O pediatra Israel Macedo, responsável pelo Banco de Leite Humano do Centro Hospitalar de Lisboa Central – Maternidade Alfredo da Costa (CHLC – MAC), o único banco de leite no país, disse à agência Lusa que a necessidade de um banco de leite no Porto é “clara” e que já “estão na fase de arranjar meios financeiros”.

“No Porto é preciso um banco de leite. Temos [nos hospitais] unidades tipo 3, muitos bebés prematuros, claramente aí é necessário. Há muitos bebés imaturos. (…) Portanto, claramente no norte é preciso”, disse.

O especialista, que falava à agência Lusa a propósito do Dia Mundial de Doação de Leite Humano, que se assinala no sábado, explicou que estão a decorrer reuniões na Direção-Geral da Saúde (DGS) no âmbito da alimentação de crianças onde “entra o problema do número de bancos de leite a nível nacional”.

Israel Macedo deixou também em aberto a hipótese da criação de um banco de leite que sirva a zona norte e centro, onde se inserem os hospitais de Coimbra que “registam um grande número de cirurgias a crianças” que podiam beneficiar também do “leite de dadora” na recuperação.

“Vamos ter de fazer contas também em relação à possibilidade de, do Porto, fornecerem a Coimbra, porque pode dar-se o caso uma vez que geograficamente são mais próximas (…) Um a dois bancos de leite mais no país acho que faz todo o sentido. Se só no Porto ou numa zona intermédia, se no Porto e Coimbra, ainda temos de ver”, disse.

Em relação à expansão do serviço já existente a mais hospitais na área de Lisboa, o especialista explicou que, desde a sua criação, o banco fornece leite materno ao Hospital Dona Estefânia e ao Hospital Fernando Fonseca (Amadora-Sintra) estando a dar-se “passos sólidos” para que o fornecimento seja alargado ao Hospital Santa Maria, ao Hospital Garcia de Orta e ao Hospital São Francisco Xavier.

O pediatra referiu ainda ter recebido recentemente um pedido do Hospital de Cascais, que “tem bebés com menos de 32 semanas”, a população alvo do banco de leite.

Desde a criação do Banco de Leite Humano CHLC – MAC em 2009 “mais de 200 mulheres foram dadoras”, estando atualmente ativas cerca de 15. O banco processa “em média 200 litros de leite” que permite alimentar “uma média de 150 bebés por ano”, adiantou Israel Macedo.

“As dadoras ficam ativas cerca de três a seis meses. Quando começam a trabalhar normalmente é um problema, o problema da amamentação é que a partir dos cinco ou seis meses a nossa legislação não permite que as pessoas consigam nos seus locais de trabalho recolher o leite e, portanto, normalmente perdemos as dadoras quando começam a trabalhar”, afirmou.

O leite materno permite “diminuir as infeções intestinais graves”, fornecer gorduras e proteínas mais adequadas que fazem com que “o cérebro se desenvolva melhor” e tem também um “papel anti-inflamatório”.

“Quando se faz ressonância magnética a estas crianças encontram-se cérebros mais desenvolvidos do que os das crianças que são alimentados com leite artificial”, exemplificou o especialista.

Os riscos do leite disponibilizado na Internet

O pediatra alertou para o risco de leite materno transacionado pela Internet em Portugal. “Através das redes sociais e da internet, há pessoas que disponibilizam o seu leite para outras mães que procuram o leite. Há estudos da academia americana, recomendações da Associação Europeia de Bancos de Leite Humano (…) que demonstram que as pessoas correm um enorme risco ao entrarem por essa via. É o equivalente a responder a uma proposta de sexo não seguro pela internet”, alertou o especialista.

Uma das grandes preocupações é a transmissão de doenças aos bebés através do leite. “As pessoas podem receber leite de uma mãe VIH positiva, de uma mãe toxicodependente que vai vender leite que devia ser para o próprio bebé ou que até nem devia ser dado ao bebé”, afirmou.

LUSA/SO