13 Set, 2022

70% dos doentes com enxaqueca recorre ao privado e 40% não tem ajuda médica

A enxaqueca é uma doença neurológica ainda "subdiagnosticada, subtratada e subvalorizada", que afeta cerca de 12% da população mundial, de acordo com a OMS.

A maioria dos portugueses que sofrem de enxaqueca têm de recorrer ao setor privado para pedir ajuda médica, de acordo com um estudo promovido pela MiGRA Portugal, Associação Portuguesa de Doentes com Enxaquecas e Cefaleias.

Os resultados foram apresentados ontem, Dia Europeu de Ação na Enxaqueca, numa sessão onde estiveram presentes representantes de sociedades científicas e de serviços hospitalares, assim como Maria de Belém Roseira, ex-ministra da Saúde.

As dificuldades começam desde logo no diagnóstico, já que cerca de 20% visita quatro ou mais médicos antes de saber exatamente qual a patologia

O estudo começa por fazer uma caracterização das pessoas inquiridas em que cerca de 40% dos inquiridos declaram que vivem com enxaqueca ou cefaleias há mais de 20 anos e 79% registam ter crises de mais de quatro dias por mês (14% mais de 14 dias e 5% diariamente).

Sentem também dificuldade no acesso a consultas especializadas em cefaleias no Serviço Nacional de Saúde (SNS), o que acaba por levar muitas pessoas a procurarem ajuda junto das instituições privadas.

A juntar a estes números, sobressaem dois dados relevantes: 38,5% dos inquiridos não possuem qualquer acompanhamento médico para estas doenças e 70%, com acompanhamento médico especializado, são acompanhados em instituições privadas.

Apesar de ser uma doença com forte impacto no dia a dia, por dificuldades de acesso a cuidados de saúde, cerca de 40% não tem qualquer acompanhamento.

Quanto ao tratamento, o estudo indica que 60% das pessoas não estão satisfeitas e, em termos de medicação, 55% não dispõem de conhecimento sobre o tratamento com toxina botulínica e 70% desconhecem os medicamentos biológicos. Das pessoas inquiridas e que fazem tratamento preventivo, 30% só iniciaram este procedimento mais de cinco anos após o diagnóstico.

Impacto financeiro: Maioria sem acesso a medicamentos preventivos

A MiGRA Portugal também analisou o impacto financeiro da enxaqueca e das cefaleias. O maior problema é precisamente o custo do tratamento quando se tem de recorrer ao privado: 25% referem que o valor da consulta é difícil de suportar e 20% dos inquiridos acompanhados no privado suportam a totalidade dos custos.

De acordo com o estudo, o rendimento médio dos doentes não é compatível com o valor dos novos fármacos preventivos, logo “a maioria dos doentes não tem acesso aos medicamentos de que carece”. A situação agrava-se ainda mais quando também não se tem acesso a médico de família.

O estudo “Acesso aos Cuidados de Saúde na Enxaqueca e Cefaleias” inquiriu 596 pessoas, onde se incluíram apenas pessoas com enxaqueca ou outras cefaleias. De salientar ainda que, desta amostra, 64% são beneficiários de um seguro ou plano de saúde. O objetivo foi caracterizar e conhecer melhor a realidade das pessoas que sofrem com enxaqueca e outras cefaleias, relativamente ao seu acompanhamento e acesso aos cuidados de saúde (consultas e tratamentos).

Enxaqueca é “subvalorizada, subdiagnosticada e subtratada”

A enxaqueca é uma doença neurológica crónica que, atualmente, afeta mais de um milhão e meio de portugueses. Apesar do impacto a nível pessoal, familiar e profissional, continua a ser “uma doença subvalorizada, subdiagnosticada e subtratada”, como alerta Madalena Plácido, presidente da MiGRA.

A Organização Mundial de Saúde classifica-a como a segunda doença mais incapacitante em termos de anos vividos com incapacidade e, se se considerar apenas a população abaixo dos 50 anos de idade, é a primeira causa.

SO/COMUNICADO

 

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