Sexualidade, fertilidade e cancro: a importância da preservação da fertilidade no doente oncológico

O projeto de parentalidade na vida de um doente oncológico em idade fértil não precisa de ser cancelado. A implementação de estratégias para preservar o potencial reprodutivo é possível antes de iniciar o tratamento oncológico

Em entrevista ao SaúdeOnline, Teresa Almeida Santos, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução, desmistificou algumas questões sobre a sexualidade e fertilidade no doente oncológico. Salientando que “há oportunidades que não são possíveis de serem retomadas”.

SaúdeOnline (SO) | Quais os principais riscos que um doente oncológico corre, no que diz respeito a fertilidade?

Teresa Almeida Santos (TAS) | Os riscos estão, fundamentalmente relacionados com o tipo de tratamento que é instituído. A quimioterapia, a radioterapia e em alguns casos a cirurgia pode afetar os órgãos reprodutores. Estes riscos são diferentes no homem e na mulher.

No homem, são naturalmente dependentes de cirurgias na zona do aparelho reprodutor e da quimioterapia ou radioterapia que ao incidir sobre os testículos podem dar origem a uma infertilidade subsequente. A função sexual do homem também pode estar em risco, caso haja uma grande lesão do órgão reprodutor que impossibilite a produção de espermatozoides e uma insuficiência da função hormonal.

Na mulher, os riscos estão mais ligados à lesão de um ovário por consequência dos tratamentos da quimioterapia ou da radioterapia pélvica, que é normalmente utilizada em situações de tumores do colon e do reto, o que contribui para um acelerar do desgaste normal do ovário em fecundidade.

Isso leva a que uma probabilidade razoável de mulheres que estão sujeitas a esses tratamentos fiquem impossibilitadas de terem filhos após o mesmo.

SO | Em que consiste a consulta de preservação da fertilidade?

TAS | A consulta consiste em explicar os potenciais efeitos secundários dos tratamentos oncológicos e discutir com os pacientes em idade reprodutiva, a implementação ou não de estratégias de preservação da fertilidade antes de iniciarem o tratamento.

Portanto, os doentes devem ser referenciados, independentemente do seu género, logo que se coloque a indicação de uma terapêutica que possa vir a lesar a fertilidade.

Normalmente, discutimos com eles este risco e uma forma de preservar os gâmetas através da sua congelação para que no final do tratamento possam recorrer aos mesmos.

Mas há que ter em conta que na mulher o processo de preservação dos gâmetas é muito mais complexo, pois implica a estimulação ovárica que é feita através da administração de medicamentos durante cerca de duas semanas e uma colheita de óvulos sob anestesia geral.

Enquanto no homem, o procedimento é simples, não invasivo e rápido, basta fazer uma colheita de espermatozoides, congela-los e isso pode ser feito de um dia para o outro.

SO | No caso do doente oncológico ficar infértil, existe outro tipo de tratamento que o permita concretizar o projeto de parentalidade?

TAS | Se não for feita essa colheita de gâmetas e o doente oncológico ficar efetivamente infértil, a única alternativa será recorrer a gâmetas de um dador, ou eventualmente à adoção. Mas todos estes detalhes e possíveis riscos devem ser discutidos na consulta de preservação de fertilidade.

SO | Quais as técnicas de preservação da fertilidade que são consideradas como prática clínica e as experimentais?

TAS | No homem, a técnica estabelecida é a criopreservação de espermatozoides. Enquanto nos rapazes antes da puberdade, existe a técnica de preservação do tecido testicular que é uma técnica experimental.

Na mulher, como técnicas de prática clínica, temos a criopreservação e congelação do tecido ovárico e por outro lado, como técnica experimental existe a transposição dos ovários, que consiste na remoção de um dos ovários e a sua congelação, para que mais tarde possam ser reimplantados os seus fragmentos no outro ovário que ficou lesado e atrofiado pela quimioterapia, retomando assim a sua função.

SO | As técnicas utilizadas para preservação da fertilidade podem interferir no tratamento dos doentes com cancro?

TAS | Não devem interferir, mas é possível que possam causar algum adiamento no tratamento oncológico. Se os doentes não nos forem enviados atempadamente, podemos ter a necessidade de adiar pelo menos uma semana a terapia, o que não é favorável, mas precisamos sempre de duas semanas, no caso das mulheres, para estimular os ovários.

Mas se o doente nos for encaminhado cedo, não há sobreposição do tratamento oncológico. Isso é uma questão que deve ser explicada aos oncologistas, que têm de enviar atempadamente os doentes.

SO | A nível nacional ou internacional, existem orientações sobre a preservação da fertilidade nos doentes oncológicos?

TAS | Sim, desde 2006 que há guidelines, da Sociedade Americana de Oncologia Clínica. As mesmas voltaram a ser emitidas em 2013, o que demonstra que não estavam a ser devidamente implementadas, mesmo nos Estados Unidos.

Também há algumas guidelines de países europeus, e em Portugal já foram realizadas algumas recomendações a nível nacional.

Posso desde já adiantar que poderão vir a surgir mais novidades, pois será realizada na próxima semana uma reunião em Bruxelas para preparação de guidelines europeias.

SO | Em termo de prevenção, quem são os principais alvos e que medidas preconiza que devem ser adotadas?

TAS | O que preconizo e tenho feito é a divulgação desta possibilidade por todo o lado, pelos oncologistas, pelos médicos de família, os ginecologistas e o público em geral. É importante que todas as pessoas tenham conhecimento, pois assim, perante uma necessidade de terapêutica oncológica, rapidamente, poderão encontrar algum aconselhamento.

Para isso há o site da Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução, os oncologistas e outros meios de informação específica para o doente.

SO | Garantir a fertilidade futura é uma das principais preocupações médicas, atualmente, dado que cada vez mais jovens são afetados pelas doenças oncológicas, que medidas estão a ser tomadas para que isso seja possível?

TAS | Para que não haja nenhum jovem em idade fértil, que comece a terapêutica oncológica, sem ter a possibilidade de preservar a sua fertilidade, é necessário uma difusão desta informação.

Podem até não querer, mas a decisão tem de ser do doente, não pode ser do médico. Por isso, todos devem ser informados sobre estas alternativas de preservação da fertilidade, que são seguras, eficazes e não implicam qualquer custo porque são comparticipadas pelo Serviço Nacional de Saúde.

SO | Uma nota final…

TAS | Não se esqueçam que há oportunidades que não se podem retomar. Portanto, se um doente oncológico jovem tem o diagnóstico de um cancro, mesmo que a terapêutica prevista não seja muito tóxica para a sua fertilidade, deve pensar que não vale a pena ter um B, pois os efeitos secundários podem ser superiores ao que prevê.

Assim, é de facto importante que retomem os projetos de parentalidade que podem ter sido impedidos.

SO/CS

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