Saúde Online | Qual é a função e a importância dos distribuidores farmacêuticos?

Dr. Diogo Gouveia | Primeiro, há um conceito que é importante enquadrar: a ADIFA é a associação de distribuidores farmacêuticos full liners, ou seja, são empresas que se relacionam com todos os laboratórios e que armazenam nos seus armazéns todos os medicamentos, dispositivos médicos e outros produtos de saúde, e que, depois, os distribuem às farmácias, numa média de 2,3 entregas por dia em cada uma das farmácias em todo o território nacional.

A importância da ADIFA é assegurar a acessibilidade aos medicamentos por parte dos cidadãos. Em função das necessidades, as farmácias são abastecidas 2/3 vezes por dia e isso permite, quando a farmácia não tem medicamentos, que esse medicamento possa estar disponível no prazo de duas ou três horas.

Este é um setor com uma eficiência muito grande, com um elevado nível tecnológico, de robotização. Nós temos, no acumulado das seis empresas, 27 plataformas, isto é, armazéns distribuídos pelo território nacional. Fazemos cerca de 200 mil quilómetros todos os dias e cerca de 11 mil entregas/dia.

Também acontece que haver uma rutura de stock e não ser possível entregar um medicamento?

DG| Se houver um problema ao nível do laboratório, a nível de produção, essa falha vai-se repercutir no distribuidor e o produto pode não estar disponível na farmácia.

A ADIFA é uma associação relativamente recente. Que balanço faz deste primeiro ano (e quatro meses) de vida?

DG| O balanço é positivo. A ADIFA surgiu da emancipação destas empresas (os distribuidores full liners, que são empresas grandes) de uma outra associação que existia. [Surgiu] exatamente por haver a necessidade de criar uma associação que defendesse melhor o interesse estratégico destas empresas grandes e que trabalham em toda a linha no setor de distribuição.

Quais são os objetivos da ADIFA?

DG| Nós temos objetivos externos, que têm a ver com a nossa representação, com a nossa proximidade junto do Ministério da Saúde e do Infarmed. Um dos objetivos é dinamizar o mercado de ambulatório: temos feito algumas sugestões e estamos a participar num projeto-piloto em que os medicamentos para o HIV são dispensados nas farmácias comunitárias. Não faz sentido que muitos dos medicamentos que são dispensados nas farmácias hospitalares não possam ser dispensadas nas comunitárias, garantindo, assim, um melhor acesso dos cidadãos – sem serem necessárias deslocações aos hospitais centrais, com todo o incómodo e custos que isso tem associado. Portanto, uma das nossas sugestões tem sido a passagem gradual, assegurando a qualidade e a confidencialidade, dos medicamentos do canal hospitalar para o ambulatório.

Este projeto-piloto já tem mais de 200 doentes. O objetivo é, no final, fazer uma avaliação e perceber-se, em relação à comodidade, em relação à adesão à terapêutica, em relação à opinião dos utentes, como é que avaliam os dois canais. A nossa preocupação é assegurar a sustentabilidade do mercado e assegurar, ao nível do Infarmed, uma regulação eficaz.

Por sua vez, estamos a trabalhar com o Infarmed em vários temas com vista a melhorar a eficiência e com vista a automatizar e simplificar alguns projetos administrativos.

Temos também objetivos internos. Olhar para a nossa cadeia de distribuição e para a relação dos distribuidores, quer a montante, quer a jusante com a industria farmacêutica e com as farmácias no sentido de melhorar a eficiência. Estamos a trabalhar na revisão de protocolos de comunicação, no sentido de digitalizar muito daquilo que é a informação trocada, quer com as farmácias, quer com a indústria. Estamos a trabalhar também num projeto de centralização de devoluções – os medicamentos em Portugal, quando expira a sua validade, têm de ser entregues nas farmácias e, por sua vez, à indústria. Estamos a trabalhar numa lógica de melhorar eficiência e a economia da cadeia de valor do medicamento.

Que outros projetos da ADIFA quer destacar?

DG| Temos o projeto da “Via Verde do Medicamento” (um projeto do Infarmed), que, para além da ADIFA, inclui as associações setoriais. Por vezes, pode haver dificuldades no acesso a alguns medicamentos. Esta situação foi identificada há 3/4 anos e criou-se este projeto, que pretende assegurar que todos os doentes com prescrição válida tenham acesso a estes medicamentos em cujo abastecimento normal se verificam falhas. No fundo, a indústria coloca um stock específico (de SOS) e os distribuidores só o distribuem a pedida da farmácia quando esta tem uma receita médica válida.

