“É urgente a criação duma Rede Nacional de Reabilitação Respiratória”

O frio pode ter um impacto nefasto nos doentes respiratórios crónicos, se estes não tomarem algumas medidas de precaução. O SaúdeOnline esteve à conversa com António Carvalheira Santos, chefe do Serviço de Pneumologia do Hospital Pulido Valente, para falar de prevenção.

“O frio é um irritante brônquico e por isso há aumento da produção de muco pelas glândulas mucosas do aparelho respiratório, quer muco nasal, quer brônquico”, começou por explicar o médico pneumologista, salientando que as doenças respiratórias são responsáveis por cerca de 19% dos óbitos e a principal causa de internamento em Portugal.

Fazem parte dos compostos químicos do muco os mucopolissacáridos, que têm uma estrutura em rede composta por proteínas e glúcidos (açúcares). A finalidade deste muco é a fixação dos irritantes que invadem o aparelho respiratório para serem expulsos. “Acontece que os vírus e as bactérias também ficam retidos no muco e, devido à sua composição e à temperatura do organismo, criam-se as condições para a sua multiplicação e desenvolvimento das doenças infecciosas respiratórias virais e bacterianas”, explica António Carvalheira Santos. “Adicionalmente o frio ainda causa vasoconstrição, que resulta numa diminuição na capacidade de defesa das vias aéreas, devido ao menor aporte de células do sistema imunitário às áreas agredidas”, acrescenta.

O especialista deixou algumas dicas de prevenção que devem ser adotadas todos os dias como evitar o fumo do tabaco, afastar-se de locais com grande afluência de pessoas, efetuar uma limpeza brônquica e das fossas nasais, evitar praticar exercício físico ao ar livre nos dias mais frios, fazer a vacina contra a gripe e pneumonia, não reutilizar lenços de papel, lavar as mãos regularmente e evitar levá-las à boca, ao nariz e aos olhos.  “Todos os cuidados são poucos”, nota o médico, contudo estes não devem ser descurados especialmente nos dias mais frios.

Associada a estas medidas, está a medicação, “que deve ser efetuada conforme o prescrito”, afirma, e a Reabilitação Respiratória, “que é uma componente fundamental no tratamento do doente respiratório crónico”.

Assente em três pilares – controlo clínico, ensino e treino de exercício -, a Reabilitação Respiratória tem como objetivos “proporcionar uma melhoria nas capacidades físicas e psicológicas que foram deterioradas pela doença respiratória através da melhoria da aptidão física e mental, alteração de comportamentos de agravamento, promovendo a reintegração social e capacitando o doente para a gestão integrada da sua doença”.

António Carvalheira Santos recomenda este método a todos os doentes respiratórios crónicos sintomáticos. “Deve iniciar-se o mais precocemente possível para diminuir o impacto que a evolução da doença provoca”.

“Virtualmente inexistente em Portugal”, o especialista conta que apenas 1% dos doentes beneficiam desta terapêutica, considerando urgente a criação de uma Rede Nacional de Reabilitação Respiratória.

De acordo com António Carvalheira Santos, além dos benefícios para a saúde do doente, esta rede proporcionaria a redução do número de consultas não programadas e o recurso ao Serviço de Urgência, a redução do número de dias de hospitalizações, a diminuição dos custos diretos e indiretos com a saúde e a melhor integração quer ao nível familiar como social.

SO/Sara Fernandes

 

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