3 Jan, 2018

Comités clínicos de elaboração de NOCs não respeitam paridade de género

O número médio de mulheres por grupo que elabora normas de orientação clínica é de três comparado a sete homens, o que resulta em uma representação feminina de apenas 37,5%.

A maioria dos comités clínicos responsáveis pela elaboração de guidelines (Normas de Orientação Clínica – NOC) não respeita a paridade de género. Por exemplo, as novas definições de sepses e choque séptico (SEPSIS-3), elaboradas por iniciativa da Society of Critical Care Medicine e da European Society of Intensive Care Medicine, foram publicadas em 2016: Entre os 19 membros da comissão que desenvolveu o projeto, não havia nenhuma mulher, revela um artigo publicado no portal medscape.
O problema não é novo sendo a ausência de representatividade feminina na elaboração de diretrizes médicas alvo de debate a nível mundial.
Para os que defendem a paridade, como Sangeeta Mehta, médica intensivista do Mount Sinai Hospital e professora da University of Toronto (Canadá), a diversidade ajuda a melhorar as recomendações e, por isso, estratégias para assegurar paridade de género dentro da medicina intensiva foram aprovadas e endossadas por 15 sociedades médicas, incluindo grupos norte-americanos, neozelandeses, alemães, latino-americanos e instituições globais como o Global Sepsis Alliance e a World Federation of Societies of Intensive Critical Care Medicine.
Em comunicação proferida no 13º Congresso Mundial de Medicina Intensiva realizado recentemente, no Rio de Janeiro, Sangeeta Mehta discutiu a importância da paridade de género na terapia intensiva, defendendo que a diversidade ajuda a evitar vieses individuais, e protege contra a dominância de agenda de um único grupo. Segundo a intensivista, existem dados na literatura que mostram que em ambientes académicos o conhecimento produzido por grupos de pesquisa diversos pode ter maior qualidade e ser mais impactante, assim como grupos de trabalho heterogéneos em relação ao género produzem ciência de maior qualidade.
Para a médica, o SEPSIS-3 é um exemplo de como a falta de paridade de género pode trazer problemas: “Vários estudos mostram as limitações dessa diretriz, indicando que a sua aplicação pode prejudicar o diagnóstico de sepses”. Um dos pontos mais criticados é o fato de que, para usar o SEPSIS-3, é necessário avaliar disfunção orgânica, o que pode ser um problema onde há limitação de recursos e equipes treinadas. A consequência poderia ser a seleção apenas de uma população mais gravemente doente. Ressalta-se que, além de não ter nenhuma mulher na comissão de elaboração, essa publicação também não teve a participação de representantes de países do chamado 3º Mundo.
Um estudo publicado em 2017 que avaliou diretrizes de prática clínica publicada entre 2012 e 2016 revela que o número médio de mulheres por grupo que elabora essas recomendações é de três comparado a sete homens, o que resulta em uma representação feminina de 37,5%. Quando se considera, dentro desses comitês, apenas médicos, a representatividade das mulheres é ainda menor (25%), sendo que, no campo da medicina intensiva, a taxa de médicas nas comissões é de apenas 13,4%.
As mulheres ainda são minoria entre os palestrantes de congressos médicos e, mesmo quando estão entre as oradoras, há diferenças: mulheres apresentadas por homens em sessões científicas tendem a ser tratadas de maneira menos formal, e mais frequentemente não são referenciadas por seu título profissional.
Há disparidade também em conselhos editoriais de revistas médicas, onde editoras-chefes são apenas 15,9% e, no corpo editorial, mulheres têm participação de apenas 17,5%.
Segundo a especialista, o problema deve ser resolvido com a adoção “de um modelo de representação baseada no mérito, que deve refletir sexo, género, geografia, etnia, economia e disciplina”.
Outra medida sugerida é que métricas de representação das mulheres em painéis para elaboração de documentos definidores, declarações de consenso, e diretrizes, sejam publicadas e fiquem disponíveis. Também deveriam ser documentados métodos e princípios para a composição de painéis que resultam na produção de documentos profissionais e relatórios de revistas.
Sangeeta Mehta sugere ainda a incorporação de políticas de paridade de gênero em estatutos relevantes em todas as áreas de cuidados críticos académicos, contendo alvos explícitos que reflitam, ao menos, a proporção de mulheres na especialidade. Todos os académicos de medicina intensiva, mas principalmente os que exercem cargos de liderança, deveriam ainda receber treinamento sobre diversidade e acerca do viés inconsciente que circunda esta prática de exclusão feminina.

Fonte: Medscape/SO/MMM

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