Numa palestra dedicada aos doentes com infeção por VHC, o psiquiatra Rodrigo Sousa Coutinho desmistificou os estigmas associados aos utilizadores de drogas através de uma melhor compreensão dos fatores neurobiológicos que estão na origem dos seus comportamentos.

“As alterações bioquímicas e morfológicas da sensibilização provocada pelas substâncias psicotrópicas (iniciadas no sistema de recompensa e reforçadas pelo sistema de stress), alteram os sistemas de motivação, de memória/aprendizagem e de controlo, levando a que a procura voluntária da substância psicotrópica transite para a sua procura compulsiva”. Segundo explicou o psiquiatra, “ao sequestrarem estes sistemas, as substâncias psicotrópicas sobrepõem-se aos estímulos naturais e tornam-se o objetivo e o sentido da vida da pessoa”.

Dr. Rodrigo Sousa Coutinho

Dr. Rodrigo Sousa Coutinho

Em indivíduos com infeção por VHC, o estado de adição ou de “sequestro neurobiológico”, irá naturalmente repercutir-se na forma como vivem a doença: “como não sentem nada, a infeção nem sequer é vista como uma ameaça”. Além disso, acrescentou o especialista, estas pessoas têm “outras prioridades na sua vida diária, pois estão fundamentalmente programadas para a obtenção e consumo de droga”. O seu interesse no tratamento da infeção é, assim, “muito reduzido ou mesmo nulo”.

A todas estas barreiras acresce ainda o ‘estigma’ ou medo de rejeição dos profissionais e serviços de saúde, a grande dificuldade para cumprir com as várias etapas inerentes ao processo terapêutico do VHC (rastreio, MCDT, consultas, deslocação mensal ao hospital para levantar a medicação…), as várias formalidades burocráticas e os tempos de espera aquando das consultas nos serviços de saúde a que acrescem as incapacidades físicas e económicas.

Neste contexto e com o objetivo de aumentar a adesão ao rastreio e ao tratamento, o especialista recomenda “aumentar o conhecimento dos profissionais de saúde sobre as especificidades desta população para que melhor compreendam as suas atitudes, dificuldades e assim possam reduzir o estigma”, “promover o rastreio nos programas de tratamento e de redução de danos” e “facilitar os procedimentos de encaminhamento para consultas especializadas”. Por outro lado, será necessário “reduzir ao máximo o número de etapas necessárias para iniciar tratamento, pois o número de etapas é inversamente proporcional à taxa de adesão”, “não dificultar as remarcações de consultas após a falta dos doentes” e, por último, “promover a administração de antirretrovirais diretos (AAD) nos programas de tratamento e de redução de danos, numa lógica de aproximação dos serviços especializados ao terreno”.

Unidade móvel de Perpignan já rastreou mais de 5000 indivíduos

Após a abordagem dos fatores neurobiológicos que estão na origem dos comportamentos aditivos, de cariz mais teórico, seguiu-se a apresentação de dois projetos internacionais de eliminação e rastreio do VHC, bem como de ligação aos cuidados de saúde.

O primeiro destes projetos, coordenado pelo hepatologista André-Jean Remy, consiste numa unidade móvel de rastreio de hepatites, criada em 2013 em Perpignan (França) com o objetivo de chegar aos portadores do VHC ainda por diagnosticar. Na sua maioria utilizadores de drogas, doentes psiquiátricos ou migrantes.

A equipa é constituída pelo hepatologista, uma enfermeira coordenadora apoiada por outros dois elementos de Enfermagem para as atividades de rastreio, formação e informação, uma secretária e uma assistente social. Dispõe de dois automóveis e de uma unidade móvel equipada para a realização de testes de rastreio rápidos para o VHI, VHC e VHB e três fibroscan portáteis, um método não invasivo que permite avaliar o grau de fibrose hepática associado à infeção pelo vírus da hepatite C.

 

 

Entre 2013 e 2018 foram rastreados 5.382 indivíduos. Cerca de 21% estavam infetados pelo VHC. Destes, 95% iniciaram o tratamento. Em cinco anos, as taxas de cura são da ordem dos 94%.

O Dr. André-Jean Remy recorda que, com os AAD, o tratamento da infeção pelo VHC se tornou cada vez mais simples, tendo passado de 24-48 semanas em 2011 para 12 semanas em 2016. Por outro lado, “é extremamente eficaz, bem tolerado e fácil de usar”.

O desafio para a equipa centra-se agora na diminuição do número de etapas entre o rastreio e o início da medicação. Para tal, deu início a um projeto no qual os doentes, em vez de participarem em cinco sessões de uma hora cada, irão realizar todos os passos necessários entre o rastreio e o início do tratamento em apenas uma sessão de cinco horas.

 

Cantábria pretende atingir objetivos da OMS com o apoio dos CSP

 

Na estratégia desenhada na Cantábria (a primeira região de Espanha a utilizar os AAD) para eliminar a hepatite C, os cuidados de saúde primários (CSP) têm um papel relevante. De acordo com o Dr. Joaquin Cabezas, hepatologista do Hospital Universitário Marquês de Valdecilla, em Santander, “ao nível da macroeliminação, os atores principais são os cuidados de saúde primários” e, no que diz respeito à microeliminação, a estratégia passa pela deslocação das equipas hospitalares para junto de populações de risco.

À semelhança do Dr. André-Jean Remy, também Joaquin Cabezas defende uma estratégia de rastreio e tratamento “não num único passo mas muito rápida”.

Dr. Joaquín Cabezas

 

A macroeliminação, assente nos médicos de família, baseia-se na proposta de rastreio no decurso das consultas. Este ano será dada prioridade aos utentes com idades compreendidas entre os 50 e os 59 anos; em 2020, à faixa etária compreendida entre os 60 e os 69 e, por último, em 2021, entre os 40 e os 49 anos. No caso de um resultado positivo, o especialista garante que, “no prazo de três semanas”, os doentes iniciam o tratamento em ambiente hospitalar.

Miguel Múrias Mauritti

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