Todos os dias somos atingidos por uma quantidade quase absurda de informação. Esta chega de todos os lados e tem diversos níveis de complexidade. Uma pequena parte da informação fica retida no nosso cérebro, para que mais tarde possamos abrir o baú das memórias e recordar um qualquer momento passado, mas a maior parte desaparece. Agora, um estudo publicado na revista Nature Communications, revela que também podemos reter informação enquanto dormimos.

Uma equipa de cientistas, da École Normale Supérieure (ENS) e da Universidade Paris Descartes, colocou 28 pessoas a ouvirem várias sequências de sons enquanto dormiam. Durante o sono, a atividade cerebral foi monitorada com a ajuda de um eletroencefalograma (EGG), que regista a atividade elétrica do cérebro. Usando as leituras do EEG, os investigadores analisaram três fases de sono: o sono de rápido do movimento dos olhos (ou sono REM); sono leve não-REM (NREM); e o sono profundo.

A equipa de cientistas liderada por Thomas Andrillon pediu aos participantes, quando estes acordaram, que tentassem reconhecer os sons que tinham ouvido enquanto dormiam. As conclusões a que chegaram mostram que quando os sons foram reproduzidos durante o sono REM ou o sono leve não-REM os participantes foram capazes de identificar esses sons com maior facilidade. Pelo contrário, quando lhes foi pedido que reconhecessem os sons reproduzidos durante a fase de sono profundo, as pessoas submetidas ao estudo tiveram um desempenho significativamente pior.

Também foi pedido aos participantes que tocassem eles próprios algumas das sequências de sons, de modo a perceber com que facilidade apreenderam o que ouviram.

De forma algo surpreendente, os investigadores descobriram que a fase de sono profundo, para além de não ajudar a consolidar as memórias, contribui até para destruir conhecimento anteriormente apreendido.

“A maior surpresa veio da habilidade que o cérebro tem para desaprender. Assim, parece que, durante o sono, podemos formar novas memórias, aprender ou fazer o contrário: suprimir memórias”, diz Thomas Andrillon, do Departamento de Estudos Cognitivos da ENS.

Os resultados são significativos porque ajudam a harmonizar duas teorias anteriormente incompatíveis. Uma teoria referenciada pelos autores no estudo sugere que a função principal do sono na memória é consolidar a informação recém-adquirida. A outra teoria vê o sono como uma maneira de descartar informações inúteis que, de outra forma, sobrecarregariam as capacidades dos nossos cérebros.

O sono REM representa cerca de 25% de qualquer ciclo do sono, tendendo a ocorrer entre 70 e 90 minutos depois de uma pessoa adormecer. Devido às diferentes ondas cerebrais associadas a essas diferentes fases do sono, um EEG pode detetar quando uma pessoa se encontra numa fase específica do sono.