25 Out, 2021

“A falta de acesso à Reumatologia no SNS tem limitado a estratégia de combate à osteoporose”

"Portugal padece do mal crónico de má gestão e ligação dos cuidados de saúde. A falta de acesso à Reumatologia no Serviço Nacional de Saúde (SNS), fruto de um inexistente planeamento estratégico", defende o reumatologista Luís Cunha Miranda.

Assinalou-se, no passado dia 20 de outubro, o Dia Mundial da Osteoporose e a SaúdeNotícias foi perceber, junto do reumatologista Luís Cunha Miranda, quais as principais dificuldades que esta especialidade enfrenta ainda em Portugal, no que concerne ao tratamento das principais doenças reumáticas sistémicas imunomediadas. Segundo os últimos dados de 2016, através do censo realizado pela Sociedade Portuguesa de Reumatologia (SPR), são 860 mil os portugueses adultos com osteoporose.

 

Como tem sido a evolução da osteoporose em Portugal?

Existem mais de 200 doenças reumáticas sendo que de comum têm o atingimento do sistema músculo-esquelético, muitas das vezes associadas a dor e a limitação funcional. A osteoporose é muito frequente em Portugal e nos diversos países europeus e tem tendência a piorar com o envelhecimento populacional. Com a pandemia e com a perda de hábitos saudáveis, como o exercício ou o cuidado com a alimentação, temos claramente a expetativa que a osteoporose se torne mais prevalente e a sua consequência mais grave – as fraturas agravarem-se cada vez mais. De notar que, embora a osteoporose não seja uma doença mortal, as fraturas, nomeadamente a da anca, são claramente associadas ao aumento da mortalidade nomeadamente nos idosos.

osteoporose

Como considera que está a ser feita a gestão da especialidade de Reumatologia, em Portugal?

Portugal padece do mal crónico de má gestão e ligação dos cuidados de saúde. A falta de acesso à Reumatologia no Serviço Nacional de Saúde (SNS), fruto de um inexistente planeamento estratégico, tem limitado uma boa estratégia de combate à osteoporose e às outras doenças reumáticas. Pelo número, e por nem todas as osteoporoses serem complexas na sua gravidade, estas são maioritariamente tratadas, e bem, pela Medicina Geral e Familiar (MGF).

Contudo, nos casos mais graves, em especial no momento crítico após uma fratura, deve haver uma ligação muito estreita entre a MGF e a Reumatologia. Assim, está em construção uma rede de consultas pós-fratura em diversos hospitais que permita um melhor acompanhamento por parte da Reumatologia destas situações graves com apoio fundamental da Ortopedia (em caso de necessidade cirúrgica), bem como da Medicina Física e de Reabilitação e de outras especialidades. Esse é o caminho estratégico aceite em toda a Europa e que está em caminho em Portugal.

Qual a relação entre a carência de vitamina D e o surgimento de osteoporose?

Sabemos que existe uma estreita relação em níveis ajustados de vitamina D e a osteoporose. A vitamina D tem um papel fundamental no metabolismo do cálcico no organismo e, portanto, é nesse equilíbrio que resulta uma melhor qualidade do osso ao longo da vida.

osteoporose

Que medidas podem ser tomadas de modo a atenuar/atrasar o surgimento da osteoporose?

Para uma boa saúde óssea devemos ter em conta o exercício físico muito regular, evitar o tabaco e o álcool e ter um consumo ajustado de cálcio, especialmente em leite e derivados. No caso da existência de intolerância a laticínios, a pessoa pode obter substitutos que mantenham um bom aporte alimentar, ou em caso de falta em suplemento medicamentoso, de cálcio e vitamina D.

Deve-se considerar a osteoporose uma doença cuja prevenção começa na infância, pois se existirem bons hábitos alimentares e um exercício físico regular ao longo da vida, com início muito precoce, poderemos ter um maior pico de massa óssea e, consequentemente, uma melhor saúde óssea ao longo da vida.

O pico de massa óssea é, tal como o próprio nome indica o ponto em que a construção óssea em quantidade e qualidade é atingida, o que ocorre no adulto jovem. Depois desse pico devemos tudo fazer para o tentar manter sabendo que o envelhecimento e eventos de vida como a menopausa podem diminuir essa mesma massa óssea e muitas das vezes causar a osteoporose.

 

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