“Temos que dar ferramentas às pessoas para que o possam fazer e, no caso da obesidade, a ferramenta não depende só do médico, são precisos os nutricionistas e os psicólogos nos centros de saúde”, disse a presidente da SPEO, que falava à agência Lusa a propósito do 22.º Congresso Português da Obesidade, que decorre entre sexta-feira e domingo, em Lisboa.

Paula Freitas adiantou que há programas da Direção-Geral da Saúde para o combate à pré-obesidade e para o tratamento cirúrgico da obesidade, mas existe “um hiato” que “são aquelas pessoas que têm obesidade numa fase inicial” e que “podem evoluir para formas mais graves ou para a normalidade”.

“É preciso ir ao cerne da questão” e “fazer uma intervenção”, dando ferramentas aos doentes e formação aos médicos de família, que são os que contactam primeiro com os doentes.

O combate à doença requer um tratamento integrado, do qual faz parte a dieta, o plano alimentar, exercício físico e em “casos selecionados” os fármacos.

“Neste momento, temos fármacos que são seguros e eficazes. No entanto, são muito dispendiosos e a maior parte das pessoas, sobretudo as que têm mais obesidade e que são das classes sociais mais desfavorecidas”, não os podem pagar.

Mas, advertiu Paula Freitas, “os doentes têm que ter a noção de que os fármacos só por si não são a solução, eles têm que mudar comportamentos e estilo de vida”.

Para promover a visibilidade da obesidade enquanto doença, a SPEO elaborou com a Sociedade Espanhola para o Estudo da Obesidade um documento denominado “Consenso ibérico”, que tem como lema “Declaramos guerra à obesidade”.

O objetivo é “promover a visibilidade da obesidade enquanto doença e tentar que os doentes tenham acessibilidade quer aos médicos, quer ao tratamento não médico, mas também aos tratamentos farmacológicos”, explicou.

Segundo Paula Freitas, um investimento inicial na doença traduz-se “a longo prazo em benefícios e em poupança”, porque está a poupar-se no tratamento de doenças que “o doente está a reduzir ou não vai desenvolver”.

As pessoas com obesidade têm maior risco de ter diabetes, hipertensão, doenças hepáticas, cardiovasculares, artroses, cancro, doenças pneumológicas, entre outras, sendo que os tratamentos destas doenças têm “custos elevados” que seriam diminuídos se a obesidade fosse tratada no início.

Há ainda os custos indiretos associados ao absentismo laboral, à diminuição da qualidade de vida, ao encurtamento da vida, disse Paula Freitas, anunciando que a SPEO vai realizar um estudo para avaliar o impacto económico da obesidade em Portugal.

Dados da União Europeia estimam que sejam gastos com a obesidade 59 mil milhões de euros e que os custos representam cerca de 8% do orçamento total da saúde na Europa.

Segundo os últimos dados do Inquérito Alimentar Nacional, em 2016, a prevalência da obesidade nos adultos rondava os 22,5%, sendo superior nas mulheres (24,3%) do que nos homens (20,1%), e a pré-obesidade 34,8%, sendo a prevalência 30,7% nas mulheres e 38,9% nos homens.

“Isto quer dizer que temos neste momento 60% da população portuguesa com obesidade ou pré-obesidade”, disse Paula Freitas. Os dados indicam ainda que mais de 58% da população obesa em Portugal está desempregada, reformada ou inativa.

No congresso, a SPEO irá apresentar o primeiro livro de Recomendações para Tratamento Não Cirúrgico da Obesidade no Adulto, que visa a criação de normas consensuais para o diagnóstico da doença, tratamento e multidisciplinaridade da equipa no acompanhamento dos doentes.

As recomendações servem para que os profissionais de saúde tenham acesso a formação especializada em tratamentos eficazes, para que adotem um discurso não estigmatizante e para que todos os indivíduos com sobrepeso tenham acessibilidade plena ao tratamento integral da obesidade.

“Apesar de Portugal ter sido um dos primeiros países a considerar a obesidade uma doença, muitas vezes, o próprio doente não vê a obesidade como uma doença e, infelizmente, às vezes, os próprios profissionais de saúde também não”, disse Paula Freitas.

LUSA

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