2 Mar, 2026

“A maioria das infeções por HPV é transitória e benigna, mas a infeção continua a ser relevante”

A maior parte das infeções genitais por HPV é assintomática e é eliminada espontaneamente pelo sistema imunitário em 12–24 meses, mas é preciso estar atento aos casos de persistência do vírus, segundo Fátima Faustino, presidente da Sociedade Portuguesa de Ginecologia. A especialista alerta para a importância do rastreio e para a integração da autocolheita para se chegar a mulheres que nunca ou raramente são rastreadas.

“A maioria das infeções por HPV é transitória e benigna, mas a infeção continua a ser relevante”

Atualmente, qual a prevalência da infeção por HPV?

A infeção por HPV é extremamente frequente: estima‑se que mais de 80% das pessoas sexualmente ativas (homens e mulheres) terão contacto com HPV ao longo da vida. Em mulheres com citologia cervical normal, a prevalência global de infeção genital por HPV ronda 11–12%. A prevalência é mais elevada em regiões como Caraíbas e África (até cerca de 24–35% em alguns estudos) e mais baixa na Europa Ocidental (2-12%).

Em Portugal, o estudo CLEOPATRE (mulheres 18–64 anos) encontrou uma prevalência global de infeção cervical por HPV de 19,4%, com maior prevalência entre 18–24 anos.

A maioria das infeções são benignas, mas a infeção por HPV ainda pode ser uma preocupação, sobretudo para quem não é vacinado?

Sim, a maioria das infeções por HPV é transitória e benigna, mas a infeção continua a ser relevante, sobretudo em pessoas não vacinadas, porque uma minoria evolui para lesões pré‑malignas e cancro.

A maior parte das infeções genitais por HPV é assintomática e é eliminada espontaneamente pelo sistema imunitário em 12–24 meses. Só quando o vírus persiste é que aumenta o risco de neoplasia intraepitelial (CIN2/3) e cancro do colo do útero e de outros locais anogenitais. Tipos de alto risco (sobretudo HPV 16 e 18) representam a maior parte das infeções detetadas em rastreio e estão presentes na maioria dos casos de HSIL e carcinoma do colo.

A vacinação antes da exposição reduz de forma muito marcada o risco de lesões de alto grau e de cancro do colo; meta‑análises e grandes estudos de coorte mostram reduções de 80–90% no risco de cancro em mulheres vacinadas antes dos 16–17 anos.

“As principais normas apontam a vacinação HPV como rotina até aos 26 anos, com decisão partilhada até aos 45 anos em pessoas não vacinadas”

Há quem defenda a vacinação dos homens mais velhos. Concorda?

Estimativas recentes indicam que cerca de 31% dos homens no mundo têm infeção genital por qualquer tipo de HPV num dado momento. Aproximadamente 21% dos homens estão infetados com pelo menos um tipo de HPV de alto risco.

As principais normas apontam a vacinação HPV como rotina até aos 26 anos, com decisão partilhada até aos 45 anos em pessoas não vacinadas. Esta janela pode alargar-se, porque muitos adultos mantêm risco de novas exposições sexuais ao longo da vida, mas em termos de saúde pública, o foco deve manter‑se nos adolescentes, nos jovens adultos e em casos selecionados até cerca dos 45 anos.

Face à situação difícil que se vive no SNS, tem havido constrangimentos no acesso ao rastreio?

Sim, há constrangimentos, embora a cobertura global dos rastreios esteja a crescer. O rastreio do colo do útero em Portugal é hoje um programa organizado, baseado em teste HPV primário de 5/5 anos, destinado a pessoas com colo uterino dentro de uma faixa etária definida pela DGS entre os 30 e os 69 anos, podendo ser alargado aos 25 anos em situações de maior risco.

Este rastreio já está implementado em grande parte do território, mas com cobertura populacional ainda inferior à desejável e forte dependência do rastreio oportunístico em alguns contextos.

Em 2024, a cobertura populacional do rastreio do colo do útero atingiu cerca de 61% das mulheres elegíveis, o valor mais alto de sempre, mas a pressão assistencial, falta de recursos humanos e dificuldades organizativas são apontadas como fatores que limitam a capacidade de convocar todas as pessoas elegíveis e garantir continuidade diagnóstica.

Apesar destas limitações, a meta nacional para 2030 é de 90% de cobertura, pelo que ainda existe margem significativa para aumentar o número de mulheres convidadas e acompanhadas regularmente.

“Muitos clínicos foram formados numa lógica de citologia anual e terão de “desaprender” rotinas, aceitando intervalos mais longos e a centralidade do teste HPV”

E junto de populações migrantes?

Entre as populações migrantes, aos constrangimentos gerais somam-se as barreiras linguísticas, culturais, administrativas e de literacia, que condicionam a inscrição em médico de família, a receção de convites e a compreensão da importância do rastreio. Esta população continua sub-rastreada e com maior carga de doença, justificando medidas dirigidas.

No futuro, quais os principais desafios que os profissionais de saúde vão enfrentar em relação a esta infeção?

Alguns dos maiores desafios vão ser mais organizacionais e comportamentais. Os profissionais vão ter de reforçar competências de comunicação para lidar com hesitação vacinal, mitos (fertilidade, sexualidade) e desconfiança geral nas instituições de modo a manter e alargar a vacinação e recuperar grupos perdidos.

Também ajustar o rastreio a populações vacinadas e correção de hábitos antigos. Muitos clínicos foram formados numa lógica de citologia anual e terão de “desaprender” rotinas, aceitando intervalos mais longos e a centralidade do teste HPV, o que nem sempre é intuitivo e fácil.

A integração de autocolheita para teste HPV é promissora para atingir mulheres que nunca ou raramente são rastreadas, mas exige rastreamento de resultados e vias rápidas de referenciação para as positivas. Continuará a haver grupos de maior incidência de HPV associadas a pobreza, migração, minorias étnicas e contextos com menor literacia, onde hesitação vacinal e baixa adesão ao rastreio persistem e o desafio para os profissionais se mantém.

A atualização constante sobre novas vacinas, esquemas de dose única, testes moleculares, marcadores adicionais e estratégias de rastreio em populações muito bem vacinadas será outro desafio permanente.

Maria João Garcia

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