15 Mai, 2018

Entrevista ao Diretor do Serviço de Oncologia do Santa Maria: “A investigação leva muito tempo a chegar às pessoas”

Em entrevista ao Saúde Online a propósito do 3º Congresso Internacional da ASPIC (Associação Portuguesa de Investigação em Cancro) que terminou hoje - e ainda antes de começar a polémica em torno das dificuldades de resposta do serviço que gere no Hospital de Santa Maria -, Luís Costa mostra-se otimista quando à investigação que se está a fazer na área do cancro mas lamenta que Portugal não tenha uma estrutura que permita colocar em prática as ideias clínicas.

Luís Costa, diretor do Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria e presidente da ASPIC

Quais são os objetivos deste 3º Congresso da Associação Portuguesa de Investigação em Cancro?

LC | É um congresso, que ocorre de dois em dois anos, em que nós pretendemos divulgar o que há de melhor na investigação na área do cancro, em Portugal. Este ano, temos a particularidade de, além de termos uma participação muito intensa da parte dos grupos de investigação em Portugal. Também temos pessoas de universidades estrangeiras que submeteram comunicações científicas para este congresso –  isto é algo que é, posso dizer, inédito para um congresso nacional -, ou seja, atrair investigação de outros países para ser apresentada em Portugal. Neste congresso, também há um fator que é, de alguma forma, diferente de muitos outros congressos na área do cancro: é que, sendo um evento dedicado à investigação, pretende refletir aquilo que há desde a parte mais básica até à parte mais crítica. Portanto, vamos procurar divulgar o que há, de momento, de melhor nos resultados de alguns dos grandes temas na área. E também temos a oportunidade de apresentar o que se está a fazer em Portugal – as universidades do Minho, de Lisboa, do Porto, Faro vão estar representadas através dos seus investigadores, que submeteram trabalhos para serem discutidos pelos participantes. Dos 130 trabalhos que foram submetidos, 8 foram selecionados para apresentação oral.

Que temas abordam esses trabalhos?

LC | Temos trabalhos que vão desde a área da resistência, ao tratamento do cancro do cólon. Temos também, dentro dos posters que foram selecionados, “highlights” para poster de grande qualidade (escolhemos só 20% para poderem ser premiados como “highlights”), que desenvolvem trabalhos muito interessantes e que são coisas que dignificam o país – muitas dessas coisas, que provavelmente não foram publicadas – poderão vir a ser publicadas num futuro breve porque se trata de trabalho com qualidade.

Este congresso tem, pelo menos, duas rodas principais: uma é o programa de speakers convidados, em que nós escolhemos temas muito importante na área do cancro que ainda não estão resolvidos; e escolhemos sempre, em paralelo, um speaker com maior currículo na área clínica e um speaker com maior currículo na área da investigação básica. Portanto, vamos falar das questões que já estão resolvidas e daquelas que estão por resolver e que aplicabilidade clinica é que temos dos conhecimentos atuais.

Às vezes fica a sensação de que – e pegando na questão da “aplicabilidade prática” de falou há pouco – se faz muita investigação neste área, até com resultados positivos, mas que essa inovação demora a chegar às pessoas.

LC | É verdade. Por natureza, a investigação leva sempre muito tempo a chegar às pessoas. Esse é um dos aspetos que vai ser discutido neste congresso, num dos simpósios-satélite. Como é que se organizam ensaios clínicos, porque que é que a profissionalização dos ensaios clínicos é tão importante para que Portugal tenha acesso aos ensaios clínicos e para que eles deem respostas mais rápidas sobre aquilo que é preciso para tratar os doentes. Ou seja, para saber se as boas ideias que saíram da parte básica, quando começam a ser testadas nos doentes, possam resultar em respostas e para que possamos dizer “sim senhor, isto é um tratamento novo” ou “ este é um novo teste diagnóstico ou um biomarcador novo” – isto para que possamos entender o prognóstico da doença.

Mas temos outros temas interessantes. Um deles é a Rede Europeia de Referenciação para o cancro hereditário, que corresponde a cerca de 10% dos cancros.

