19 Mai, 2021

A mudança de mentalidade de Ana Alves: “Ninguém escolhe ser obeso”

Foi quando marcou uma consulta de endocrinologia que Ana Alves percebeu finalmente que a obesidade é uma doença que precisa de acompanhamento especializado. Cerca de dez anos, vários especialistas, algumas dietas e uma cirurgia depois, Ana Alves ainda não está feliz com o seu peso, mas está finalmente no caminho certo.

Testemunho na primeira pessoa

Sempre fui gordinha e costumo dizer que venho de uma família de gordos, uma vez que tenho vários familiares, como a minha mãe, que já colocaram bandas gástricas. Apesar de nunca ter tido doenças associadas à obesidade, um dia decidi consultar uma nutricionista particular. A partir desse momento, a minha jornada foi uma verdadeira aventura.

Três meses depois de recorrer pela primeira vez à ajuda de uma nutricionista, consegui emagrecer apenas 5kg. Depois disso, tudo estagnou. O tempo passava, mas os números na balança não diminuíam. Todas as saladas que comia e toda a fome que passei pareciam não ter qualquer efeito. Acabei por desistir, voltando à rotina habitual.

O meu objetivo, no entanto, estava longe de ser alcançado. Por isso, decidi falar sobre o meu peso com a minha médica de família, que me encaminhou para uma nutricionista que trabalha no Hospital São João.

Depois de inúmeras consultas, surgiu a possibilidade de fazer uma cirurgia. O meu índice de massa corporal (IMC), no entanto, não o permitia. As cirurgias são aconselhadas para pessoas com IMC superior a 40 e eu tinha 39,4.

 

 

A cirurgia acabou por ser realizada em 2011, uma vez que tinha uma hérnia na coluna e o peso excessivo só iria piorar a minha situação. Foi um processo demorado, tendo sido acompanhada por um endocrinologista, pela nutricionista e por um cirurgião, mas não foi o final da minha jornada.

Em 2015 já tinha acumulado alguns dos quilos que perdera devido à cirurgia, mas foi em 2017 que comecei a voltar ao peso pré-cirurgia. Depois do nascimento do meu filho engordei 11kg e, apesar de os ter conseguido perder, voltei a ganhá-los lentamente.

A recuperação do controlo

A minha vida sofreu uma reviravolta quando marquei uma consulta de endocrinologia com a Dra. Paula Freitas. Percebi que, por mais dietas e cirurgias que fizesse, nada consegue substituir a ajuda que um médico poderá oferecer, tendo em conta que a obesidade não depende apenas do estilo de vida.

Quando iniciei o processo de perda de peso, para mim, uma pessoa obesa era alguém que comia de forma exagerada. Hoje em dia, compreendo que é muito mais do que isso. Perder peso não significa fazer esta ou aquela dieta, nem está apenas dependente da quantidade de comida que comemos. E a cirurgia, apesar de poder ajudar, também não é a resposta para todos os problemas.

Já percorri um longo caminho e gostava de emagrecer mais um pouco, mas não é nada fácil. O importante é seguir sempre os conselhos do médico de uma forma rigorosa. Se deixar de ter cuidado, facilmente engordo.

O peso do preconceito

“A população ainda não olha para a obesidade como uma doença, criticando e gozando com quem tem este problema. Todo o mundo olha para nós com outros olhos, mas ser obeso não é uma escolha, ninguém gosta de o ser.” As palavras são de Ana Alves e revelam o impacto que a obesidade pode ter na autoestima.

Michael Vallis, psicólogo e especialista na área da obesidade explica que o preconceito pesa porque encaramos a perda de peso de forma muito leve. Achamos que com força de vontade conseguiremos perder todo o peso que quisermos. Mas não é assim e é a própria ciência que o confirma. O apetite é regulado por hormonas e processos cerebrais complexos que fazem o corpo resistir muito à perda de peso. A ciência mostra que a obesidade é uma doença longe de ser controlada pela nossa vontade. E por isso, nos casos como o da Ana, só o médico poderá ter uma intervenção com sucesso duradouro.

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