24 Jun, 2024

Redes sociais são “tábua de salvação” para pessoas com problemas psicológicos sem recursos

O psiquiatra João Carlos Melo considera que as redes sociais são uma "tábua de salvação" para pessoas com ansiedade e depressão sem resposta no setor público, nem dinheiro para consultas privadas, encontrando na internet estratégias para estes problemas.

“Existem muitas páginas nas redes sociais sobre estes temas, com estratégias que ensinam as pessoas a lidar com situações de stresse, ansiedade, sintomas depressivos. Tem sido um avanço extraordinário” para pessoas que, de outra forma, não conseguiam ter acesso a consultas de Psicologia ou Psicoterapia, afirmou João Carlos Melo em entrevista à agência Lusa.

O psiquiatra reforçou que, só por terem redes sociais e acesso a estes sites, muitas pessoas têm “a grande oportunidade”, que antes não tinham, de poderem ser ajudadas e de aprender a desenvolver estratégias para lidar com situações difíceis.

Apesar de se correr o risco de “haver pessoas ou indicações menos sérias do que outras”, João Carlos Melo considerou que “é alguma ajuda”, comentando que, “como em tudo, tem que se separar o trigo do joio”.

Lamentou que não tenha havido o mesmo avanço em relação às situações mais graves de doenças mentais. “Por muito que se faça – e com os meios que tem, faz muito -, o Serviço Nacional de Saúde [SNS], não dá uma resposta suficientemente importante a todas as pessoas que têm doenças mais graves”, referiu.

João Carlos Melo disse que, se os doentes não tiverem dinheiro para recorrer a unidades privadas, “é muito difícil” fazer Psicoterapia no SNS. “É muito complicado e não é porque não haja boa vontade”, constatou, questionando como é que um psiquiatra que faz 20 consultas numa manhã pode realizar uma sessão de Psicoterapia.

Por outro lado, o SNS também tem poucos psicólogos, disse na entrevista a propósito do livro “Lugares escondidos da mente – Do mais sombrio ao mais luminoso da natureza humana”, que é lançado no sábado, em Lisboa.

“Infelizmente a saúde mental não tem ainda o apoio do Estado que seria desejável para ajudar muitas pessoas que estão em grande sofrimento”, lamentou o coordenador do Hospital de Dia do Serviço de Psiquiatria da Unidade Local de Saúde Amadora-Sintra.

Para ilustrar esta realidade, o especialista adiantou que os serviços de Psiquiatria de Lisboa e Vale do Tejo “estão completamente a abarrotar”. “Por vezes, tem de se dar alta a doentes que ainda não estão suficientemente bem, porque estão na urgência outros doentes muito mal à espera de serem internados”, referiu. Explicou que falou dos serviços de Psiquiatria de Lisboa e Vale do Tejo porque é os que conhece melhor, mas está convencido que nos noutros sítios a situação é a mesma.

João Carlos Melo alertou também para a falta de respostas de saúde mental para doentes psiquiátricos nos serviços prisionais, um problema que considerou “ainda mais gritante”. “Há muitas pessoas que estão presas com doenças [mentais] e não há uma resposta. Por muito que nos serviços prisionais se faça esse esforço, e faz, não é suficiente”, disse, comentando que a pena a que foram sujeitos “é somente” de privação da liberdade, “não é estarem privadas dos serviços prestados pelo Serviço Nacional de Saúde”.

Saudando o facto de se falar muito de saúde mental na comunicação social e nas redes sociais, bem como de figuras públicas darem voz a estes problemas, considerou que devia falar-se mais “dos serviços de Psiquiatria que estão superlotados” e dos direitos dos reclusos em terem ajuda dos serviços de Psiquiatria e de saúde mental.

 

LUSA

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