“Quer na obesidade quer na diabetes, tem havido uma grande revolução na forma como tratamos os doentes”
Os avanços nas áreas da diabetes e da obesidade, “as epidemias gémeas”, têm sido notórios nos últimos tempos. Davide Carvalho, presidente das 16.as Jornadas Práticas de Obesidade e Diabetes em MGF da Zona Norte, realça as terapêuticas modificadoras do prognóstico destas doenças e a necessidade de se fortalecer a articulação entre a Endocrinologia e a Medicina Geral e Familiar.

A Presidente de Honra das Jornadas é a endocrinologista Helena Cardoso. O que gostaria de destacar no percurso da professora?
A Prof.ª Helena Cardoso marcou uma geração de endocrinologistas, nomeadamente no Hospital de Santo António (HSA), no Porto. Destaco ainda o seu papel em sociedades científicas na área da obesidade e da Endocrinologia. De forma indelével, tem tido um papel muito importante na formação pré e pós-graduada. É uma personalidade que, ao longo da sua carreira, se dedicou de corpo e alma à formação, com grande benefício para os internos do HSA, mas também para os colegas de Medicina Geral e Familiar, com quem sempre teve uma relação fantástica.
Relativamente à temática da obesidade, por que razão ainda é uma doença subdiagnosticada e subtratada? Será o estigma?
Há vários aspetos que têm corrido menos bem… Primeiro, a obesidade infantil é um problema gravíssimo em Portugal, somos um dos países da Europa com maior prevalência e, obviamente, crianças obesas vão acabar por ser jovens e adultos obesos.
Nos últimos anos, houve mudanças importantes como o reconhecimento da obesidade como doença por parte da Organização Mundial de Saúde. Todavia, nem sempre se tem passado à prática, adotando as terapêuticas mais adequadas. O tratamento da obesidade continua, obviamente, a assentar na mudança de estilos de vida, com a adoção de uma alimentação saudável e a prática regular de exercício físico. Mas, a par destas medidas não farmacológicas, têm surgido medicamentos extremamente eficazes na redução do peso, que, atualmente, ainda não são comparticipados.
A solução do problema da obesidade não deve ser diferente de país para país e a comparticipação é um ponto fundamental. De tal modo que um grupo de colegas europeus, entre os quais o atual presidente da Sociedade Europeia para o Estudo da Diabetes, Chantal Matthieu, e o seu antecessor Stefano Del Prato, elaboraram um documento a pedir à União Europeia a comparticipação destes fármacos. A sua entrega decorreu no dia 24 de junho; foi um momento marcante. A lógica é a seguinte: não existe necessidade de esperar que as pessoas obesas progridam para diabetes para se começar a pensar no uso destes medicamentos, podemos prevenir o aparecimento da diabetes pelo uso destas terapêuticas. Daí a sua comparticipação. Estes fármacos são muito bem tolerados e eficazes e é preciso melhorar o acesso aos mesmos.
E na área da diabetes? Como vê a atual situação?
Nos últimos anos, assistimos à introdução de duas novas classes terapêuticas: os inibidores dos SGLT 2 e os agonistas do recetor GLP-1, que modificaram o tratamento da diabetes. Setenta e cinco por cento dos doentes diabéticos morrem de doença cardiovascular e estes medicamentos contribuem para a diminuição de eventos cardiovasculares.
Além disso, hoje, há também novidades na diabetes tipo 1, que pode ser diagnosticada numa fase pré-sintomática, isto é numa fase de normoglicemia, apenas com a presença de anticorpos anti-ilhéus – anti GAD, Anti Zn8, ICA -, permitindo o tratamento antes da doença em si mesma. Quer na obesidade quer na diabetes, tem havido grandes revoluções na forma como tratamos os doentes.
Como vê, atualmente, a polémica em torno do uso de substâncias para a diabetes que estão a ser usadas para pessoas com excesso de peso?
Até há pouco tempo, o semaglutido só estava disponível para tratar diabetes, mas atualmente há uma nova formulação para a obesidade, que é muito bem tolerada. O problema é a falta de comparticipação, daí o documento que vai ser entregue à Comissão Europeia.
Quais os principais desafios que os colegas de MGF enfrentam no diagnóstico e tratamento da obesidade e da diabetes?
