15 Dez, 2020

Testes para VIH e hepatites registaram quebra de mais de 50%

Resultados do estudo do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto permitem concluir que os diagnósticos tardios destas doenças irão aumentar num futuro próximo. 

Os testes para deteção de VIH, hepatites virais e infeções sexualmente transmissíveis sofreram um “declínio acentuado” em mais de 34 países europeus, Portugal incluído, entre os meses de março e agosto deste ano.  O estudo do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, conduzido pelo investigador Daniel Simões, permite concluir que os diagnósticos tardios de doenças como o VIH , hepatites virais e infeções sexualmente transmissíveis, irão aumentar num futuro próximo.

A paralisação de muitos serviços devido à pandemia da Covid-19 poderia ser a justificação mais plausível para este fenómeno. Contudo, em declarações ao Público, Daniel Simões alertou para o facto de os comportamentos de risco destas pessoas não terem necessariamente cessado, devido ao medo da pandemia. “As pessoas que usam drogas, terão à partida, continuado a usá-las”, exemplificou o investigador, o que justifica os resultados obtidos neste estudo, que preveem um aumento dos diagnósticos tardios destas doenças.

“Os diagnósticos tardios têm consequências para as pessoas, quer na sua saúde individual, quer do ponto de vista da saúde pública, porque se a pessoa não sabe que vive com a infeção não vai procurar tratamento e pode transmitir a infeção a outros”, realçou Daniel Simões.

 

Comportamentos de risco não foram “medidos”

 

O estudo incluiu 98 pessoas, membros de organizações não governamentais de base comunitária com experiência em testagem para pelo menos uma das infeções em análise, nas quais se incluem a clamídia, a gonorreia e a sífilis, e que preencheram inquéritos online. Dos inquiridos, 95% responderam ter realizado menos testes para todas as doenças nos primeiros três meses da pandemia, em comparação com 2019. Destes, entre março e maio, foram 69% os que indicaram uma redução de mais de 50% no volume de testes realizados.

A razão para estes números não é clara, uma vez que a diminuição dos testes pode-se dever ao encerramentos dos serviços onde os mesmos são realizados ou se a mesma decorreu de uma diminuição dos comportamentos de risco. Daniel Simões ressalva “muitos destes serviços estiveram fechados ou a trabalhar com equipas reduzidas, mas não medimos os comportamentos de risco.” No caso da população toxicodependente, é pouco provável que o consumo tenha estagnado durante o período em questão e, já antes da pandemia, os diagnósticos tardios constituíam uma das grandes preocupações dos especialistas, sublinha o autor principal do estudo.

O investigador alerta ainda para o facto “de que os progressos alcançados nas últimas décadas, no sentido de diminuir o intervalo entre o momento da infeção e o momento da testagem” poderem agora estar em risco.

Um relatório conjunto da Direção-Geral da Saúde e do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge para a infeção VIH/sida, já tinha alertado para o risco de os novos diagnósticos estarem comprometidos por causa dos constrangimentos causados pela pandemia. Os autores do relatório apelavam ao aumento da disponibilização dos auto-testes para o VIH a mais farmácias.

Daniel Simões defende que “para além da venda de balcão nas farmácias, dever-se-ia reforçar o número de locais onde as pessoas podem fazer o teste rápido, bem como os programas de distribuição gratuita destes testes, focados em grupos-chave”.

AR/Público

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