Uma vez que é uma doença pouco conhecida, é importante saber: o que é o mieloma múltiplo?

É uma doença que tem origem nas células que produzem os anticorpos que se chamam de plasmócitos. É um cancro do sangue que tem características semelhantes às de algumas leucemias crónicas ou de alguns linfomas.

Qual é a incidência desta doença? Quantos casos surgem por ano, em Portugal?

De acordo com o que se sabe, a incidência será de 5 a 6/1000, um pouco mais em homens do que em mulheres. Devemos ter cerca de 500 a 600 novos casos / ano.

Quais são os grupos mais afetados?

É uma doença muito mais frequente em idosos. Cerca de metade dos casos aparecem depois dos 65 anos.

Quais os sintomas do mieloma múltiplo?

Pode não dar sintomas nas suas formas iniciais, que nem justificam tratamento, mas as queixas mais frequentes são as de dores ósseas e cansaço. O mieloma está associado a anemia e a lesões nos ossos que ficam mais frágeis e podem partir.

São conhecidas as causas desta doença oncológica?

Infelizmente, ainda não. Não há forma de conceber uma forma eficaz de a prevenir quando a sua causa não é conhecida.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico deve ser suspeitado na investigação de anemias, infeções de repetição não explicáveis, diminuição da função renal ou dores ósseas persistentes. O diagnóstico é laboratorial e confirma-se por exame da medula óssea e técnicas radiológicas como a ressonância magnética ou a tomografia axial computorizada de corpo inteiro. Também se podem identificar lesões ativas por um tipo especial de radiografias, com recurso a um isótopo de Fluor, o PET scan.

Qual é a taxa de sobrevivência?

É muito variável, consoante a idade e o tipo de mieloma. Há doentes com sobrevivências muito longas, mais de 20 anos, mas o valor consensual será de 50% de sobrevivência aos 7 anos após o diagnóstico. Estamos a evoluir muitíssimo, a sobrevivência dos doentes com mieloma mais do que quadruplicou nos últimos 40 anos e estamos, parece que com grande certeza, a caminho de falar em curas reais. Em poucos anos, assim se deseja, é muito possível que estejamos a falar de tratamentos curativos.

Que formas de tratamentos estão disponíveis e qual é a mais utilizada?

Há lesões localizadas que podem ser tratadas com radioterapia, mas o mais frequente é usar quimioterapia. Há muitos tipos de tratamento. De uma forma geral e simples, digamos que os doentes abaixo dos 70 anos podem fazer quimioterapia complementada com uma intensificação que envolve autotransplantação medular e os mais velhos com regimes de duração mais prolongada. Todavia, a tendência atual, com ganhos de sobrevivência, é a de manter o tratamento por vários anos.

Que novas informações têm surgido recentemente sobre a doença? O que se sabe de novo?

Acima de tudo, apesar de ainda não conhecermos as causas desta doença, sabemos muito mais sobre os mecanismos genéticos que estão na base do mieloma e do funcionamento da célula doente. Com esse conhecimento tem sido possível desenhar abordagens e medicamentos mais eficazes.

Têm surgido novas opções terapêuticas (nomeadamente farmacológicas) para tratar o mieloma múltiplo?

Como referi anteriormente, graças ao conhecimento crescente sobre a “maquinaria” da célula doente, têm-se desenvolvido medicamentos que podem inibir os mecanismos de resistência do cancro, por um lado, ou induzir as respostas imunológicas normais, que todos temos, contra as células do mieloma, por outro. Os desenvolvimentos mais interessantes estão na esfera dos medicamentos que afetam a genética do plasmócito doente e em anticorpos que podem destruir as células afetadas, ao mesmo tempo que poupam as células normais.

Tiago Caeiro

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