“É preciso ‘desburocratizar’ o papel dos MGF que passam muito tempo em tarefas sem valor clínico”

Vera Pires da Silva, especialista em Medicina Geral e Familiar (MGF) na USG Génesis do ACeS Loures/Odivelas, é a voz do 20º Encontro Nacional de Internos e Jovens Médicos de Família (ENIJMF), que decorre entre 29 de setembro e 1 de outubro, em Lisboa. Em entrevista, defende o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e algumas mudanças para melhorar as condições de trabalho no setor público.

É a 20.ª edição do Encontro. Quando participou pela primeira vez?

Participei pela primeira vez em 2016. Na altura o ENIJMF era organizado em conjunto com o Congresso Nacional de MGF, que se realizou em Castelo Branco. Nesta 20.ª edição há várias novidades. Agora o ENIJMF é um evento organizado de forma independente do Congresso Nacional de MGF. A primeira vez que isso aconteceu foi no ano passado mas, devido à pandemia, foi online. Este ano será a primeira vez que acontece presencialmente.

Uma grande diferença também reside no facto de estarem envolvidos na organização e no programa científico as setes comissões de internos e sete jovens médicos de família das sete regiões do país. Por isso, tenho tido a oportunidade de acompanhar a evolução deste evento e acho que se tem adaptado cada vez mais ao seu público-alvo, promovendo uma maior proximidade entre colegas.

 

Esta iniciativa é do Departamento de Internos e Jovens Médicos de Família. Como vê atualmente a situação dos internos de MGF, após uma pandemia?

Penso que finalmente as coisas estão a melhorar com a retoma à normalidade. Durante a pandemia, os médicos de família viram a sua atividade clínica mudar drasticamente, tendo esta sido direcionada para dar resposta à covid-19, seja no seguimento telefónico de todos os utentes, como no atendimento nas Áreas Dedicadas aos Doentes Respiratórios, mas também nos centros de vacinação.

Para os médicos que se encontravam no internato, que é uma fase de aprendizagem muito ativa e intensa, verem a sua aprendizagem muitas vezes restringida devido às contingências da pandemia, foi particularmente duro e desanimador, ainda para mais numa especialidade como a nossa que é tão holística e engloba uma clínica tão diversificada. Espero que finalmente essa fase tenha terminado e que os colegas possam exercer e aprender o que é a MGF em toda a sua plenitude.

“… é preciso investir em várias áreas e todas elas passam pela valorização dos médicos de MGF”

 

O que se pode fazer para fixar os MGF no SNS?

Melhorar as condições de trabalho, acima de tudo. E isso passa por questões salariais, mas também infraestruturas/recursos físicos e recursos humanos. A escassez de profissionais não se limita aos médicos, inclui também enfermeiros e secretários clínicos. Os MGF trabalham em equipa e precisam de todos os grupos profissionais para poderem prestar cuidados de qualidade aos seus utentes.

Também é preciso “desburocratizar” o papel dos MGF que passam muito tempo em tarefas sem qualquer valor clínico. Outro aspeto a ter em conta é que, cada vez mais, os jovens MGF gostam de se envolver em projetos diferentes ou complementares (ex. investigação, cuidados paliativos, etc.) e é preciso dar espaço e tempo para que eles os possam concretizar e sentirem-se realizados profissional e pessoalmente. Como pode ver, é preciso investir em várias áreas e todas elas passam pela valorização dos médicos de MGF.

“Eu acredito no SNS e penso que a maioria dos colegas também acredita”

 

Apesar de tudo, ainda acreditam no SNS?

Está a falar com alguém que trabalha exclusivamente no SNS, por isso eu tenho um enorme viés! Eu acredito no SNS e penso que a maioria dos colegas também acredita. Arrisco-me a dizer até que acredito que muitos colegas que optaram por sair do SNS, também acreditam nele, mas simplesmente as condições que encontram acabam por condicionar a sua saída. Há efetivamente coisas que têm de ser melhoradas e espero que tal se verifique brevemente porque o SNS foi um marco na história da saúde em Portugal e seria um enorme retrocesso não investir , ou pior, desistir dele.

 

“Tecnologias e redes sociais” é uma das temáticas do evento. Quais os desafios que os internos e os jovens MGF enfrentam e de que forma se pode recorrer a estes meios para educar para a saúde?

A quantidade de inovações médicas e novos artigos científicos que são publicados diariamente é enorme. Acompanhar este ritmo e manter-se atualizado é um desafio constante. Assim, as tecnologias permitem aos médicos consultarem informação científica de uma forma rápida e tirarem dúvidas que possam surgir, inclusive na consulta.

As redes sociais são uma ferramenta importante na educação para a saúde, porque sabemos que as pessoas passam cada vez mais tempo nelas. Isto é particularmente verdade nas faixas etárias mais jovens, por isso se queremos aumentar a literacia em saúde temos de usar os meios que alcancem a nossa população-alvo e transmitir informação fidedigna, correta e de forma apelativa para que a nossa mensagem passe.

O cuidado, a humanização e o bem-querer com que lidamos com os outros e que temos uns pelos outros é o caracteriza a nossa prática no SNS”

 

Que mensagem gostaria de deixar aos colegas nestes tempos difíceis do SNS?

Gostaria que os colegas se lembrassem do que os fez apaixonar por esta especialidade, porque isso não mudou. Prestar cuidados de excelência e proximidade, de forma holística, aos utentes e às suas famílias, ao longo do tempo, é a nossa essência enquanto especialistas de MGF. Em tempos difíceis voltamos sempre ao que nos motivou a chegar até aqui e, para mim, o cuidado, a humanização e o bem-querer com que lidamos com os outros e que temos uns pelos outros é o caracteriza a nossa prática no SNS. E espero que isso, juntamente com toda a resiliência e dedicação que os colegas têm demonstrado, ajude a atravessar estes períodos mais difíceis, enquanto aguardamos por ventos de mudança que melhorem as nossas condições de trabalho.

SO

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