Um dos grandes desafios é contar com o apoio de nutricionistas nos centros de saúde, que são absolutamente indispensáveis no tratamento. A promoção da atividade/exercício físico é outra barreira complexa, sendo importante dotar os médicos de família de armas que os ajudem a estimular a prática de exercício. Já foram estabelecidos, inclusive, contactos com a Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, para que haja formação neste âmbito. Quer na obesidade quer na diabetes é importante criar equipas inter e multidisciplinares e, de preferência, dedicadas, para que se consigam os melhores resultados.
A expansão das unidades locais de saúde (ULS) podem ser uma mais-valia na articulação com a equipa de Nutrição do hospital ou, na prática, os cuidados de saúde primários esbarram na escassez de recursos humanos?
O caminho vai-se fazendo… Há situações muito díspares, depende da realidade de cada ULS. Umas têm mais condições, outras menos. Mas é preciso reconhecer o impacto destas doenças e apostar mais em nutricionistas.
Em Lisboa, a Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal (APDP) iniciou o rastreio à diabetes tipo 1 em determinadas idades. E no Norte, qual é a situação?
Sim, também existe essa possibilidade nas ULS Matosinhos e no serviço de Pediatria do São João. Os serviços de Pediatria estão a recorrer ao rastreamento dos anticorpos, iniciando, sempre que indicado, a terapêutica para prevenir o aparecimento da diabetes tipo 1. Nas Jornadas vamos abordar este tema. Estes rastreios são muito importantes, mas também temos que conseguir dar resposta, após um diagnóstico. Acredito que vamos ter uma enorme revolução na diabetes tipo 1, nos próximos tempos.
No que diz respeito ao tema das novas tecnologias, como endocrinologista nota que estas têm sido, de facto, uma mais-valia na monitorização da diabetes?
Sem dúvida! A monitorização contínua, através dos sensores, veio modificar completamente o tratamento da diabetes, porque consegue-se avaliar, de forma dinâmica, as glicemias. Por exemplo, uma das dúvidas mais comuns, antes destas tecnologias, era se o doente, durante a noite, havia tido uma hipoglicemia. Atualmente, em vez de se ter uma ‘fotografia’, temos um ‘vídeo’ de 24 horas da glicemia. Dessa forma, é muito mais fácil ajustar as terapêuticas. Outra boa notícia é ter-se avançado com a disponibilização de bombas perfusoras de insulina para todas as pessoas com diabetes tipo 1. Este avanço mostra o empenho dos profissionais e dos serviços, que têm feito um esforço extra para receber ainda mais doentes que vão ter acesso a estes dispositivos. As complicações crónicas da diabetes têm vindo a reduzir muito graças à tecnologia, que permite melhor controlo da doença.
Vai realizar-se um workshop “Descomplicar a insulina na diabetes tipo 2”. O que é ainda é complicado na gestão desta terapêutica?
Há vários tipos de insulina: basal, pré-mistura e rápida. Cada uma se adequada a dado doente. O objetivo é sempre simplificar o tratamento, individualizando-o. No workshop vão ser apresentados vários casos clínicos para se fazer uma revisão da informação mais atual.
Este ano vão ter o Prémio Menarini. Em que consiste?
A ideia é premiar os colegas de MGF; é um estímulo pelo trabalho que desempenham. Haverá um 1.º e 2.º Prémios para os melhores trabalhos apresentados pelos colegas de MGF. Vai ser um momento importante de partilha de experiências e de discussão. É com grande alegria que sei que foram submetidos duas dezenas de trabalhos candidatos.
No futuro, como vê a articulação entre a MGF e a Endocrinologia nas áreas da obesidade e da diabetes?
Temos que fortalecer esta colaboração. Os cuidados primários e os hospitalares vivem lado a lado e, no futuro, acredito que vamos trabalhar de forma cada vez mais estreita, com benefícios para os doentes, quer quando internados quer quando necessitam de cuidados nas consultas hospitalares, quer quando são reencaminhados novamente para os colegas de MGF. Os novos sistemas de comunicação já facilitam esta articulação, mas esse objetivo tem de ser um propósito, um projeto a concretizar.
Maria João Garcia












