Um dos setores mais sensíveis ao Brexit, é o da Saúde, com as empresas farmacêuticas a anteciparem potenciais falhas no acesso dos doentes a medicamentos. A solução preconizada pela maioria é a da aprovação, pelas partes, de um período de transição suficientemente lato de modo a permitir ajustar as operações à nova realidade. Entre as empresas “preocupadas” com o desenrolar das negociações está o gigante farmacêutico Glaxo Smithkleine, um dos maiores do mundo, responsável pela produção de produtos essenciais, como vacinas e medicamentos para a asma e vendas anuais superiores a 30 bilhões de libras. Em setembro de 2017, foi reconhecida, pelo “Dow Jones Sustainability World Index” (DJSI) como uma referência em sustentabilidade corporativa, com pontuação de excelência no modelo de governação corporativa na maioria das áreas auditadas. Em entrevista, Silvia Guichardo, que no início do ano assumiu a direção da filial portuguesa da multinacional britânica, fala dos receios e planos para fazer frente ao que aí vem e os projetos de futuro

Miguel Mauritti (MM) | O advento do Brexit vem, de alguma forma, dificultar a manutenção pela GSK do estatuto de empresa mais sustentável, atribuído pelo índice de sustentabilidade Dow Jones?

Silvia Guichardo (SG) | De forma alguma. A GSK irá manter a sua forma de trabalhar, com três prioridades claramente definidas – Inovação, Performance, Confiança – e uma ambição sólida: ser uma das farmacêuticas mais inovadoras, com melhor performance e de maior confiança do mercado, que trabalha diariamente para ajudar as pessoas a fazerem mais, sentirem-se melhor e viverem mais tempo.

MM | E quanto ao Brexit… Não vos preocupa?

SG | No que diz respeito ao Brexit, as nossas principais preocupações estão relacionadas com um eventual impacto que a situação possa ter na vida dos doentes, nomeadamente, no seu acesso aos medicamentos e vacinas. Paralelamente, estamos também focados em medidas de apoio, a médio-longo prazo, que fomentem a inovação e a cooperação na área científica entre o Reino Unido e a União Europeia, que tenham como fim último o benefício global dos doentes.

MM | Que medidas têm previstas para atenuar o impacto?

SG | A GSK tem estado a preparar-se para a saída do Reino Unido da União Europeia, definindo como uma prioridade máxima, nesse plano de preparação, a salvaguarda da continuidade do fornecimento dos nossos medicamentos e vacinas para todos os doentes. Esse plano inclui a configuração de estruturas de testes duplicados, a transferência do licenciamento de produtos e a adaptação de embalagens, no que prevemos possa vir a ter um custo estimado de 80 milhões de euros (£70M).

MM | Quais as implicações do atraso nas negociações de acordo de saída para as operações da GSK?

SG | Continua a ser vital garantir um período de transição. Não obstante estarmos a fazer tudo o que está ao nosso alcance para enfrentar o impacto que o Brexti irá ter, há algumas situações que não dependem de nós, incluindo as decisões relativamente às fronteiras.

Assim, a União Europeia e o Reino Unido, para minimizar eventuais riscos para as comunidades, devem assumir, como prioridade, a garantia da segurança do doente e a salvaguarda do seu acesso a todos os medicamentos e vacinas. É crítico, também, minimizar a possibilidade de interrupção no fornecimento de medicamentos, preparando um Acordo de Reconhecimento Mútuo sobre testes de produtos e inspeções, que possam entrar em vigor assim que o Reino Unido deixar a UE.

MM | Que balanço faz da atividade da GSK em Portugal em 2018?

SG | Não obstante todos os desafios e dificuldades que um mercado tão exigente e maduro como Portugal apresenta, o balanço da nossa atividade, até este momento, tem sido positivo.

A GSK está com uma performance sólida, tendo em conta os desafios e os constrangimentos financeiros que o país e o sistema de saúde enfrentam. Estamos a conseguir disponibilizar a nossa inovação aos doentes, nomeadamente na área respiratória e vacinas, que são o foco da nossa atividade. Por outro lado, sentimos por parte do mercado, nomeadamente dos profissionais de saúde e das autoridades, um sentimento de confiança no nosso modelo de negócio e forma de trabalhar. Sem dúvida que isso se deve, por completo, à excelente equipa que encontrei e com quem tenho o privilégio de trabalhar diariamente. São um grupo de pessoas muito talentosas e orientadas para o doente, que colocam no centro de tudo o que fazem.

MM | A GSK tem uma posição de liderança nas áreas respiratória e de vacinas em Portugal (e no mundo). É uma aposta para continuar?

SG | É uma aposta não só para continuar, mas para reforçar. No que diz respeito à vacinação, gostaria de salientar os resultados do recente estudo promovido pela Comissão Europeia, que revela que Portugal é o país da União Europeia com a maior percentagem de população a confiar nas vacinas, considerando-as seguras, efetivas e importantes para as crianças: 98% dos portugueses defendem que as vacinas são importantes para as crianças, 96,6% entendem que são efetivas e 95% dizem que são seguras. A esse respeito, é de saudar o nível de vacinação dos recém-nascidos, não obstante ainda existir trabalho a fazer junto das faixas etárias mais elevadas.

