2 Jun, 2025

“Tudo o que se queira fazer na área da saúde cardiovascular vai depender da boa articulação entre Cardiologia e MGF”

Cristina Gavina é a primeira mulher a presidir à Sociedade Portuguesa de Cardiologia. Em entrevista, destaca a importância do trabalho em articulação com os médicos de família e das campanhas de promoção da saúde, desde a primeira infância.

“Tudo o que se queira fazer na área da saúde cardiovascular vai depender da boa articulação entre Cardiologia e MGF”

A IC é uma das principais preocupações no que diz respeito a doenças cardiovasculares?

Sim, é! Evoluímos muito em termos de tratamento do enfarte agudo do miocárdio (EAM) e do acidente vascular cerebral (AVC). Essas eram, no fundo, as principais problemáticas cardiovasculares. Continuam a sê-lo, obviamente, mas quando se melhora o tratamento do EAM, vamos fazer com que as pessoas sobrevivam mais tempo, mas com consequências, que podem, per si, levar a IC.

Por outro lado, temos uma população cada vez mais envelhecida, com mais diabetes, hipertensão e obesidade. Estes são fatores de risco que vão contribuir, por sua vez, para uma forma de IC que não era tão conhecida, que é a IC com ejeção de fração preservada e que tem um peso enorme após os 70 anos. No estudo PORTHOS verificou-se que 30% da população acima dos 70 anos tem IC, o que leva a internamentos sucessivos, perda de qualidade de vida, perda de autonomia, a sobrecarga familiar e do próprio sistema.

Na prática, estamos a ser vítimas do nosso sucesso por conseguirmos tratar a doença. Mas também é, por outro lado, o reflexo do nosso insucesso na prevenção. É crucial que se faça algo para se diagnosticar mais precocemente! Sessenta por cento dos doentes são diagnosticados nos serviços de urgência ou no primeiro internamento e isso não é o ideal. É preciso diagnosticar precocemente para se evitar esses (re) internamentos. Mas a  prevenção é essencial para que daqui a 20-30 anos não se tenha um pico de IC, que se torne um problema de saúde pública, para o qual não teremos capacidade de resposta.

 

Além da IC, que outras patologias são preocupantes para a SPC?

A doença valvular, porque a estenose aórtica é muito prevalente na população mais idosa e neste momento deparamo-nos com muitos desafios desde o acesso aos meios de diagnóstico, referenciação hospitalar e tratamento (intervenção cirúrgica ou percutânea). As dificuldades sentem-se muito no acesso ao tratamento, na medida que não é fácil ter-se capacidade para se responder atempadamente a estas pessoas. Há mesmo quem morra enquanto aguarda a intervenção de substituição valvular…

Outro problema é o das arritmias, nomeadamente a morte súbita. Temos conseguido melhorar na doença coronária, mas ainda há muitos casos de morte súbita, muito por causa da falta de resposta pré-hospitalar. É preciso analisar o que falta fazer para que as pessoas que tenham uma paragem cardiorrespiratória na rua possam ter apoio rapidamente. Para tal, é preciso informar e formar a população, para que consiga prestar os primeiros cuidados de Suporte Básico de Vida, mantendo a perfusão do cérebro até à chegada dos meios de socorro.

As campanhas massivas de formação para Suporte Básico de Vida deviam começar nas escolas. Estas vão ser essenciais para que se consiga alargar a capacidade de agir perante uma paragem cardiorrespiratória. Atualmente, já se faz um bom trabalho no tratamento das doenças que levam a morte súbita, mas falta esta componente de intervenção antes da chegada ao hospital.

“Os médicos de família são, indiscutivelmente, os gatekeepers da saúde cardiovascular, os que podem fazer mais pelas pessoas”

Qual a importância de outras especialidades, como a Medicina Geral e Familiar (MGF)?

O médico de família é absolutamente crucial! Tudo o que se queira fazer na área da saúde cardiovascular vai depender da boa articulação entre Cardiologia e MGF. Os médicos de família são, indiscutivelmente, os gatekeepers da saúde cardiovascular, os que podem fazer mais pelas pessoas. O diagnóstico precoce é dos cuidados de saúde primários! Na SPC sempre tivemos um cuidado particular de nos articularmos com a MGF, de apostarmos em formação específica para a MGF e de aprendermos quais são as dificuldades dos CSP, para melhorar esta cadeia.

Os médicos de família são os primeiros a atuar e aqueles que mais podem fazer para mudar este panorama. Quando se fala de prevenção primordial, referimo-nos às escolas, à população, para evitar os fatores de risco que levam à doença. Nos CSP controlam-se esses mesmos fatores, para se evitar a progressão para doença cardiovascular. Quando a patologia já está estabelecida e as pessoas são referenciadas para a consulta hospitalar, o cardiologista já está a correr contra o prejuízo.

O que queremos é sensibilizar a população e ajudar os CSP a terem acesso, nomeadamente, a ferramentas para diagnóstico precoce. Há neste momento um trabalho coordenado entre associações de doentes, da SPC e Direção-Geral da Saúde na área da IC. Exemplo disso, é a disponibilização do peptídeo natriurético tipo B ( BNP/NT‐proBNP) e do ecocardiograma com doppler nos CSP, algo que não tinha comparticipação e que não estava disponível para todos.

Há muitas coisas que podem ser feitas nos CSP em articulação com os hospitais, como a internalização e validação de MCDT, realizados nos centros de saúde, e a consultoria remota que podem facilitar o acesso a cuidados especializados de Cardiologia. Esperamos que as unidades locais de saúde (ULS) permitam essa articulação.

 

Em suma, o objetivo da SPC é envolver todos aqueles que podem melhorar a saúde cardiovascular?

Na SPC queremos pluralidade, envolvendo todas as sociedades científicas e a comunidade, conseguindo fazer um trabalho determinante para mudar a saúde cardiovascular. Sozinhos não é possível! Queremos contar com todos para chegarmos mais longe.

Maria João Garcia

 

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