Informação dispersa e pouco articulada dificulta monitorização de VIH em Portugal, alertam peritos
O diagnóstico feito indica parte da informação necessária para acompanhar o percurso das pessoas que vivem com VIH existe em diferentes pontos do sistema, mas nem sempre está disponível de forma integrada, ou comparável.

Cerca de 30 especialistas de instituições publicas de saúde, associações e municípios concluíram que Portugal tem capacidade técnica e conhecimento para melhorar a monitorização do VIH, mas a informação continua dispersa e pouco articulada. As conclusões do projeto HIVision – Diagnóstico sobre a monitorização do VIH (Vírus da Imunodeficiência Humana) em Portugal, da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade NOVA de Lisboa (ENSP NOVA), identificam ações e prioridades para ultrapassar os problemas de monitorização do VIH.
Num relatório que será hoje apresentado na Culturgest, em Lisboa, os peritos dizem que é difícil monitorizar o percurso das pessoas ao longo da resposta ao VIH , da prevenção e testagem ao tratamento, e defendem que esta monitorização “é essencial para compreender trajetórias, reduzir desigualdades e reforçar a eficácia da resposta em saúde”. “Portugal já mostrou que consegue responder de forma robusta ao VIH. O que este trabalho demonstra é que também pode monitorizar melhor essa resposta, com mais integração, mais continuidade e mais capacidade de transformar dados em ação”, afirma Teresa Magalhães, coordenadora do projeto.
Citado numa nota divulgada pela ENSP, o também coordenador do projeto Ricardo Mestre lembra que monitorizar melhor não é apenas contar casos: “É compreender o percurso das pessoas, devolver conhecimento útil aos profissionais e apoiar decisões mais inteligentes”.
O diagnóstico feito indica parte da informação necessária para acompanhar o percurso das pessoas que vivem com VIH existe em diferentes pontos do sistema, mas nem sempre está disponível de forma integrada, ou comparável. Esta situação – sublinham – dificulta a monitorização de dimensões críticas, como a ligação aos cuidados após diagnóstico, o tempo até ao tratamento, a retenção em cuidados, as transferências entre unidades, as perdas de seguimento e a reentrada nos cuidados de saúde.
Os especialistas reconhecem a resposta ao VIH foi alvo de progressos significativos nas últimas décadas, impulsionados pela eficácia da terapêutica, pela diversificação das estratégias de prevenção e pela definição de metas internacionais orientadas para eliminar o VIH como ameaça de saúde pública e dizem que estes avanços “alteraram profundamente o modo como a epidemia deve ser acompanhada”.
Os peritos identificam seis prioridades para melhorar a monitorização do VIH em Portugal, entre elas o acompanhamento do trajeto da pessoa ao longo do tempo, integrando prevenção, testagem, cuidados e qualidade de vida. Defendem também que se deve valorizar e integrar dados da comunidade, “tornando visíveis necessidades e populações que permanecem fora dos circuitos formais”. Sugerem igualmente a consolidação da matriz de indicadores para o VIH, para garantir informação consistente, comparável e útil para a decisão e para o reporte nacional e internacional.
Os peritos envolvidos neste projeto da ENSP defendem também que se deve disponibilizar a informação de forma estruturada para apoio à decisão, garantindo que é acessível a profissionais e decisores. “Já não basta acompanhar novos diagnósticos. É necessário acompanhar o percurso das pessoas ao longo do tempo e utilizar a informação para melhorar decisões e reduzir desigualdades”, consideram.
O enquadramento internacional atual é marcado pelas metas 95-95-95 do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre VIH/SIDA (ONUSIDA), que define que, até 2030, 95% das pessoas que vivem com VIH devem conhecer o seu diagnóstico, 95% das pessoas diagnosticadas devem estar em tratamento antirretrovírico e 95% das pessoas em tratamento devem apresentar supressão virológica.
SO/LUSA
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