Relativamente ao nosso portfólio nessa área, a vacina contra a Meningite B (Bexsero) é uma prioridade absoluta. A Meningite B é uma doença devastadora, com sintomas iniciais muito inespecíficos, podendo ter um início muito rápido e que evolui para doença grave em apenas 15-24 horas. Entre 12–20% dos sobreviventes têm sequelas significativas e incapacidades a longo prazo, como paralisia, surdez, deficiência mental, amputações, perda auditiva e convulsões. A mortalidade pode atingir 10-20%, mesmo com tratamento antibiótico adequado, pelo que a melhor estratégia para prevenir este flagelo é a vacinação.

Na área respiratória, os nossos medicamentos mais recentes – Anoro, Relvar e Nucala – são superiores em termos de eficácia a alguns dos já existentes. Para 2019, está previsto o lançamento de um novo medicamento na área respiratória, mais concretamente no tratamento da doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC). Trata-se do Trelegy Ellipta, uma terapêutica tripla disponível num único inalador, que representa um milestone para o tratamento da DPOC. Se pensarmos que esta doença é, em Portugal, a sétima causa de morte prematura, percebemos que ainda existe uma grande necessidade médica por responder a este nível. O desenvolvimento de medicamentos que reduzam as exacerbações, os internamentos e a mortalidade é crucial. Assim sendo, estamos muito entusiasmados com o lançamento do Trelegy Ellipta, que demonstrou uma eficácia sem precedentes na redução das exacerbações em doentes com DPOC. Acreditamos que este fármaco vai beneficiar um grupo de doentes, em Portugal, que necessita de tratamentos mais eficazes.

MM | Que novidades são esperadas para os próximos anos?

SG | A curto-médio prazo, como referi, estamos absolutamente focados na área respiratória, nomeadamente, nos desafios que patologias tão limitantes como a DPOC e a Asma Grave, representam para os profissionais de saúde e os doentes.

Paralelamente, os nossos profissionais de investigação e desenvolvimento continuam a trabalhar em diferentes frentes e uma das áreas em que esperamos ter lançamentos muito em breve é em Oncologia. Está previsto, brevemente, o lançamento de um medicamento para o mieloma múltiplo. É um tratamento estudado na  população de doentes refractários à terapêutica convencional

MM | Comparando com os diferentes cenários geográficos por onde passou, foi difícil adaptar-se à realidade portuguesa?

SG | De forma alguma. Portugal é um país fantástico, com pessoas maravilhosas. Além disso, a oportunidade de trabalhar em diferentes mercados e países, com ambientes socioeconómicos e culturais diversos, permite-nos alargar horizontes, não só em relação à forma como encaramos os mercados, mas também no que diz respeito à nossa visão do mundo.

Isso acaba por influenciar a forma como crescemos e nos desenvolvemos enquanto líderes, permitindo sermos capazes de encarar diferentes pontos de vista e incorporar as melhores práticas dos mercados que já conhecemos e onde já trabalhámos.

MM | Quais foram os principais desafios que teve de enfrentar?

SG | A questão da inovação é extremamente desafiante, sobretudo, devido ao subfinanciamento crónico do sistema de saúde. Em Portugal, o tempo médio que leva até a inovação terapêutica chegar “às mãos” dos doentes é superior relativamente a outros países da Europa, ou seja, não somos capazes de disponibilizar a inovação aos doentes à velocidade que gostaríamos.

De qualquer forma, temos estado a acompanhar, com elevadas expetativas, o esforço que as autoridades estão a fazer no sentido de reverter esta situação e procurar disponibilizar mais cedo a inovação aos doentes portugueses. Teremos que aguardar mais algum tempo para ver os resultados práticos dessa motivação e se vem acompanhada de uma vontade política e económica de investir mais na saúde da população.

MM | O SNS é um “cliente difícil?”

SG | Queria, antes de mais, aproveitar esta oportunidade para, em nome da GSK Portugal, endereçar as minhas felicitações à nova ministra da saúde e respetiva equipa, desejando os maiores sucessos nas novas funções. O sucesso do Ministério da Saúde, será sempre o sucesso do SNS e dos portugueses.

Relativamente à sua questão, o SNS tem sido classificado como um dos melhores a nível mundial em termos de outcomes. Esse facto deve-se, em grande parte, ao excelente trabalho dos profissionais de saúde.

Apesar dos bons resultados do SNS, há que garantir a sustentabilidade do sistema de saúde e procurar dar resposta aos principais desafios. O sub-financiamento crónico, que está diretamente relacionado com o elevado tempo que os doentes demoram a ter acesso à inovação, é uma das áreas que necessita de mais e melhor atenção. O Orçamento de Estado para o próximo ano, aparentemente, demonstra já essa preocupação, mas necessitamos aguardar pela sua discussão na especialidade e posterior aprovação para saber, em concreto, o que podemos esperar ao nível de uma maior dotação e aposta no SNS, com uma visão clara do que representa o investimento na saúde dos portugueses.

Paralelamente, é absolutamente fundamental que todos os atores do sistema – autoridades políticas e regulamentares, players da Indústria Farmacêutica, profissionais de saúde e associações de doentes – se unam para promover o diálogo e a cooperação em torno da sustentabilidade do nosso SNS, para que, desta forma, se consiga dar resposta às necessidades da nossa população, gerando mais e melhor saúde em Portugal.

Miguel Mauritti 

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