3 Mai, 2021

Doentes com sintomas de enfarte do miocárdio demoram mais tempo a pedir ajuda

Tempo entre a chamada de emergência e a assistência no hospital aumentou quase 20 minutos, atingindo as duas horas.

As pessoas com sintomas de enfarte pediram ajuda mais tarde em 2020 e o tempo que levou entre a chamada de emergência e o doente ser assistido no hospital aumentou quase 20 minutos, segundo dados divulgados.

Os dados, que foram apresentados este fim de semana no Congresso da Sociedade Portuguesa de Cardiologia e que analisaram o impacto da pandemia de covid-19 na Via Verde Coronária, indicam que em maio de 2016 o doente demorava 100 minutos a chamar os meios de emergência e entre março e maio do ano passado esse intervalo passou para duas horas (120 minutos).

“Os dados mostram que a perceção que tínhamos de que os doentes estavam a vir mais tarde, e em piores condições, se confirma”, disse o cardiologista Hélder Pereira, que falou à Lusa na véspera de apresentar os dados e no arranque no Mês do Coração, que se assinala sempre em maio.

O especialista, diretor do Serviço de Cardiologia do Hospital Garcia de Orta, em Almada, que faz igualmente parte do movimento Stent For Life, que visa salvar vidas através da melhoria do tratamento às vítimas de enfarte, explicou que os dados foram recolhidos junto dos centros onde se realiza angioplastia primária (para desbloquear artérias).

Depois de em 2011 a Associação Portuguesa de Intervenção Cardiovascular (APIC) e a Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC) terem integrado a iniciativa Stent for Life, todos os anos em maio (até 2016) foram medidos estes e outros indicadores para perceber a evolução da assistência ao doente nestas circunstâncias.

Segundo contou à Lusa, no mês de maio de 2016, o tempo entre o doente pedir ajuda e estar a ser intervencionado (artéria aberta/desentupida por angioplastia primária) era de 134 minutos e, no ano passado (março/maio), passou para 151 minutos.

“Claro que isto tem consequências: quanto mais tarde se trata o doente maior é a mortalidade e morbilidade no enfarte”, sublinhou.

Helder Pereira explicou ainda que os dados da APIC e a Associação de Intervenção Cardiovascular da SPC, com base no registo nacional, apontam para uma redução de 25% de doentes tratados no período da pandemia do ano passado, comparando com o período homólogo.

O especialista disse que a redução de doentes com a pandemia aconteceu em todo mundo, citando dados da iniciativa Stent for Life, que está presente em vários continentes.

Hélder Pereira sublinhou a importância de o doente pedir ajuda o mais cedo possível, lembrando que quando a artéria é desentupida durante a primeira hora (a chamada Golden Hour) “o músculo cardíaco recupera completamente”.

O diretor do Serviço de Cardiologia do Hospital Garcia de Orta disse ainda que continua a receber doentes que chegam tardiamente e “com muito mais complicações”.

“Antes da angioplastia primária era frequente os doentes chegarem com choque cardiogénico, que é uma forma já extrema de evolução do enfarte, e isso agora tem acontecido. Há doentes que chegam ao fim de dois a três dias do enfarte. Claro que, depois, os resultados são incomparavelmente piores do que se o doente chegar mais cedo”, explicou.

Para melhorar os resultados, o cardiologista sublinhou a importância de o doente, em vez de ir pelos seus próprios meios, recorrer aos meios de emergência quando sente dor forte, ou um aperto no peito, que pode irradiar para o pescoço, membros superiores ou para o dorso.

Aliás, dados recolhidos neste trabalho indicam que o doente que vai pelos seus próprios meios demora em média 102 minutos a ser assistido, enquanto se chamar os meios de emergência médica esse tempo reduz para 50 minutos.

“É preciso que o doente não hesite e chame logo os meios de emergência e tenha confiança no sistema. Os circuitos estão separados e um atraso em casos de enfarte faz toda a diferença”, acrescentou o especialista.

LUSA

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