21 Ago, 2019

Endometriose associada a complicações na gravidez

Num universo tão complexo, como é o sistema reprodutor feminino, a endiometrose é uma das principais causas para várias complicações na gravidez.

De acordo com os resultados de um estudo hoje publicado na revista científica Obstetrics and Gynecology, algumas dessas complicações são a maior possibilidade de a mulher ter um aborto espontâneo, uma gravidez ectópica ou pré-eclâmpsia durante a gravidez.

A endometriose é, frequentemente, entendida como uma das causas para a infertilidade feminina, mas, na realidade, cerca de 80% das mulheres com esta condição clínica conseguem engravidar.

Após vários estudos realizados sobre a matéria sem conclusões objetivas, uma investigação levada a cabo pela equipa de cientistas da Universidade do Arizona, em Tucson (EUA) procurou descobrir qual seria a correlação entre a endometriose e as situações clínicas adversas na gravidez.

 

Relação entre endometriose e complicações durante a gravidez

 

 

O tecido semelhante ao endometrial que cresce fora do útero pode comprometer a gravidez de diversas formas. A primeira é ao diminuir a sua resposta à progesterona, o que prejudica os oócitos, reduz a contratilidade uterina, interfere no processo de formação da placenta e induz inflamação. Todas estas consequências aumentam exponencialmente o risco de diabetes gestacional, problemas de hipertensão durante a gestação (como a pré-eclâmpsia) e o podem culminar num parto pré-termo.

 

Os estudos anteriores e as suas falhas

 

Outras investigações que tinham como população objeto de estudo mulheres que eram acompanhadas em clínicas de fertilidade e que tinham sido hospitalizadas devido a graves complicações derivadas do seu diagnóstico clínico podem ter contribuído para a sobre-valorização da endometriose. Também a inclusão de amostras heterogéneas com diferentes tipos de endometriose (existem três tipos e de diferentes graus: superficial, ovariana e profunda) podem ter contribuído para a “adulteração” das conclusões de estudos anteriores. O papel desta mais recente investigação é colmatar essas potenciais falhas e obter resultados mais fiáveis.

 

Como colmatar as falhas? Com uma nova investigação, claro!

 

Para tal, os cientistas utilizaram uma investigação anteriormente feita, Nurses ‘Health Study II’, com o objetivo de descobrir qual a real relação entre a endometriose diagnosticada por laparoscopia e as complicações adjacentes desta durante a gravidez. O estudo, ainda a decorrer, segue, desde 1989, 116.429 enfermeiras norte-americanas, com idades compreendidas entre os 25 e os 42 anos, com o objetivo de compreender uma série de variáveis da vida destas mulheres. Por via de questionários, os cientistas procuravam aprofundar a endometriose e as suas consequências em gestações posteriores com dados como o estilo de vida e informações reprodutivas (relevantes para o estudo) – dados esses recolhidos a cada 2 anos. A partir de 1993, os cientistas questionaram apenas as mulheres que tinham sido diagnosticadas com endometriose através de laparoscopia.

Dezasseis anos depois, em 2009, realizaram um questionário detalhado sobre a gravidez, no qual os participantes relataram ter havido 196.722 gestações. Os cientistas compararam os resultados da gravidez entre as mulheres com endometriose (8875 gravidezes, cerca de 4,5% da população objeto de estudo) e sem endometriose [diagnosticada].

Deste estudo, os investigadores concluíram que ambos os grupos de mulheres (com e sem endometriose) tiveram episódios de aborto espontâneo, gravidez ectópica, natimortos, diabetes gestacional, distúrbios hipertensivos da gravidez (pré-eclâmpsia ou hipertensão gestacional), parto prematuro e nados vivos com baixo peso.

No entanto, a endometriose foi associada a um elevado risco de aborto espontâneo (risco relativo [RR] de 1,40%; intervalo de confiança [IC] de 95%, entre 1,31-1,49); gravidez ectópica (RR: 1,46; IC95%: entre 1,19 e 1,80); diabetes gestacional (RR: 1,35; IC95%: entre 1,11 e 1,63); e distúrbios hipertensivos – pré-eclâmpsia ou hipertensão arterial – (RR: 1,30; IC95%: entre 1,16 e 1,45), não demonstrando relação com os outros acontecimentos.

As covariáveis ​​consideradas foram idade, paridade, uso de contraceptivos orais, historial de infertilidade, idade da mulher, características do seu ciclo menstrual, tabagismo e o índice de massa corporal.

Algumas análises suplementares permitiram descobrir ainda que:

  • o aumento do risco de aborto espontâneo associado à endometriose diagnosticada por laparoscopia observou-se em maior escala nas mulheres com menos de 35 anos grávidas pela primeira vez;
  • a relação entre a endometriose com a gravidez ectópica foi maior nas gravidezes de mulheres sem historial de infertilidade;
  • e a relação com a diabetes gestacional foi maior entre mulheres multíparas, com menos de 35 anos e sem problemas de infertilidade.

Os investigadores concluem pois que “as mulheres com endometriose podem representar uma população única de mulheres com maior risco de ter resultados adversos durante a gravidez e o nascimento”.

Apesar disso, sugerem que seja realizada uma investigação mais aprofundada da relação entre a endometriose e as complicações da gravidez, considerando a idade materna, a paridade e o historial de (in)fertilidade, como foi realizado, aliás, nas análises suplementares que fizeram.

É importante “elucidar sobre os mecanismos de associação e os possíveis caminhos para intervir ou fazer triagem”, que acreditam ser “fundamental para melhorar a saúde das mulheres com endometriose e a dos seus filhos”.

Uma limitação do estudo é que o momento do diagnóstico da endometriose em relação à gravidez não é conhecido para gravidezes anteriores a 1989. A investigação também não considerou placenta prévia, placenta acreta ou insuficiência cervical.

EQ/SO

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