Médico Oftalmologista Director Geral da InfoCiência

Tendências em Saúde ou Medicina Baseada na Evidência?

Inspirou-me este texto a leitura de um artigo de revisão publicado há 2 meses no The New England Journal of Medicine (NEJM)* sobre os efeitos do jejum intermitente na saúde, sendo referidos benefícios relacionados com a menor produção de radicais livres, perda de peso, melhor regulação do metabolismo da glucose, maior resistência ao stress e supressão de fenómenos inflamatórios.

É referido que, durante o jejum, são activadas vias celulares que estimulam as defesas intrínsecas contra o stress metabólico e oxidativo e outras vias que removem ou reparam moléculas danificadas.

Os benefícios deste jejum intermitente serão, então, visíveis em condições como a obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares, cancro e doenças neurodegenerativas, entre outras.

Ou seja, tudo aquilo que tenho ouvido e lido sobre a importância de realizar três refeições diárias principais e outras mais ligeiras nos intervalos, deixa de fazer sentido? Afinal, devemos ficar 16 a 18 horas por dia sem comer ou reduzir o aporte calórico diário para 500-700 calorias duas vezes por semana?…

Estamos a falar de um artigo de revisão publicado no NEJM, o que, por princípio, é uma enorme chancela de credibilidade.

Na verdade, o que aqui li e suscitou esta reflexão é algo que ciclicamente vai ocorrendo: conceitos fortemente enraizados, suportados por evidência clínica robusta, pela prática clínica diária e que acabam por assumir um traço cultural, são ocasionalmente desafiados por teorias que os negam e que apontam em direcções totalmente antagónicas.

Recordo-me do leite, tantas vezes diabolizado, mais recentemente a carne, as polémicas em torno do colesterol, sobre a relação entre o tratamento hormonal e alguns tipos de cancro, entre tantos outros exemplos possíveis.

No caso das dietas, a confusão ainda é maior: dieta mediterrânica, dieta paleolítica, dieta vegetariana, jejum intermitente, etc.

Ou seja, apesar do primado da Medicina Baseada na Evidência, suportada por estudos clínicos com significado estatístico, bem desenhados, ainda assistimos a muitos comportamentos e recomendações sem esse suporte e que ganham força de lei apenas porque sim.

Numa era em que a informação flui tão velozmente, em que os perigos que ameaçam a verdade dessa informação são inúmeros, em que a possibilidade de produzir e publicar dados falsos ou de distorcer os que são verdadeiros se tornou quase banal, estas inconstâncias ou “modas” serão benéficas?

Em matéria de Medicina vivemos, cada vez mais, a era da prevenção, da promoção da saúde, sendo esta tão importante quanto o diagnóstico e tratamento das doenças. Procuramos definir e perseguir um estilo de vida saudável que ofereça uma vida mais longa e com mais qualidade. E procuramos implementar estratégias de comunicação que transmitam esses conceitos básicos às populações.

Como em tudo na vida, os pilares da eficácia das mensagens em saúde são a confiança, a credibilidade e a consistência. Ao se detectarem variações tão dramáticas e tão rápidas nas mensagens emitidas gera-se confusão e, sobretudo, perdem-se referências de idoneidade que transmitam às populações a importância de as adoptar e incorporar no seu quotidiano.

O leite é bom ou mau? Devo ou não comer carne? Quantas refeições devo fazer por dia? O jejum é benéfico?

Se deixamos de ter uma resposta clara e inequívoca para estas interrogações passamos a ter um problema e cada um fará como entender, assumindo que, afinal, nem a comunidade científica se entende. E esse raciocínio poderá ser extrapolado para outras áreas da saúde.

Significa isto que não deveriam ser transmitidas mensagens tão díspares? Significa isto que só se podem produzir afirmações ou publicar artigos quando o seu conteúdo tiver passado o apertado crivo da Medicina Baseada na Evidência? Claro que não, mas as cautelas devem ser redobradas porque o eco de tudo o que se diz e se escreve é incomparavelmente maior hoje do que era há poucos anos atrás. Se eu, sendo médico, fico confuso com mensagens tão contraditórias como ficará o público leigo?…

Como sempre, o bom senso deve imperar e o equilíbrio deve ser procurado. Embora seja útil existirem princípios orientadores, importa que não os tomemos como dogmas e os saibamos adaptar às diferentes fases da nossa vida. Por outro lado, da parte de quem se dedica à divulgação de informação científica é importante contextualizá-la e sublinhar que essa informação não é imutável e que deve ser adaptada caso a caso, em função das características individuais, dos antecedentes pessoais e familiares e do próprio estilo de vida.

Vivemos, de facto, numa época muito especial. A velocidade da inovação, da informação, da própria vida é de tal modo vertiginosa que os factos se atropelam e coexistem conceitos que, em princípio, se deviam anular.

Como sobreviver a estes tempos? Saber ouvir, saber avaliar, interrogar, duvidar se for caso disso, procurar o apoio dos profissionais e manter sempre bem presente que nem as tendências são para ser seguidas nem a Medicina Baseada na Evidência é sempre evidente e sempre verdadeira.

A melhor tendência a seguir será procurar encontrar um modo de vida que nos preencha, nos faça felizes e nos conserve saudáveis sem nos tolher os passos nem tirar o prazer. Cumprir mas também transgredir. Escutar os outros mas, sobretudo, escutar o nosso corpo.

Não deve ser fácil. Mas isso faz parte da experiência…

 

* Dan L. Longo, M.D., Editor

Effects of Intermittent Fasting on Health, Aging, and Disease

Rafael de Cabo e col., N Engl J Med 2019;381:2541-51

 

ler mais

RECENTES

ler mais