Isso tem a ver com a forma como as pessoas devem ser avisadas de que têm uma predisposição para ter cancro?

LC | Não só avisadas que têm essa predisposição, mas acompanhadas se tiverem um cancro que surgiu nesse contexto. Um cancro que surge em contexto hereditário pode, em alguns aspetos, ser diferentes do tratamento de um cancro numa pessoa que não tem esse fator. É um aspeto prático da discussão.

Na sua opinião, falta uma estrutura, em Portugal, que consiga colocar em prática as ideias que resultam da investigação?

LC | Sobretudo, temos falta de uma plataforma, em Portugal, que permita agilizar boas ideias para aplicação clínica. Não temos, neste momento, plataformas facilitadoras de networking, porque isso também é um investimento económico importante. Do muito dinheiro que nós aplicamos – dos contribuintes e do orçamento de estado para a investigação – falta a existência de uma plataforma que permitisse que as melhores ideias clinicas pudessem ser levadas à prática para verificar se, realmente, representam ou não uma novidade para os doentes. Vamos dar um exemplo: em Braga, alguém tem uma ideia muito interessante para aplicar em doentes com cancro da mama. Mas, para se testar, isso implicaria fazer um estudo, não em 50 ou 100 doentes, mas em 400 ou 500 doentes. Obviamente que nenhum hospital sozinho tem capacidade para incluir 500 doentes num ensaio clinico. Mas com o networking de hospitais envolvidos – dez ou quinze hospitais, com cada um a colocar entre 5 e 15 doentes -, conseguiríamos atingir esse volume.

Seria uma estrutura governamental?

LC | Não tem de ser governamental mas tem de ser apoiada pelo estado. Quando dizemos “apoiada pelo estado”, os fundos que podem apoiar esta plataforma de apoio à investigação clinica não têm de vir todos do estado. Acho muito bem que o estado peça uma contribuição às indústrias farmacêuticas e também às industrias que têm tecnologias a ser aplicadas na saúde – e que o estado paga para que sejam colocadas ao serviço dos utentes. Obviamente que tinha de ser algo que seja independente e auditável, que seja controlado – num certo sentido pelo estado – mas que tenha autonomia de gestão e capacidade de captar fundos de entidades privadas. Se esta plataforma existisse, nós teríamos certamente muitas entidades privadas (indústrias farmacêuticas e não só) interessadas em desenvolver estudos com ideias que tivessem surgido de investigadores portugueses.

O que é que Portugal não consegue oferecer aos investigadores portugueses? Muitas vezes estes saem do país e têm resultados brilhantes no estrangeiro.

LC | Há alguns que saem para fazer investigação básica, para “fazer currículo” ou porque querem estar com os melhores – muitos deles já voltaram. Nós temos, neste momento, investigadores básicos notáveis em várias áreas. No que diz respeito à investigação clínica é que nós estamos muito débeis, estamos numa fase muito pouca madura do desenvolvimento de estudos académicos. E quando digo estudos académicos não estou a falar de teses de doutoramento e mestrado – que também são válidas  e honrosas – mas sim de estudos que impliquem dimensão e impacto internacional para que consigam colocar Portugal na rota daquilo que é a descoberta na medicina. A descoberta na medicina não é só descobrir um recetor ou um possível alvo terapêutico que é publicado numa revista como a Nature, mas também é descobrir como se aplica.

Mas essa ambição em relação ao papel que Portugal pode vir a ter não é colocar a fasquia demasiado alta?

LC | Não, não. A Áustria, com oito milhões de habitantes, faz isto, através de grupos cooperativos. E Portugal tem uma medicina muito qualificada e nós poderiamos perfeitamente, se conseguíssemos ter uma estrutura mais profissionalizada em termos de investigação clinica, sermos mais “players” no âmbito internacional e, com isto, captarmos mais fundos para investimento em Portugal.

Daqui a 30 anos, em 2050, as previsões apontam para que uma em cada duas pessoas venha a ter algum tipo de cancro. Como é que se combate este flagelo?

