Doenças oportunistas e as suscetibilidades imunológica e social

Olga Matos, professora no Instituto de Higiene e Medicina Tropical falou com o SaúdeOnline sobre as principais consequências das doenças oportunistas em pessoas imunosusceptíveis

No âmbito do 4º Congresso Nacional de Medicina Tropical e 1º Encontro Lusófono de Sida, Tuberculose e Doenças Oportunistas, realizado no Instituto de Higiene e Medicina Tropical, em Lisboa, entre os dias 19 e 21 de abril, Olga Matos, professora no Instituto de Higiene e Medicina Tropical e vice-presidente do evento científico falou com o SaúdeOnline sobre as principais consequências das doenças oportunistas em pessoas imunosusceptíveis.

“Atualmente, nos países desenvolvidos não podemos pensar só nos doentes imunodeficientes seropositivos para VIH, como os únicos com possibilidade de adquirir infeções oportunistas. Existem outras pessoas com diferentes graus de imunodeficiência suscetíveis de adquirir infeções oportunistas”, alerta Olga Matos. De facto, também os idosos – particularmente com co-morbilidades – crianças e grávidas têm maior suscetibilidade aos agentes oportunistas.

Para além da baixa imunidade, o meio envolvente também pode influenciar a proliferação das doenças oportunistas?

O meio envolvente pode influenciar, naturalmente, se estiver contaminado. No caso das crianças, por exemplo, o seu sistema imunitário vai amadurecendo até por volta dos sete anos de idade, a partir daí considera-se que a criança tem o sistema imunitário amadurecido, como o de um adulto. Até lá há maior suscetibilidade a determinadas infeções que podem ser adquiridas do ambiente envolvente contaminado. Destas infeções, algumas são as tais infeções oportunistas que se podem estabelecer em crianças, principalmente, as mais jovens, até por volta dos três anos de idade.

Os recém-nascidos, embora não disponham de um sistema imunitário totalmente desenvolvido – a produção de anticorpos próprios tem início por volta dos quatro meses de idade – receberam anticorpos da mãe, através da placenta durante a gravidez. Estes anticorpos vão ser fundamentais para ajudar a combater alguma infeção que possa surgir até que a criança seja capaz de produzir os seus próprios anticorpos. Outra fonte de anticorpos é o leite materno, que protege a criança de algumas infeções, como a giardíase (doença diarreica provocada pelo parasita Giardia duodenalis).

Um outro grupo vulnerável é o dos idosos, que respondem mais lentamente aos estímulos antigénicos do exterior e, como tal, apresentam maior suscetibilidade a infeções oportunistas.

O caso das grávidas é também interessante, na medida em que a sua produção hormonal é alterada drasticamente e vão surgir alterações físicas importantes ao longo da gravidez devido ao crescimento do feto. Estas alterações afetam o sistema imunológico da mulher, deixando-a mais suscetível às infeções oportunistas.

Os bairros mais carenciados são um terreno fértil para a disseminação de infeções oportunistas?

Sim, normalmente em condições higio-sanitárias deficientes, o terreno torna-se fértil para a disseminação de germes patogénicos, alguns deles oportunistas. As pessoas imunocompetentes conseguem combater esses microrganismos facilmente, quer sejam bactérias, vírus, fungos ou parasitas.

O problema coloca-se, maioritariamente, nas pessoas com algum grau de imunodeficiência que vivem nesses ambientes contaminados, como acontece frequentemente nos países em desenvolvimento, onde as condições higio-sanitárias são deficientes, ou mesmo em grupos populacionais mais desfavorecidos, nas sociedades desenvolvidas.

Quais são as principais características ou condições que levam a esta situação, em bairros menos favorecidos?

A água de consumo público é um veículo de transmissão de certos microrganismos patogénicos, como Cryptosporidium, Giardia e microsporídeos. Estes parasitas patogénicos podem-se comportar como oportunistas provocando quadros de diarreia muito debilitante, os quais até podem evoluir para a morte se não forem diagnosticados e tratados atempadamente, em pessoas suscetíveis.

Por sua vez, as crianças com má nutrição ingerem poucas vitaminas, proteínas, e sais minerais, o que faz com que elas tenham um desenvolvimento físico e mental abaixo do que era expectável para a idade, e um certo grau de imunodeficiência, tornando-as mais suscetíveis às parasitoses intestinais oportunistas e a outras infeções.