Temos um desafio, já para fevereiro de 2019, que tem a ver com a diretiva dos medicamentos falsificados. É um projeto europeu que visa aumentar a segurança na utilização dos medicamentos.

Essa é uma realidade que existe em Portugal?

DG| Não existe naquilo que é o canal tradicional porque os distribuidores compram aos produtores e distribuem às farmácias. Mas existem, cada vez mais, venda de medicamentos em sites não fidedignos, que não pertencem a farmácias, onde existe um risco acrescido de falsificação de medicamentos.

Cada vez mais há compras através da internet de medicamentos falsificados. Muitas dessas compras são produtos para prevenção de HIV, para a disfunção erétil, produtos que, por vezes, são difíceis de arranjar sem uma receita médica. Mas a internet é um perigo e cada vez mais temos de sensibilizar os cidadãos para isso. Esta diretiva vai permitir que cada caixa de medicamento tenha um número de série e, na altura de dispensa na farmácia, vai ser validado. Ou seja, não é dispensada nenhuma embalagem sem a farmácia verificar se o medicamento é verdadeiro ou falso.

Preocupa-o a progressiva diminuição do preço dos medicamentos? Até que ponto podem as farmácias continuar a suportar essas descidas?

DG| Nós tivemos um ajustamento muito forte num período muito curto, entre 2011 e 2014. Mantivemos o mesmo volume, em termos de unidades consumidas em Portugal, mas o valor do mercado reduziu praticamente 30%. Isto teve um impacto forte no nosso setor e nas farmácias. Houve muitas farmácias em processos de insolvência e recuperação de dívida. Ainda hoje nós temos um valor muito considerável em acordos de recuperação de dívida e de contencioso. Tem de haver estabilidade para o futuro e um crescimento que nos permita ir absorvendo aquilo que foi um impacto extremamente penoso em termos económicos quer nas farmácias, quer na distribuição.

E qual tem sido a evolução de 2014 até agora?

DG| O mercado tem estado praticamente estagnado, tem sido um crescimento ténue de 1 a 2% ao ano. Nós, neste momento, estamos com um valor de mercado semelhante ao de 2004. Até 2010/2011 o mercado foi sempre crescendo mas, com a queda que tivemos, o mercado regrediu 13 anos.

Têm também diminuído nos últimos anos as dívidas à indústria?

DG| Dívidas à indústria, por parte dos distribuidores, praticamente não existem. Até porque a indústria não é muito flexível a isso. Dívidas das farmácias à distribuição existiam. Tradicionalmente, os distribuidores sempre foram um financiador do mercado, ou seja, pagavam primeiro à indústria e só depois recebiam das farmácias. Quando, de repente, há uma crise económica e as farmácias deixam de ter capacidade de saldar as dívidas, os distribuidores tiveram de encaixar essas dívidas e tentar recuperá-las da melhor forma – ou por acordo ou recorrendo aos tribunais. Ora, esse problema não está resolvido. Nesse período, esse valor ascendeu aos 250 milhões de euros em contencioso e acordos de recuperação e temos alguns acordos a muitos anos. Eu diria que vamos precisar de alguns anos de estabilidade e crescimento para conseguir recuperar.

Relativamente ao preço, é estabelecido pelo estado. O que, para nós, não faz sentido é haver grandes distorções relativamente àquilo que são os preços nos outros países da Europa. Nós vivemos na Europa: para algumas coisas, somos todos iguais mas, para outras, somos diferentes. E, no que diz respeito ao preço dos medicamentos e às margens de comercialização, há distorções grandes. Hoje em dia compramos um iPhone pelo mesmo preço em Portugal, na Suíça ou na Alemanha mas o medicamento não tem o mesmo preço. Esta redução de preços não fez sentido, nós já tínhamos os preços mais baixos da Europa. Com este ajustamento, ainda ficámos pior.

Estas distorções levam a que haja circulação de medicamentos entre países da União Europeia. Por exemplo, Portugal exporta alguns medicamentos para a Alemanha porque, para um distribuidor alemão, é mais barato comprar em Portugal do que diretamente ao laboratório na Alemanha. Portanto, isto faz pouco sentido e acho que, cada vez mais, Portugal tem se aproximar da média europeia.

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