15 Nov, 2018

É o fim do mais temido dos exames. Alunos respondem ao Harrison pela última vez

Ao fim de 40 anos, o exame de acesso à especialidade vai mudar. Nova prova entra em vigor em 2019 e, ao contrário do Harrison, privilegia o raciocínio clínico. Este ano, centenas de candidatos vão ficar novamente fora das vagas.

É já esta quinta-feira que quase três milhares de licenciados em Medicina vão testar os seus conhecimentos de modo a assegurarem um lugar na formação especializada. No entanto, este ano os 2879 alunos vão fazer o exame Harrison, que já se realiza há mais de 40 anos, pela última vez. No próximo ano, entrará em vigor um novo modelo de prova.

Com o número de candidatos às especialidades a aumentar de ano para ano e o número de vagas praticamente estagnado, aumenta a pressão sobre os candidatos para que tirem uma boa nota. Hoje, às 15 horas, os alunos estarão frente a frente com o Harrison, uma prova baseada exclusivamente naquela que é considerada a “bíblia da Medicina” – o livro “Harrison’s Principles of Internal Medicine” – e que é constituída por 100 perguntas de escolha múltipla divididas por cinco temas: Cardiologia, Pneumologia, Nefrologia, Hematologia e Gastrenterologia. Para além da complexidade das matérias, a vastidão da obra, com quase 1000 páginas, é uma dificuldade acrescida para os candidatos, que têm de memorizar todos os conteúdos do livro.

Para além dos alunos que terminaram a licenciatura este ano em Portugal, podem ainda fazer a prova aqueles que se formaram no estrangeiro e os que querem repetir o Harrison por não terem conseguido vaga na especialidade. Este é, aliás, um cenário que tem repetido nos últimos anos. Em 2017, por exemplo, 676 candidatos ficaram de fora, uma vez que havia 2341 candidatos para apenas 1665 vagas. Os lugares para os diplomados deste ano só serão conhecidos em 2019 mas o cenário de desproporção tende a agravar-se, aumentando o contingente de médicos indiferenciados.

Como não existe nenhuma classificação mínima que garanta a tão desejada vaga na especialidade escolhida, o objetivo dos alunos é conseguir uma nota perto dos 100%. Por exemplo, uma nota a rondar os 80% pode não chegar para um aluno conseguir vaga em Dermatologia ou Oftalmologia, mas pode ser suficiente para a entrada na formação em Medicina Interna ou Medicina Geral e Familiar, especialidades menos procurados pelas novas gerações, que evitam o excesso de trabalho na urgência e a sobrecarga de doentes nos centros de saúde, adianta o Expresso.

 

Mudança em 2019

 

O debate sobre fim do Harrison já se arrasta há alguns anos. Em 2004, o Conselho Nacional do Internato Médico alertava para a necessidade de mudanças no exame e, em 2009, foram as próprias faculdades a propor alterações. Uma das críticas apontadas à prova era o facto de existirem cada vez mais alunos a conseguirem notas acima dos 90%, o que dificulta a ordenação da entrada nas vagas. Outra era a própria configuração do exame, que dava primazia à memorização em vez do raciocínio.

Contudo, só em 2012 o Ministério da Saúde decidiu criar um grupo de trabalho (que juntou representes da tutela, dos alunos, da Ordem dos Médicos e da ACSS) para para avaliar o assunto. Depois de cinco anos de reflexão, eis que os intervenientes assinaram, no abril do ano passado, um protocolo para avançar com a criação de uma nova prova com critérios diferentes.

O Gabinete da Prova Nacional de Acesso, liderado pelo professor catedrático Serafim Magalhães, vai ser o responsável para construção da nova prova, com a ajuda da organização americana National Border Medical Examiners, onde os membros do gabinete foram fazer formação.

Para o dia 23 de novembro está marcado um teste-piloto, que já tem mais de mil alunos inscritos – movidos, talvez, pela curiosidade de saberem como vai ser a prova em 2019. Lisboa, Porto, Coimbra, Braga e Covilhã são as cidades escolhidas para acolher o teste-piloto. Já se sabe, no entanto, que, ao contrário do Harrison (que tinha uma duração de duas horas e meia), a nova prova vai ser dividida em duas partes, de 120 minutos cada, e com um intervalo de uma hora pelo meio.

Outra mudança já conhecida é o número de questões. Agora serão 150 perguntas de escolha múltipla, que vão incidir também sobre as especialidades de cirurgia, ginecologia-obstetrícia, pediatria e psiquiatria, que não estavam contempladas no Harrison. As questões de Medicina Interna vão contar 50% para a nota final e os restantes 50% serão ocupados pela outras especialidades. Ao contrário do Harrison, o novo exame vai privilegiar o raciocínio clínico.

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