Que medidas preventivas devem ser tomadas para estas situações?

Em países desenvolvidos, as principais medidas deveriam estar focadas no controlo das bolsas de pobreza, no que diz respeito à saúde e às condições higio-sanitárias locais, por parte das autoridades de saúde, nomeadamente dos habitantes dos bairros carenciados e principalmente das crianças.

A alimentação nas escolas também pode ser um outro meio de prevenção da má nutrição, pois existem muitas crianças que vivem em famílias carenciadas, algumas dessas famílias vivem até uma pobreza envergonhada. Estas têm má alimentação em casa, por isso seria importante que todas estas crianças pudessem ter uma refeição bem estruturada na escola.

Quais as principais doenças oportunistas que afetam cada grupo?

Nas grávidas é essencialmente a toxoplasmose, que pode ser adquirida através da ingestão de carne mal cozida que está contaminada com quistos de Toxoplasma, através do contacto com fezes de gatos infetados ou, com menor frequência, pela ingestão de água ou de legumes ou fruta lavados com água contaminada com Toxoplasma.

Na maioria dos casos esta infeção passa despercebida, a pessoa pode ter uma sintomatologia fraca, semelhante a uma gripe, ou não apresentar qualquer sintoma.

Uma vez em contacto com Toxoplasma, a pessoa fica infetada para o resto da vida, pois formam-se quistos a nível de alguns músculos, ou cérebro ou retina, os quais não são destruídos pelos fármacos usados para tratar a infeção sintomática ou toxoplasmose. Se essa pessoa for saudável não haverá manifestações da doença, mas caso surja uma imunodeficiência, os quistos de Toxoplasma que se instalaram no organismo, podem rebentar e reativar a infeção que surgirá com um quadro clínico exacerbado.

Nas grávidas existe também a possibilidade de Toxoplasma passar através da placenta e de afetar o embrião ou o feto dependendo do trimestre da gravidez. Se for na fase de embrião haverá um aborto, enquanto na fase do feto há lesões mais intensas se o feto é mais jovem e lesões menos intensas se o feto está mais desenvolvido.

Nos idosos, as infeções oportunistas mais frequentes são por exemplo a tuberculose, a pneumocistose (pneumonia provocada por um fungo chamado Pneumocystis), as infeções gastrointestinais transmitidas através da água ou do contacto com animais próximos do homem. Estas infeções gastrointestinais podem provocar diarreia intensa que vai ser debelada mais lentamente pelo sistema imunitário do doente, ou através de tratamento medicamentoso.

Para a criptosporidiose (doença provocada pelo parasita Cryptosporidium) e para a microsporidiose (doença provocada por microsporídeos parasitas) não existe tratamento 100 % eficaz.

Nas crianças que vivem em zonas carenciadas, as infeções gastrointestinais são muito frequentes e de entre as oportunistas intestinais a criptosporidiose e a microsporidiose são as mais frequentes.

Estas infeções gastrointestinais oportunistas podem ser adquiridas pelo contacto pessoa-a-pessoa, através da água e alimentos contaminados ingeridos crus, como a alface, tomate e as frutas.

Dentro do grupo do VIH, havendo um programa de prevenção, ainda assim há outras infeções, porquê e como?

Normalmente, nos países desenvolvidos a maioria das pessoas infetadas por VIH fazem o tratamento seguido, atempadamente. Este tratamento vai melhorar o sistema imunitário do doente e indiretamente vai ajudar a combater as doenças oportunistas. Infelizmente, há grupos de doentes que são mais difíceis de manter um tratamento controlado e seguido sem interrupções, é o caso dos que usam drogas.

Ao não realizarem os tratamentos, passam a estar mais suscetíveis às infeções oportunistas. Toxoplasma pode ser bastante patogénico neste grupo de doentes seropositivos para VIH que não fazem o tratamento correto.

Neste grupo como muitos deles já tiveram contacto com Toxoplasma. Perante uma imunodeficiência intensa, sem tratamento ou profilaxia adequados, a probabilidade destes quistos rebentarem e haver reativação da infeção latente é maior.

Nestes doentes, a reativação da infeção pode causar lesões sérias a nível do cérebro que se designa encefalite toxoplásmica, caso a doença não seja diagnosticada e tratada atempadamente.

SO/CS

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