ACES do Porto Oriental tem um projeto inovador em Portugal na área da Hepatite C. De que se trata?

O ACES do Porto Oriental tem um projeto que se alinha com a estratégia da OMS para a microeliminação da Hepatite C. Trata-se de uma alteração completa de paradigma na abordagem da doença, que visa cumprir o objectivo de eliminar a hepatite c, em micro territórios, até 2030.

Este projeto consiste no diagnóstico da Hepatite C, através da realização de um microteste, oferecido pela equipa de saúde familiar, na consulta de saúde de adultos, a todos os utentes  com mais de 18 anos. A realização do teste é precedida de consentimento informado e esclarecido e complementada com informação sobre medidas de protecção e prevenção. Os casos positivos são confirmados laboratorialmente no ACES, uma vez que temos análises clinicas internalizadas  (também através de um protocolo com o Hospital de São João).

Uma vez confirmado o diagnóstico (isto é, com a determinação de RNA), é agendada a consulta de gastroenterologia, no ACES, realizada pelos  gastroenterologistas do São João que se deslocam à unidade de saúde familiar (USF). Nessa consulta, são também realizadas provas de despiste de lesão hepática, se entendido, através de elastografia. Complementado e confirmado o diagnostico, o doente vai iniciar tratamento, na sua USF, sendo a medicação remetida ao ACES e administrada nos cuidados de saúde primários (CSP) sob a orientação da equipa de saúde familiar da USF, do Conselho Clinico e de Saúde do ACES e do Serviço de Gastroenterologia do S. João. As equipas estão permanentemente em comunicação.

É cada vez mais importante que os cuidados se aproximem dos doentes.

É cada vez mais importante que a organização dos cuidados se centrem na pessoa, no seu contexto e nas suas contingências, porque os cuidados de proximidade são muito mais  custo-efetivos.

 O modelo convencional é de articulação entre os CSP e os cuidados hospitalares; o modelo preconizado pelo ACES do Porto Oriental  é um modelo de integração total, em que o paradigma se altera completamente  de “referenciar e aguardar” para “ diagnosticar, acompanhar, reter e tratar”.

 No primeiro modelo, é o doente que se move no sistema (muitas vezes perdendo-se nas sinuosidades do mesmo). No nosso, quem se move são os recursos, os profissionais e os conhecimentos. O doente permanece na sua comunidade, podendo ser melhor acompanhado, com menos custos e com maior eficácia. Conseguimos, assim, melhor adesão dos doentes aos planos terapêuticos.

Nesta parceria, a garantia das boas práticas está assegurada pela especialidade de gastroenterologia e a personalização e a equidade no acesso é garantida pelas equipas de saúde familiar. Trata-se do binómio virtuoso que acrescenta valor e demonstra que a resolutividade dos CSP pode ser muito incrementada.

 Todas as decisões de gestão tomadas no âmbito do projecto foram tomadas com o envolvimento dos profissionais e de acordo com a autonomia organizativa das USF.

Lançamos o desafio às Unidades para, voluntariamente aderirem quando se sentissem preparadas e motivadas. Montamos um dispositivo de formação e discussão interpares, ao longo de todo o percurso. Iniciámos em janeiro, com duas equipas e dois meses depois todas as Unidades do ACES tinham aderido. Os profissionais estão de parabéns!

Quantas pessoas já foram diagnosticadas através deste programa?

Já rastreámos 5 mil pessoas. Os utentes mostram uma recetividade extraordinária ao teste. Temos 56 testes positivos dos quais 50 confirmados. Presentemente 4 doentes em tratamento, e 6 já terminaram, tendo feito todo o percurso terapêutico na respectiva USF.

Tiveram já desistências?

Ainda não. Tivemos  dois casos em que o doente devia ter feito o confirmativo do RNA no nosso laboratório e não apareceu; imediatamente o próprio técnico do laboratorio informou a enfermeira de família, que contactou o doente. Realmente, a pessoa tinha-se esquecido e, passadas 48 horas, estava a fazer o teste. Aqui está a vantagem da proximidade e do trabalho em equipa.Quando é necessário temos também o nosso serviço de ação social, psicologia, intervenção em comportamentos aditivos e toda a carteira de cuidados que as USF oferecem.

Além de ser mais ágil, este é um modelo que também poupa dinheiro ao SNS.

Se fizermos a análise económica deste modelo, em comparação com os outros, é complemente diferente. Vamos perceber quantas consultas hospitalares se evitam, por exemplo, e quanto é que isso representa  em termos de eficiência económica, para alem de ganhos em efectividade, equidade e satisfação. No final da fase de piloto efetuaremos a analise.

O que têm em comum os doze doentes já em tratamento? Têm uma história ligada à toxicodependência, por exemplo?

Não, são pessoas como nós. São os chamados baby-boomers, que nasceram nos anos 60, e que tomaram injeções com seringas e agulhas fervidas, que fizeram transfusões de sangue (na época em que havia muitos acidentes de mota). Não havia o controlo que existe hoje. Portanto, naquela época, mesmo sem terem comportamentos de risco, as pessoas podiam ficar doentes.

A zona oriental da cidade do Porto é um território com desafios a nível social, por causa do consumo de drogas, delinquência…

É um território vulnerável por várias razões e esse foi o nosso principal estímulo para avançar com o projeto. É a zona do Porto que experimenta grandes índices de consumos nocivos (todos eles), maiores índices de desemprego, pobreza.

Tendo em conta esse cenário, haverá, nessa zona, muitos mais doentes por tratar.

Sim, embora nós esperemos que a prevalência seja sobreponível àquela que é estimada a nível nacional. Em cerca de 5 mil diagnósticos, temos 50 casos positivos, o que é ligeiramente acima da média.

Acredita que o caminho para a eliminação da doença em Portugal passa obrigatoriamente por programas como este, de base comunitária?

Sim. Mas não podemos basear-nos no modelo convencional, em que o médico de família identifica e encaminha. Entre este momento e a consulta hospitalar, muita coisa acontece na vida das pessoas e, infelizmente, isso vai arredar os doentes ao acesso ao tratamento. O maior problema em Portugal é que temos o tratamento mas não temos acesso a ele, porque os doentes não têm o percurso agilizado.

TC/SO

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