Qual o impacto da pandemia causada pelo novo coronavírus no acompanhamento dos doentes com DMT2 no serviço que dirige?

A consulta de diabetes no nosso hospital não parou. Adquiriu duas modalidades – uma de teleconsulta e outra presencial para os chamados doentes mais críticos, porque alguns têm de ser vistos mesmo presencialmente – mas nunca parou e nunca foi suspensa.

No princípio da pandemia, alguns doentes mostraram algum receio em vir ao hospital, mas a consulta nunca parou.

Temos também uma linha telefónica direta para o gabinete de enfermagem da consulta que permite comunicar connosco das oito da manhã às seis da tarde. Não abandonámos os nossos doentes, fossem doentes com diabetes do tipo 1 ou do tipo 2.

Agora já vamos tendo mais consultas presenciais e as coisas têm corrido normalmente.

Como é que os doentes reagiram a estas mudanças no acompanhamento e às alterações na rotina diária? Conseguiram controlar a doença mesmo durante o confinamento?

Lidaram bem. Quando estiveram confinados em casa verificámos que houve algum aumento de peso e alguma falta de exercício físico em alguns doentes.

Do ponto de vista terapêutico foram sempre aconselhados, feitas as correções terapêuticas que achámos necessárias e nos doentes que acompanhamos em casa não tivemos situações de Covid-19 marcadas.

Já no internamento por Covid-19 a situação da diabetes também não foi tão dramática como se apregoou ao princípio. Como na China a maioria da população é diabética a situação foi difícil, mas a questão não se pôs com a mesma gravidade cá, como já tinha sido mostrado em Itália, Espanha e França.

Nos doentes diabéticos que desenvolveram Covid-19 houve mais dificuldade naqueles que estavam descompensados previamente da sua diabetes. Ou seja, não há uma prevalência maior da diabetes na doença Covid-19, o que há é mais gravidade da sintomatologia por Covid-19 em doentes que não estavam equilibrados do ponto de vista diabetológico.

A Sociedade Portuguesa de Diabetologia e a Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo e o Núcleo de Estudos da Diabetes Mellitus da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna fizemos uma parceria e tivemos uma linha telefónica com seis especialistas de apoio à diabetes e verificámos que, se os doentes estivessem controlados, a situação por Covid-19 não iria ser tão grave.

Como durante o período de confinamento os doentes estiveram mais sedentários, notou o aparecimento de mais casos descompensados de diabetes?

Não houve mais casos descompensados. Houve de facto algum aumento de peso, mas não foi uma coisa que considerássemos catastrófica. Tivemos alguma dificuldade com as pessoas idosas, mas essas já estavam em casa, e também com as pessoas que eram ativas e deixaram de estar ativas, não subiam nem desciam escadas, como costumamos aconselhar.

Reconheço que os apoios tecnológicos à distância são marcantes e a monitorização à distância, possível com meios tecnológicos mais modernos, permite que os doentes tenham um contacto digital com o seu médico, situação que não tinham há dois anos e agora aproveitaram-no em pleno.

Com os cuidados de saúde primários a revelarem dificuldades em retomar a atividade clínica, teme que lhe cheguem doentes com diabetes mais descompensados?

Os doentes estão outra vez com algum medo e estão a fugir um pouco ao contacto com os serviços de saúde. Os cuidados de saúde primários até podem estar agora um pouco assoberbados, mas o que notamos é que as pessoas estão outra vez com medo de contactar com os serviços.

Não posso deixar de dizer que algumas medidas devem ser melhor comunicadas por quem nos governa, porque, às vezes, as pessoas não entendem bem. Nós fazemos um esforço ao nível hospitalar e de consultas especializadas de diabetes para esclarecer bem as pessoas e ter as pessoas bem educadas em termos diabetológicos, combatendo algumas deficiências.

Mas, por exemplo, algumas normas da DGS têm ajudado, como nos critérios de cura, mas tem de se explicar às pessoas que estão curadas, senão elas não querem ir para casa.

E notou alguma diminuição na referenciação para o serviço por parte dos cuidados de saúde primários?

Não. Há uma relação boa entre os cuidados primários e os cuidados hospitalares. Alguns centros de saúde estão com algumas dificuldades no relacionamento com os doentes porque estão assoberbados de trabalho que não lhes compete. Afinal, nós médicos estamos cá para dar apoio aos doentes.

Relativamente ao cenário nacional da diabetes, o que podemos esperar nos próximos anos na incidência, prevalência e comorbilidades?

Não sou daqueles que vê a diabetes como uma catástrofe. É uma pandemia de facto, não contagiosa, mas é considerada uma pandemia pela OMS e pela ONU. Se todos nos empenharmos na mudança de atitudes conseguimos travar essa dita pandemia metabólica.

Reconheço que o mundo moderno não facilita o nosso estilo de vida e a Covid-19 não veio ajudar à mudança de comportamentos. Assim é fácil prever que a diabetes vai aumentar em Portugal, na Europa e um pouco por todo o mundo.

Mas também é claro que o aparecimento de novos fármacos e de novas tecnologias veio-nos ajudar muito. Vamos conseguir prevenir algumas complicações com alguns fármacos, ação que não conhecíamos com tanta clareza há alguns anos.

Ainda assim, não nos podemos esquecer que cerca de um terço dos doentes internados nos serviços de Medicina Interna são diabéticos, o que é uma prevalência alta e, por isso, é preciso um trabalho muito grande na comunidade não para transmitir mensagens de catástrofe, mas ser claro e verdadeiro quanto à doença e suas consequências.

Esses novos fármacos trouxeram um cenário mais reconfortante em termos de perfil de segurança cardiovascular e renal?

Óbvio. Os estudos vieram mostrar a segurança e a prevenção cardiovascular destas moléculas.

As novas classes de fármacos vieram melhorar muito o tratamento da diabetes tipo 2 e está na mão dos médicos usar esses fármacos com conta, peso e medida, sempre de forma assertiva.

RV/SO

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