LC | Há aspetos que são quase incontornáveis. Cada vez há mais cancros porque nós vivemos mais tempo, e ao vivermos mais tempo, pagamos esse preço. O cancro está relacionado, muitas vezes, com erros na replicação das células e, como as células estão em constante renovação ao longo da nossa vida, quanto mais tempo vivermos maior risco de termos cancro.

Mas há aspetos que dizem respeito ao nosso estilo de vida. Um dos fatores mais associados à incidência de cancro é um mau índice de massa corporal e a inatividade física. Nós, em geral, temos uma sociedade em que as pessoas têm tendência para a obesidade e isso cria, só por isso, um risco acrescido para desenvolver cancro – estou a falar dos cancros mais frequentes, como o cancro da mama, da próstata, do cólon, que estão associados a um mau índice de massa corporal. O que há a fazer? Além de ter de haver um programa de educação…

Sim mas a minha pergunta ia para além disso, ou seja, o que se pode fazer mais para além da sensibilização.

LC | Se vamos ter de lidar com uma maior incidência de cancro, aquilo que nos resta é tentar diagnosticá-lo o mais cedo possível. Temos de evoluir, até do ponto de vista tecnológico, para métodos eficientes de detetar o cancro numa fase em que este possa ser mais facilmente controlável e curável. Temos alguns métodos de rastreio que são conhecidos mas precisamos no futuro de desenvolver métodos laboratoriais mais simples que nos permitam dizer quais são as pessoas que estão em maior risco e como poderíamos sinalizar quais as pessoas que deviam fazer exames para detetar cancros muito letais. Há uma investigação em curso nos EUA nesse sentido.

Portanto, para além da educação, temos de desenvolver métodos validados do ponto de vista científicos que nos permitam encontrar cancros muna fase mais precoce. Nós estamos a aumentar a vida das pessoas com cancro em estádio avançado mas raramente as conseguimos curar. Até mesmo agora com as melhores terapêuticas – imunoterapia – nós podemos almejar a cura de entre 10 a 20% destas pessoas.

Em relação ao tratamento, em que ponto estamos no que diz respeito à medicina de precisão, ou seja, à capacidade de dar um tratamento personalizado/individualizado a cada pessoa?

LC | Nalgumas áreas já demos passos concretos. Por exemplo, há alguns cancros do pulmão que não se tratam com quimioterapia desde o início, podem tratar-se com terapêutica biológica dirigida ao recetor que existe no cancro. Hoje em dia há a possibilidade de determinar se, durante o tratamento, esta pessoa está a desenvolver ou não uma resistência ao medicamento – e aí pode mudar de medicamento. Isto é uma forma de fazer medicina mais precisa, no sentido de perceber que houve uma modificação no comportamento daquele tumor e que isso exige a modificação do medicamento. Acho que no futuro vamos fazer isto com mais facilidade para muito mais tumores mas, neste momento, os exemplos de medicina de precisão existem mas não correspondem à maioria do tratamento dos cancros.

O que é que podemos esperar em termos de inovação na área das tecnologias/ tratamentos de combate ao cancro nos próximos anos?

LC | Claramente, a imunoterapia vai continuar a ser uma área de grande valor no tratamento do cancro. Não tenho dúvidas disso porque vamos ter várias formas de imunoterapia e isso vai continuar a dar resultados muito importantes. Um outro desafio é ultrapassar a resistência aos tratamentos que já existem. E uma terceira área muito importante, que é conseguir identificar qual é o verdadeiro prognóstico dos cancros. Porque há cancros para os quais a cirurgia chega perfeitamente e nós precisávamos de estar a fazer mais tratamentos cheios de efeitos secundários; mas há outros, que, à primeira vista pareciam bastante controláveis só que cirurgia, e que depois surpreendem. Esta área vai ser muito importante para termos uma caracterização daquilo que é o risco de recidiva dos cancros e partir daqui sabermos que pessoas vão tratar melhor logo de início.

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