depois de cumprir os protocolos. É uma característica essencial da medicina geral e familiar. É ela que permite ao médico reconhecer que uma queixa aparentemente banal esconde uma perda recente, que a resistência ao tratamento tem raízes no medo, que o doente que não cumpre a medicação está a dizer algo que ainda não conseguiu verbalizar. Nenhum sistema de inteligência artificial acede a esse registo — porque esse registo é relacional, contextual e profundamente humano.
Isto não é ser contra a tecnologia! O problema não é a tecnologia em si, mas a ausência de um quadro ético e humanista que oriente a sua integração. A WONCA tem vindo a trabalhar nesse sentido, desenvolvendo orientações sobre o uso ético da inteligência artificial em cuidados primários, com foco na equidade, na transparência e no impacto sobre a relação médico-doente. O desafio que se coloca às organizações profissionais é garantir que as ferramentas digitais sirvam a medicina geral e familiar, e por extensão as pessoas — e não o inverso.
Há uma questão que raramente se coloca nos debates sobre digitalização em saúde: quem define o que é uma boa consulta? Se a resposta for dada exclusivamente por números e indicadores (tempo de consulta, número de cliques, campos preenchidos), perdemos algo essencial. Uma boa consulta é frequentemente aquela em que o médico escuta, para, e deixa o silêncio existir. Aquela em que o doente chega ao que realmente importa, mesmo que isso não caiba em nenhum campo de registo clínico.
A medicina geral e familiar tem uma responsabilidade particular neste momento. Não pode apenas adaptar-se à mudança tecnológica, tem de a interpelar. Deve exigir que os sistemas digitais sejam desenhados com os nossos valores: centralidade na pessoa, continuidade, integralidade e equidade, não apenas com base numa lógica de eficiência. A compaixão não é um extra. É a condição que possibilita tudo o resto.
O Dia Mundial do Médico de Família é, este ano, uma oportunidade para reafirmar esta identidade. Num mundo que acelera e fragmenta, cuidar com compaixão é, em si mesmo, um ato de resistência e de humanidade.
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