“Odette Ferreira foi uma mulher à frente do seu tempo, envolvida desde o primeiro momento na investigação e na luta contra a SIDA”, lê-se no voto de pesar hoje aprovado.

O texto salienta a “coragem, determinação e uma capacidade única para comunicar com o grande público e com os grupos de risco” de Odette Ferreira, considerando que é “merecedor de público reconhecimento o trabalho que desenvolveu junto dos toxicodependentes” e recordando o programa de troca de seringas que lançou.

“Em 2013, recebeu muito justamente o Prémio Nacional de Saúde. Foi uma cidadã a quem a Saúde Pública em Portugal muito ficou a dever. No início deste ano foi condecorada pelo Presidente da República com a Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública”, destaca ainda o voto, que transmite o pesar da Assembleia da República a família e amigos de Odette Ferreira.

A ex-presidente da Comissão Nacional de Luta Contra a Sida Odette Santos-Ferreira, pioneira na investigação da doença em Portugal, morreu no domingo, aos 93 anos.

No princípio da década de 80, Odette Santos-Ferreira caracterizou os primeiros casos de infeção por VIH em doentes originários da Guiné-Bissau com um quadro clínico de imunodeficiência, tendo identificado um grupo de amostras com um comportamento anormal face ao método de diagnóstico usado e que constituiu o ponto de partida para a descoberta do VIH do tipo 2.

Prossegue as investigações durante essa década, nomeadamente no Instituto Pasteur de Paris, autoridade de renome mundial na matéria, que acabaram por conduzir à descoberta do VIH do tipo 2.

Odette Santos-Ferreira foi coordenadora da Comissão Nacional de Luta Contra a SIDA, cargo que exerceu de 1992 a 2000, por nomeação do ministro da Saúde, tendo desenvolvido inúmeros projetos com impacto significativo na prevenção e disseminação da doença.

O projeto da sua autoria de maior impacto nacional e internacional foi a troca de seringa nas farmácias, denominado “Diz não a uma seringa em segunda mão”, que teve como finalidade diminuir o risco de transmissão do VIH e de outras doenças transmissíveis (hepatite B e C) à população toxicodependente por via endovenosa.

Este projeto foi considerado pela Comissão Europeia o melhor projeto apresentado por um país europeu, não só pela inovação, mas por ter sido possível desenvolvê-lo em todo o território nacional.